A “maçada” de gerir pessoas

Delta Coders
19 de Agosto 2011 | 18:12

Opinião de Isabel Barata

Administradora do Grupo SATA e conselheira da Revista HR Portugal

Gerir pessoas, referidas nas empresas genericamente como Recursos Humanos, é algo que para (ainda) muitos gestores de orientação mais econometrista se revela uma grande maçada. Os colaboradores são um mal necessário, alguns até são simpáticos, mas a manutenção da paz social, da motivação e da produtividade constitui uma tarefa que por vezes se revela titânica, com alguns detalhes épicos.

No nosso país, em muitas instituições e empresas, parece que entidade patronal e colaboradores residem em lados opostos de uma mesma trincheira. Obviamente, este sentimento gera inúmeros mal-entendidos e uma considerável ineficiência.

Sendo básica: as empresas, salvo casos de excepção, necessitam de colaboradores e os colaboradores precisam das empresas, tanto mais que não vivemos num país cujas características ou cultura façam de cada cidadão em idade activa um empresário em potencial, e também porque o estado não pode empregar todos, como até já se constatou em Cuba.

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Seguindo a minha simplista linha de pensamento: para que todos se sintam felizes, as empresas precisam de contratar e manter bons colaboradores, e os adultos em idade activa necessitam de arranjar contratadores fiáveis e estimulantes.

É uma espécie de casamento, mais aligeirado, mas que também assume contornos emocionais.

Acontece que a maior parte de nós sabe quanto custa manter uma relação a dois… especialmente quando não existem muitas hipóteses de divórcio (no caso dos empregadores), ou não se vislumbram hipóteses de um outro casamento mais auspicioso (no caso dos empregados).

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Os Estados Unidos, país de onde provêm as técnicas mais avançadas e inovadoras de gestão de recursos humanos e onde se encontram algumas das empresas mais lucrativas mundiais, possuem um mercado de trabalho flexível e de oferta de emprego relativamente abundante (ainda que actualmente ligeiramente deprimida, dada a actual conjuntura económica). Possuem ainda uma mentalidade protestante, essencialmente prática.

Os inúmeros casos de boa gestão de pessoas que ilustram os inúmeros manuais de gestão das secções da especialidade, desenganem-se os crédulos e os românticos, não têm, na sua génese, qualquer motivação relacionada com a filantropia ou com afecto pela humanidade.

A explicação destas práticas fundamenta-se apenas e só no facto de alguns gestores mais espertos terem descoberto que pessoas motivadas e participativas são mais produtivas.

Na Europa, não obstante o fascínio dos gestores por alguns gurus do novo mundo, investir nas pessoas continua a ser mais um conjunto de boas intenções do que uma realidade.

No princípio do ano orçamentam–se e planeiam-se um conjunto de acções destinadas ao desenvolvimento dos colaboradores, que raramente se acabam por implementar na totalidade, porque a situação económica implica contenção (é sempre mais importante investir em tecnologia, equipamentos ou comunicação externa), ou porque as acções implicam a presença de gestores, o contacto directo com os colaboradores, etc., o que constitui um contratempo.

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Ficam assim as acções da área dos Recursos Humanos reduzidas às habituais selecções, o plano de formação, o jantar de Natal, o aniversário da empresa, a revista interna e pouco mais. Muitas vezes, vai-se mais longe e realizam-se duas ou três acções “desgarradas”, mal comunicadas, mas que aparentemente dão um ar moderno.

Faltam, na maior parte dos casos, a convicção, a visão estratégica e um plano de comunicação eficaz que permita aos colaboradores perceber qual o sentido da marcha e o que deles é esperado, num processo de mudança/melhoria. Existem obviamente empresas nacionais que já perceberam que este não é o caminho, e que têm desenvolvido percursos em termos das suas políticas de envolvimento e desenvolvimento das pessoas que são verdadeiros “case studies”.

Penso, contudo, que se precisamos de melhores colaboradores, necessitamos igualmente de dirigentes e gestores com uma visão estratégica mais lata e atenta às pessoas, a bem da economia e produtividade nacionais.

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