Quem nunca “sacrificou” o seu tempo, saúde, família e/ou vida social em detrimento de satisfação pessoal, ambição ou reconhecimento financeiro?
Por Rita Oliveira Pelica, chief Energy officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs
Viver ininterruptamente em busca da felicidade e do propósito e trabalhar numa área que se adora pode ser uma história sem um final feliz. A carga que colocamos sobre os nossos ombros (não só, mas também…), o desgaste emocional implícito, leva-nos a sermos uma fonte inesgotável de stress para nós próprios. Haverá um preço a pagar por se ter uma vida profissional na qual depositamos tanto entusiasmo, energia, paixão e ambição, mas que prejudica de forma desproporcionada as restantes esferas da vida?
Na mente do intraempreendedor, o trabalho é um jogo em que é preciso ir somando novas conquistas. Permitam-me a comparação com o conhecido acrónimo que se utiliza na gamificação, o PBL – points, badges e leaderboards: a vontade de progredir e atingir novos desafios, o desejo de se alcançarem outros níveis com outras recompensas associadas. Level up. A dada altura, o flow torna-se viciante. As emoções estão ao rubro. Parece que nada mais importa neste estado de total absorção. A vida extra-laboral entra em modo stand-by. A médio/ longo prazo, o bem-estar é substituído pelo mal-estar. Game over para a saúde física e/ou mental.
Sou, por defeito, optimista. Entendo o “lado bom” deste hiperfoco (mais um conceito da moda!), induzido pelo envolvimento e pela motivação no que se está a fazer, sendo caracterizado por um estado intenso de atenção selectiva; durante um estado de hiperfoco, há uma diminuição da percepção dos estímulos que não são relevantes para a actividade que se está a fazer, e o desempenho melhora. A produtividade agradece.
No entanto, gosto de pensar contraintuitivamente. E desafio, quem por aqui passar, a não ser um non-player character (NPC) e a pensar por si. Perdoem-me os Monty Phyton, mas “always look on the bright side of life” não é suficiente. Importa explorar o “lado negro” do intraempreendedorismo. Hiperfoco levado ao extremo. Quem nunca “sacrificou” o seu tempo, saúde, família e/ou vida social em detrimento de satisfação pessoal, ambição ou reconhecimento financeiro? Por um projecto incrível ou por uma ideia épica? Acelerar, acelerar – em nome da inovação, e nem apreciar a viagem. Não saber parar nem desligar, por conta própria. Até ao dia em que o nosso sistema decide fazer shut down…
Começam a emergir slow movements, e iniciativas e programas que se focam nestas preocupações individuais, organizacionais e sociais. Assuntos considerados tabus são quebrados e “os elefantes na sala” aparecem. Talvez não exista apenas uma linha que separe o bem-estar do mal-estar, mas todos nós podemos traçar a nossa “linha imaginária” e decidir criar os limites para as esferas da nossa vida, integrando a vertente pessoal e a profissional.
Intraempreender exige “inteligência humana”, inspiração na vida real e uma forte gestão das emoções: implica um investimento emocional elevado. E o maior investimento que cada um de nós pode fazer é em si, no seu bem-estar (e, consequentemente, também as organizações beneficiam). Não será este o maior acto de heroísmo, nos dias de hoje?














