Andreia Fernandes, AATE: «A transição no sector da energia gera necessidade de reconversão rápida de perfis»

Com uma missão clara de reforçar a competitividade e resiliência do ecossistema energético nacional, a Associação Aliança para a Transição Energética (AATE) aposta na inovação, colaboração e internacionalização como pilares estratégicos. A directora-executiva, Andreia Fernandes, partilha os desafios e oportunidades do sector, e o papel que Portugal pode desempenhar como líder em soluções energéticas sustentáveis.

Por Tânia Reis

 

A Associação Aliança para a Transição Energética (AATE) foi criada em 2022, mas só dois anos depois iniciou actividade. Hoje tem mais de três dezenas de membros, que vão de empresas como Sonae, Efacec e ISQ, à academia como as Universidades de Aveiro e de Coimbra e o Instituto Superior Técnico.

Qual a missão da AATE e que papel desempenha no ecossistema energético nacional?

A missão da AATE é reforçar a competitividade e a resiliência do ecossistema energético português, promovendo produtos e soluções inovadoras com potencial exportador para colocar Portugal na liderança da descarbonização e democratização da energia. A associação funciona como plataforma de articulação entre empresas, centros de I&D e entidades públicas, apoiando candidaturas, projectos colaborativos e internacionalização.

Que objectivos estratégicos têm planeados para os próximos 3 a 5 anos?

Os objectivos estratégicos centram-se em acelerar a inovação e a transferência de tecnologia para o mercado, promover a exportação de soluções energéticas nacionais, e aumentar investimento em I&D, promovendo parcerias público-privadas de co-investimento. Concretamente, a AATE apoia a criação de portefólios de inovação financiáveis, o desenvolvimento de competências e a consolidação de cadeias de valor que sustentem crescimento e emprego qualificado.

Como é que se “posiciona Portugal como líder em soluções energéticas sustentáveis”. Que desafios identifica?

Posiciona-se combinando a sua vantagem natural – por exemplo recursos renováveis ou cidades inteligentes -, talento científico e capacidade industrial para levar produtos competitivos ao mercado externo. Os desafios são claros: converter pilotos em escala industrial, simplificar licenciamento, garantir financiamento privado e público de forma coordenada, bem como suprir a falta de competências especializadas. A AATE trabalha para transformar estas fragilidades em serviços e projectos replicáveis.

E oportunidades?

As oportunidades são muito práticas: exportar tecnologias de armazenamento, digitalização de redes, soluções de mobilidade elétrica e serviços de reabilitação de infra-estrutura energética. Há janelas de mercado em sectores adjacentes (infra-estruturas portuárias, aquicultura, indústria transformadora) e financiamento europeu para escalamento. A AATE pretende catalisar consórcios que tirem partido desses instrumentos e da procura internacional.

Assumiu o cargo de directora executiva da Associação há três meses. Que balanço faz da experiência até agora? E que aprendizagens destaca?

A entrada é recente e ainda estou a recolher inputs de projectos em curso, mas o balanço é positivo. Encontro um ecossistema empenhado e uma agenda ambiciosa, onde a governança horizontal acelera adesão e o impacto exige execução disciplinada. Multiplicar competências locais é tão estratégico quanto assegurar financiamento.

Com uma rede tão diversa de membros – desde universidades a empresas e entidades públicas – como se garante uma colaboração eficaz?

A colaboração eficaz faz-se com governança clara, objectivos partilhados e métricas. A AATE planeia promover fóruns temáticos, roadmaps técnicos e equipas mistas empresa-I&D. A comunicação transparente e ciclos curtos de entrega mantêm todos alinhados.

Pode partilhar um exemplo de um projecto colaborativo que demonstre o impacto da AATE?

Um exemplo é a própria Agenda Mobilizadora ATE, que integra quase uma centena de empresas e centros de I&D e visa gerar produtos com escala exportável, atrair investimento em I&D e criar postos de trabalho qualificados. Este projecto serve de plataforma para iniciativas de descarbonização, digitalização e capacitação, e já está a articular pilotos em sectores críticos. A própria estrutura do PRR e as parcerias associadas ilustram impacto colaborativo.

Como é que a AATE promove a inovação em áreas críticas da transição energética?

Através de três alavancas: financiamento dirigido a projectos de TRL elevado; criação de living labs e pilotos reais com empresas e municípios; e formação especializada com laboratórios e universidades. A Associação facilita a ligação entre investigação e mercado e acelera validação em ambiente real.

Quais são os maiores desafios na atracção e retenção de talento para o sector da energia?

Os principais desafios são a lacuna de competências digitais e técnicas, a percepção do sector por jovens talentos, e competição com mercados internacionais. Além disso, a transição gera necessidade de reconversão rápida de perfis. Para reter talento, é preciso combinar carreira técnica com carreira de impacto e oferecer trajectórias formativas contínuas e projectos motivadores.

Como está a AATE a antecipar as necessidades de competências futuras no sector?

A AATE trabalha com universidades e centros tecnológicos para mapear lacunas e desenhar cursos modulares e traineeships. Promove programas de capacitação em smart grids, digitalização, gestão de projectos e instalação de tecnologias renováveis. Também articula com empresas associadas programas de estágio e upskilling para reconversão. Tudo isto visa reduzir o défice de competências e acelerar colocação.

Como vê a evolução do sector energético em Portugal nos próximos anos?

Vejo um sector mais digitalizado, descentralizado e orientado para exportação. Haverá maior integração entre electrificação, armazenamento e gases sustentáveis. Empresas nacionais terão oportunidades de escalar soluções. O planeamento, execução e a governação serão o factor diferenciador entre países que lideram e os que ficam para trás.

Que impacto terá a transição energética no mundo do trabalho, especialmente em termos de novas profissões e reconversão de funções?

Haverá novas profissões técnicas (integradores de sistemas de armazenamento, especialistas em carregamento V2G, data-scientists para redes inteligentes) e funções híbridas (project management + I&D aplicada). Ao mesmo tempo, muitas funções existentes serão reconvertidas com componentes digitais. A agenda de formação e o redesenho de carreiras serão cruciais para permitir transições justas e manter produtividade.

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