Adolfo Mesquita Nunes: «Usar a Inteligência Artificial em Recursos Humanos é de risco elevado»

Margarida Lopes
20 de Março 2026 | 10:10
Adolfo Mesquita Nunes: «Usar a Inteligência Artificial em Recursos Humanos é de risco elevado»

Na abertura da XXXI Conferência Human Resources, que se realizou ontem, no Museu do Oriente, em Lisboa, o keynote speaker Adolfo Mesquita Nunes, autor de “Algoritmocracia”, alertou que o uso de Inteligência Artificial na área dos Recursos Humanos acarreta um risco elevado que deve ser acautelado. Mas não deixou de evidenciar as inúmeras oportunidades.

Escolha a Human Resources como fonte preferida no Google Escolher ›

 

Quando se fala de Inteligência Artificial (IA) na área dos recursos humanos ou no mundo do trabalho, o mais comum é ouvir falar das extraordinárias potencialidades que esta tecnologia traz, começou por referir Adolfo Mesquita Nunes, exemplificando: «Reuniões que podem ser desgravadas com a atribuição de tarefas, fluxogramas e planos de actividades num instante, sistemas que permitem resumir relatórios e identificar pontos críticos e melhorar rapidamente a rapidez com que se trabalha. Sistemas capazes de filtrar milhões e milhões de currículos, encontrar padrões, ajudar a avaliar a performance de trabalhadores. Enfim, o mundo de oportunidades é enorme.»

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Não obstante, alertou para o facto de a Inteligência Artificial (IA) ser considerada de risco elevado quando se trata de Recursos Humanos. Não é (só) ele quem o diz, há um regulamento europeu que classifica a área dos Recursos Humanos, como uma das áreas em que a IA tem um maior nível de risco. «É essencial, quando se fala das oportunidades da IA, ter alguém a lembrar dos riscos, não para que não se utilize este tecnologia, pelo contrário, para que se utilize, mas com os cuidados necessários para não abrir uma caixa pandora de responsabilidades», sublinhou.

«É legítimo pensar que o risco elevado advém da circunstância da inteligência artificial ir destruir muitos postos de trabalho. Não é essa a razão», ainda que efectivamente isso vá acontecer, constata. Não é esse o principal tema, porque «todas as revoluções tecnológicas a que a humanidade assistiu, criaram muito mais postos de trabalho, do que aqueles que destruíram. O balanço foi sempre positivo e a sociedade ficou sempre mais próspera e mais justa.. Porém, há qualquer coisa de diferente aqui», alertou. «Desde logo, a velocidade. Pensem no tempo que demorou entre a electricidade ser inventada e termos electricidade nas nossas casas, foi mais de um século. Pensem no tempo que demorou desde que se criou o carro, até que o carro passou a ser algo que toda a gente tem. Pensem no tempo que demorou entre o computador ter sido criado e a internet. Agora pensem no tempo que passou entre a criação do ChatGPT e a transformação que aconteceu. Esta transformação é muito mais veloz do que todas as outras. Em todas as outras transformações houve tempo para nos adaptarmos, requalificarmos, percebermos o que estava a acontecer.» Por isso, aqui «o desafio que se coloca não é tanto de saber se vai criar mais postos de trabalho, do que aqueles que vai destruir, mas se haverá condições de requalificar todas as pessoas precisas para aproveitar as oportunidades dos trabalhos que vão ser criadas
Adolfo Mesquita Nunes afirma que não é verdade que sejamos apenas substituídos por pessoas que utilizam inteligência artificial e que o nosso posto de trabalho não está em risco. «Muitos de nós vamos perder grande parte das nossas funções, vamos ser substituídos, porque vai ser mais fácil ou mais barato. A ilusão de que não vai haver perdas de emprego é uma ilusão falsa. Não significa que seja dramática, se fizermos as políticas certas

 

O que as empresas devem ter em conta 
Após este enquadramento, o autor deixa um conselho às empresas, e em particular às áreas de Recursos Humanos. «Quando adoptam uma estratégia de Inteligência Artificial, é responsabilidade da empresa olhar já para aquilo que vai ser necessário a curto e médio prazo, a necessidade de adaptação da força de trabalho que tem. Não é “à última da hora” que se começa a despedir ou requalificar pessoas, mas logo no momento em que começam a adoptar a estratégia de IA, que  deve vir acompanhada de uma política séria de requalificação da força de trabalho».
Mas ainda não é por isso que a IA é de risco elevado na área do trabalho. «Quando há uma enorme facilidade de aceder a conhecimento, de fazer perguntas e de ter respostas imediatas, vão ser precisas menos pessoas nas empresas, menos juniores. Mas o que acontece do ponto de vista do conhecimento numa empresa, quando o conhecimento – aquilo que nos permite aprender e crescer – está quase todo a ser delegado numa máquina? Qual é a sustentabilidade do modelo profissional desta forma?».
Sobretudo para serviços profissionais, como o da Advocacia, em que há um formato de pirâmide, vai passar a existir um formato de obelisco, em que se tem quase o mesmo número de sócios, ou directores, e de trabalhadores, acredita o advogado, alertando para a necessidade de reflexão sobre «como é que se garante nas empresas, e nos Recursos Humanos, que o acesso aos sistemas de IA, não substitui a aquisição de conhecimento. Isto é um enorme desafio, porque tendemos a delegar rapidamente na máquina aquilo que a máquina pode fazer por nós. E é uma ilusão pensar que vamos estar permanentemente a supervisionar as máquinas. Não vamos. Há um desafio de literacia e conhecimento em IA.»
O keynote speaker identificou ainda outro desafio de conhecimento que é «como manter o conhecimento a crescer para as pessoas aprenderem e terem experiência para poderem ir progredindo na carreira, ao mesmo tempo que a empresa continua a ter a sua capacidade de conhecimento e gestão». Caso isto não aconteça, «aquilo que se vai passar, é que as empresas delegam em sistemas, uns adquiridos, outros desenvolvidos por si, os processos de decisão e a capacidade de pensamento de uma empresa».

 

Continue a ler após a publicidade

Afinal, por que utilizar a IA em Recursos Humanos é um risco elevado?
Respondendo à questão deixada no ar, «por que é que utilizar a IA em recursos humanos é risco elevado», Adolfo Mesquita Nunes explicou que o risco elevado vem, essencialmente, duas características que a IA tem e que não dá para mudar.

O primeiro está relacionado com a opacidade. «A inteligência artificial pode ser espetacular, e é, pode ser sofisticada, e é, mas há um nível a partir do qual não sabemos por que é que diz ou recomenda qualquer coisa. Isto aplica-se mesmo aos próprios criadores de algoritmos. Ou seja, conseguem explicar mais ou menos a lógica do algoritmo que criaram, mas depois o sistema vai aprendendo, vai crescendo e não vai ser possível explicar, por que é que há uma decisão tomada num determinado sentido e não noutros sentidos., A este fenómeno chama-se black box e é genético da inteligência artificial», esclarece o especialista. «Podemos tentar melhorar isto, mas será difícil, porque os algoritmos vão aprender».

Continue a ler após a publicidade
«É preciso questionar até onde queremos ir, ao delegar em sistemas de IA que não conseguimos explicar na totalidade, o processo de decisão utilizado nas empresas», defende. Explicando que aquilo que o legislador europeu acha é que «quando se decide quem é promovido na empresa, quem é despedido, quem tem um processo disciplinar, tem que se garantir que o sistema tenha algum tipo de explicação para garantir que o empregador sabe o que é que está a fazer, sabe comunicar ao trabalhador,  e que o trabalhador tem capacidade de perceber e, se quiser, contestar.» Ou seja, quando se utilizam sistemas de inteligência artificial na área dos Recursos Humanos, é preciso garantir que o sistema tem, pelo menos, adequados níveis de transparência, tanto quanto é possível, para garantir que os empregadores conseguem explicar as decisões e se conseguem responsabilizar por elas.
A outra razão pela qual a utilização de IA nos Recursos Humanos é considerada de risco elevado, está relacionada com a facilidade, ou com a predisposição da IA para replicar enviesamentos. «Todos temos preconceitos, por isso é uma ilusão pensar que o sistema, não vai enviesar por si. Aquilo que a prática tem estado a mostrar é que os sistemas são profundamente discriminadores quando não há cuidado suficiente na monitorização dos seus resultados, já para não falar, quando não há cuidado nos dados que se incluem neles», enfatisou o autor do livro “Algoritmocracia”.
Deixou outro alerta: «Quando confiamos em sistemas de inteligência artificial, a eficiência, na maior parte das vezes, não pode ser o único critério que deve ser tido em conta. É preciso critério humano, mesmo quando se programam os algoritmos, sob pena de termos decisões que podem ser discriminatórias e enviesadas. Isto que pode acontecer, se não tivermos cuidado com aquilo que estamos a fazer»
A este propósito, as regras europeias dizem que «é preciso as empresas terem a noção que se vão pedir a sistemas de IA que recrutem, que avaliem, têm de ter um nível de responsabilidade e um nível de garantia que os sistemas funcionam em condições», realçou o advogado, reiterando que esta é uma responsabilidade que as empresas têm de assumir quando utilizam estes sistemas.
Actualmente, convencionou-se, que se for uma máquina a decidir, a responsabilidade não é do humano, é de quem a programou. Esta ideia é contrariada por Adolfo Mesquita Nunes, que atribuiu responsabilidade a quem utiliza o sistema, uma vez que as regras dizem que tem que haver sempre supervisão, e decisão, humana para garantir precisamente que houve um filtro humano nas decisões.
Também se convencionou que os sistemas de IA são mais neutros, “desenviesados” e eficientes do que os humanos. E, portanto, será preferível aquilo que “dizem”. Outra ideia contrariada pelo orador, que se baseia no regulamento para justificar a sua posição. «Aquilo que o regulamento vem a dizer é que isso não é necessariamente verdade. Portanto, quando empresas utilizam a IA nos Recursos Humanos, podem estar a optar entre melhorar brutalmente a eficiência, os processos de recrutamento, torná-los mais competitivos, mais neutros, mais eficientes, ou então abrir a porta a uma série de responsabilidades.»

Para Adolfo Mesquita Nunes a escolha é simples: «aderir à inteligência artificial, cumprindo as regras». Justificando que é por isso que a IA não é um tema da IT, «porque se fosse um tema da IT, rapidamente resvalava em vários problemas ideológicos, éticos e legais», não tendo dúvidas que este é desafio que as empresas portuguesas estão a gerir perfeitamente.

Continue a ler após a publicidade
O keynote speaker identificou ainda outro desafio que a IA traz à Gestão de Pessoas e que a classifica como de risco elevado: a criação dos agentes. Explicando que «os agentes de inteligência artificial são, no fundo, sistemas de IA que, para além de poderem recomendar, prever e até indicar o sentido da decisão, executam a decisão. Ou seja, em RH, vai ser possível ter agentes que entrevistam, que seleccionam e eliminam currículos, que acompanham o onboarding dos colaboradores, que celebram contratos..» Assim, «a Gestão de Recursos Humanos, vai ser não apenas de humanos, mas também de agentes de IA. Por isso, é preciso ter uma estratégia de agentes nas empresas.»
A questão da IA levanta também questões na área da cibersegurança. «Ter sistemas de IA que entram nos processos de decisão das empresas, pode fazer com que os ataques cibernéticos sejam bastante mais subtis. E sejam apenas desvirtuar o sistema, para que este comece a tomar más decisões, decisões essas que, se não houver monitorização permanente, podem passar despercebidas durante meses, ou anos,» alertou o advogado, sublinhando: «quando uma empresa utiliza sistemas de IA em todas as suas áreas, mas sobretudo nas suas áreas críticas como Recursos Humanos, tem de ter a certeza que os seus sistemas são robustos e resilientes o suficiente para evitar estes ataques».
Mas Adolfo Mesquita Nunes não tem dúvidas que «a IA é algo maravilhoso aquilo que está a acontecer nas nossas vidas. A única coisa que é preciso garantir para chegar em segurança ao destino, é que percebemos todos os riscos e começar a prepará-los, um a um. E a maior parte deles é resolúvel, mas a responsabilidade não é da máquina, é nossa. Quando delegamos tudo numa máquina, não podemos delegar a nossa responsabilidade.»
«Os Recursos Humanos e as empresas lidam todos os dias com a vida de pessoas, porque decidem se um colaborador fica ou não, ganha mais ou ganha menos, é promovido ou não é, e é precisamente por causa disso que se pede que, quando adoptem sistemas de IA, o façam tendo em conta essa enorme responsabilidade», concluiu.
Partilhar


Mais Notícias