Por Gee Soares, vice-presidente do IPVD e directora-geral da Herbalife
Durante muito tempo, habituámo-nos a olhar para a idade como uma espécie de rótulo profissional. Os mais jovens eram vistos como demasiado inexperientes; os mais velhos, como menos adaptáveis ou distantes da inovação. Esta visão, ainda presente em muitas organizações, traduz-se frequentemente num desperdício de talento alimentado por preconceitos geracionais.
Num mercado de trabalho em constante transformação, a diversidade pode ser uma vantagem competitiva: gerações a trabalhar lado a lado, convivendo no mesmo espaço profissional, trazendo experiências, perspectivas e formas distintas de pensar, comunicar e trabalhar. A própria OCDE concluiu, no relatório – Promoting an Age-Inclusive Workforce, que empresas com maior diversidade etária tendem a ser mais produtivas, precisamente devido à complementaridade entre experiência e inovação.
Ao mesmo tempo, a realidade demográfica europeia torna esta discussão inevitável. Em 2024, mais de 21% da população da União Europeia tinha já mais de 65 anos (Eurostat), um número que continuará a crescer nas próximas décadas. Em Portugal, o envelhecimento da população obriga a repensar os modelos tradicionais de atracção de talento.
Poucos sectores ilustram tão bem esta transversalidade etária como a venda directa. São raros os modelos de negócio que conseguem reunir pessoas tão diferentes e promover uma colaboração tão natural entre gerações. Talvez porque, na sua essência, a venda directa continua a depender daquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir totalmente: relações humanas, confiança e capacidade de comunicação.
Os dados mais recentes da WFDSA (2024) confirmam esta realidade com números concretos. A nível global, a força de vendas de mais de 104 milhões de agentes distribui-se de forma notavelmente equilibrada entre todas as faixas etárias: 24,1% têm entre 35 e 44 anos, outros 24,1% entre 45 e 54, 18,1% entre 55 e 64, e 10,3% têm 65 anos ou mais. Mais significativo ainda é o facto de a representação dos profissionais com 55 ou mais anos ter crescido de 21% em 2021 para 28% em 2024, o valor mais elevado do período analisado. Este crescimento demonstra que o sector não só acolhe como atrai e retém profissionais mais experientes, contrariando de forma objectiva os estereótipos que associam os mais seniores a menor produtividade ou menor capacidade de adaptação.
Neste sector coexistem jovens empreendedores digitais e profissionais mais experientes, habituados à comunicação presencial, à construção de relações de confiança e à fidelização de clientes ao longo do tempo.
Enquanto as gerações mais jovens introduzem novas ferramentas tecnológicas, fluidez digital e uma maior capacidade de adaptação às tendências de consumo, as gerações mais experientes acrescentam maturidade, disciplina, resiliência e inteligência emocional. Não se trata de escolher entre inovação ou experiência.
É precisamente nesta complementaridade que reside uma das maiores forças do sector. Quando diferentes gerações trabalham em conjunto, criam-se ambientes mais ricos, criativos e humanos. Os mais novos aprendem sobre proximidade, empatia e fidelização, os mais experientes descobrem novas ferramentas, novas linguagens e novas formas de chegar ao mercado. Todos ganham.
Num momento em que tanto se fala de inclusão no mercado de trabalho, talvez seja importante reconhecer que a idade não deve ser um critério de exclusão, mas sim um factor de enriquecimento colectivo. Os dados europeus são reveladores: 52% dos europeus identificam a idade como o principal factor que coloca um candidato em desvantagem num processo de recrutamento (Eurobarómetro, 2023), e seis em cada 10 trabalhadores com mais de 50 anos reportam ter experienciado alguma forma de discriminação etária (AARP, 2024). A experiência não impede a inovação. E a juventude não invalida a competência. A venda directa demonstra-o de forma concreta ao oferecer um modelo onde a entrada não depende de um processo selectivo convencional, mas da vontade e da capacidade individual de construir relações e gerar valor.
Na venda directa, esta realidade torna-se particularmente evidente porque o sector oferece algo cada vez mais raro: espaço para diferentes ritmos de vida, diferentes objectivos e diferentes percursos profissionais. Segundo o estudo Ipsos/Seldia (2023), realizado junto de mais de 25.000 agentes de venda directa em 12 países europeus, 68% exercem a actividade em paralelo com outra ocupação. Há quem procure um complemento de rendimento. E há também quem encontre aqui uma oportunidade de reinvenção, autonomia e valorização pessoal. Os números confirmam esta dimensão transformadora: 74% dos agentes de venda directa europeus afirmam ter melhorado a autoestima e confiança através da actividade, e 72% desenvolveram competências de negócio e vendas (Ipsos/Seldia, 2023).
Talvez seja precisamente por isso que o sector continua a crescer e a atrair pessoas de perfis tão distintos. Porque, ao contrário de muitos outros sectores, consegue olhar primeiro para o potencial, e só depois para a idade.
E essa parece ser uma das formas mais inteligentes, sustentáveis e humanas de construir o futuro do trabalho.














