Continuemos a falar de futebol – do futebol de rua à gestão de pessoas

Human Resources
24 de Junho 2021 | 12:00
Continuemos a falar de futebol – do futebol de rua à gestão de pessoas

Por Isabel Moço, coordenadora e professora da Universidade Europeia

 

A metáfora do futebol de rua é perfeita para refletir sobre a gestão de pessoas. Do papel dos líderes, ao papel de cada um, passando pela atitude e comportamentos requeridos para “entrar em jogo”, parece-me que todos os gestores de pessoas deveriam explorar (eventualmente reviver também) esta ideia.

Uma lição importante do futebol de rua é que, geralmente “ninguém queria ir à baliza”. Se existisse um “gordo” seria ele “naturalmente” a ter esse papel, mas se não houvesse, rodavam todos pela baliza e a rotação acontecia com os golos. Estes lugares menos desejados têm de ser ocupados, e algumas organizações adotaram sistemas de rotação de funções, o que permite ter uma visão muito mais ampla e integrada do jogo. Naturalmente é necessário esforço de adaptação, aprendizagem e novas rotinas e relações, mas proporciona uma agilidade e capacidade de entender mais globalmente as coisas, ímpares.

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Quem escolhia os jogadores de cada equipa (os líderes reconhecidos pelos outros ou os “donos da bola”), olhava para todos os que estavam disponíveis, fossem poucos ou muitos, e fazia a sua avaliação e havia funções que era preciso preencher – mesmo que ninguém quisesse esse papel, alguém tinha de o assumir -se não fosse outro, seria ele mesmo. Havia, e hoje há nas empresas, papeis mais e menos interessantes, desafiantes e até diferentes em compensação (material e das outras), mas é apenas a necessidade que determina esses papeis, e como se referia acima, têm de ser de alguém. O que não estaria certo seria se, por mérito reconhecido do líder ou do dono da bola, outros não pudessem vir a ocupar esses lugares. Na rua, a jogar futebol, era assim – o jogo de hoje, determinava o papel que amanhã teríamos no jogo. Deixa-se aos leitores a questão – se os novos contextos e exigências da economia, os requisitos dos diversos stakeholders sobretudo a qualidade, resultados e satisfação, exigem organizações rápidas e ágeis na adaptação, este “modelo” do futebol de rua relativamente aos papéis rotativos, não deveria ser “o modelo”?

No futebol de rua de que me recordo, os melhores jogavam a “avançados” e os piores ficavam na “defesa”, com uma avaliação pública, frontal e por vezes sem outras oportunidades. As tardes para o jogo eram poucas e curtas, e gastar tempo a discutir quem, o quê ou quando não fazia sentido – o importante era jogar e contribuir para levar uma vitória para casa. Creio que nas empresas se consuma demasiado tempo com estas discussões, e quando são desnecessárias e inócuas e se o foco não se perder, as que ficam em demasia, deveriam ser prontamente acabadas. Por outro lado, jogadores que “queriam ser avançados,” mas “calhava” ficarem “defesas”, tudo davam para merecer a posição que desejavam – o que por vezes provocava uma equipa inteira na frente da baliza do adversário e uma enorme confusão. Mas a entrega e dedicação, vencia sempre.

A crítica estava sempre presente – a opinião também. Se havia justiça, seguia-se, mas se era infundada ou injusta a defesa de cada posição, poderia ir até à troca de uns tabefes e pontapés. Se a coisa não fosse demasiado séria, no dia seguinte com algumas marcas e ressentimentos, tudo passava logo que o jogo começava. Se assunto mais sério, então continuava-se o rebuliço até as partes se cansarem… ou uma “ganhar”. E como é hoje na gestão de pessoas? Distraímo-nos com o acessório ou conseguimos levar as pessoas a estarem focadas no essencial? Que interessa, por exemplo, se as pessoas cumprem escrupulosamente o horário de entrada e/ou saída ou se consomem todo o plafond de comunicações, entre outros “distratores”, se o fundamental é porque é que a pessoa ali está connosco e se está feliz por assim ser? Não havia jogador de futebol de rua, que jogasse obrigado…

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