COVID 19. E agora… Vou ter que mudar os meus comportamentos?

A chegada abrupta, sem aviso prévio ou tempo para preparação, da pandemia COVID-19 ditou, de forma impositiva, mudanças drásticas e restritivas no comportamento dos portugueses. Seguindo as recomendações das autoridades de saúde, as pessoas foram obrigadas a um isolamento social e a mudar o seu comportamento num curto espaço de tempo, com o objectivo de mitigar o impacto da pandemia. Sem o tempo psicológico necessário para preparar estas mudanças, urge agora encontrar estratégias que ajudem a uma melhor adaptação.

 

Por Teresa Santos, professora auxiliar e coordenadora da licenciatura de Psicologia da Universidade Europeia

 

Reconhecendo que é mais difícil para o ser humano lidar com situações imprevistas e inesperadas, compreende-se quão desafiante é a realidade do confinamento social. E é um desafio para o qual o papel da informação é crucial, sobretudo quando as informações são provenientes de diversas fontes (muitas não válidas) e são contraditórias, o que leva a um maior estado de confusão relativamente à informação em si, mas também sobre quais as açções que efectivamente se devem fazer.

Assim, para uma maior adesão aos comportamentos solicitados, é importante transmitir informação fidedigna, simples, realista e coerente, e que permita aumentar o conhecimento sobre a gravidade da doença e a susceptibilidade de contágio.

Outro aspecto fundamental passa por salientar os benefícios da adopção dos comportamentos, focando em valores pessoais significativos: não só a protecção de si próprio, mas também a dos entes queridos próximos, sobretudo os mais velhos (pais, avós), ou pessoas com maior vulnerabilidade em termos de saúde.

Talvez a rapidez da implementação do isolamento não tenha ainda permitido ter ideias muito concretas sobre as barreiras que levam as pessoas a não adoptarem os comportamentos indicados. Podemos reflectir sobre algumas possibilidades de explicação e compreensão, nomeadamente:

– a informação controversa e através de fontes não fidedignas;

– a percepção enviesada que o vírus não é grave;

– a crença errónea de que se é invulnerável ao contágio, ou que não se é atingido porque os casos estão geograficamente dispersos e/ou distantes;

– e a dificuldade em regular os impulsos no binómio cumprir/não cumprir.

Não esquecer a relevância das características prévias de personalidade e dinâmicas familiares da pessoa, e o próprio contexto e condições de isolamento. Acresce-se ainda que a negação da situação pode estar associada a uma forma defensiva da pessoa se proteger contra os seus próprios medos e angústias ao confrontar-se com a realidade. E a especificidade das várias faixas etárias parece também não estar a ajudar nesta tarefa, em particular, a rebeldia e questionamento típicos e naturais da adolescência, ou, por outro lado, os pensamentos existenciais associados às ideias de morte e finitude dos mais velhos “… perdido por cem, perdido por mil”, ou “… quando morrer, vou deitado”, ou “… todos temos que morrer um dia”.

Independentemente das variadas explicações, é crucial ter sempre em conta que as análises têm que ser individuais, subjectivas e que cada caso é um caso. E, perante uma situação nova, incerta e perigosa, é comum à grande maioria de todos nós experienciar reacções emocionais de medo e ansiedade, que podem ficar agora agudizadas. E isto pode ser tanto mais perturbador quanto mais as pessoas tenham traços de rigidez e inflexibilidade, bem como dificuldades prévias de adaptação a situações novas e a mudanças nas rotinas. Se a ansiedade alcançar níveis muito elevados, pode mesmo ser necessário um encaminhamento e apoio adicional.

Em termos de estratégias comuns é importante concentrar a atenção naquilo que podemos fazer e controlar, e “deixar ir” o que não controlamos (acções dos outros, o tempo de duração desta situação, etc.) …numa espécie de exercício de aceitação, de reconhecimento que a situação real é a que temos e com a qual é necessário lidar.

E, actualmente, o que podemos controlar e fazer é adoptar os comportamentos de protecção da nossa saúde e da saúde dos outros, procurar informação fidedigna (DGS/SNS/OMS/OPP) e evitar demasiada exposição a informações que potenciem a ansiedade e pensamentos catastróficos (ex.: “o mundo vai acabar”).

Dentro de casa, é crucial manter as rotinas, fazer refeições regulares e saudáveis, manter ritmos de sono, praticar exercício físico (considerando recomendações médicas, se aplicável), limitar os consumos (ex.: álcool, tabaco, etc.), aumentar contactos com familiares e amigos expressando manifestações de carinho, amor e amizade, e tentar relaxar e fazer actividades prazerosas. Para quem está em situação de teletrabalho, é fundamental separar as actividades, definindo períodos de trabalho e outros de actividades familiares (no equilíbrio possível) e fazer pausas.

E o futuro? Novamente a ideia de que não controlamos o que irá acontecer nos próximos tempos… Porém, cada um continuar a proteger a sua saúde física e psicológica é uma certeza e também uma forma de preparação resiliente para o momento futuro pós-pandemia. E notas de esperança são-nos trazidas pela sapiência dos anciães nestas lides da Psicologia e da Psiquiatria, que nos confortam relembrando que os significados pessoais retirados destes momentos são fundamentais, e que, o ser humano tem uma enorme capacidade para se reinventar.

 

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