COVID-19. The day after

«Se o mundo vai ter de mudar assim tanto, devemos investir tudo na manutenção dos postos de trabalho e das empresas que existiam ou devemos direccionar parte do esforço público de apoio na criação de empresas e postos de trabalho verdadeiramente novos e que permitam aproveitar a crise para efectivar o salto tecnológico que há anos vimos apregoando?»

 

 Por Miguel Pereira Lopes, coordenador do Departamento de Gestão e Políticas de Desenvolvimento de Recursos Humanos do ISCSP – Universidade de Lisboa, e presidente do CAPP – Centro de Administração e Políticas Públicas da Universidade de Lisboa

 

E agora?… Agora, é “enterrar os mortos e tratar dos vivos”! Passada a crise sanitária provocada pela COVID19, entraremos na verdadeira guerra – a guerra pela recuperação económica, social e política do nosso país. Essa guerra será, antes de mais, uma guerra onde, como em todas as outras, os soldados serão o ponto chave do nosso exercito empresarial, organizacional e cívico. Os Recursos Humanos e a sua gestão, quer em termos micro-empresariais, quer macro-societais, determinarão a que ritmo e em que grau sairemos verdadeiramente vencedores desta probação.

As primeiras respostas governamentais são atendíveis, dado o impacto inicial desta crise. Mas no futuro temos de superar algumas das contradições que estas primeiras medidas encerram. Tem-se dito que nada ficará como antes. Que teremos de robustecer e incrementar práticas de teletrabalho e trabalho à distância, que temos de apostar no reforço das competências digitais da força de trabalho, que muitos dos processos e prática de trabalho que hoje são feitas presencialmente irão ser substituídas por formas de trabalho virtual. Na verdade, nada disto é novo, como sabemos. Mas esta crise e o isolamento social por ela provocada fez-nos já passar da teoria à acção.

E é aí que se encerram as maiores contradições entre as medidas já propostas pelo governo português, e tudo isto que temos visto como retórica de mudança. Todos nós estamos preocupados com o impacto imediato da crise no emprego, no desemprego, e nos postos de trabalho. Todos estamos muito preocupados com o desastroso nível de possíveis falências e encerramento de empresas.

Mas, se o mundo vai ter de mudar assim tanto, devemos investir tudo na manutenção dos postos de trabalho e das empresas que existiam, como propõe o governo português, ou devemos direccionar parte desse esforço público de apoio na criação de empresas e postos de trabalho verdadeiramente novos e que permitam aproveitar a crise para efectivar o salto tecnológico que há anos vimos apregoando?

Bem sei que no meio está a virtude. Mas é urgente considerar o apoio a esta vertente de aproveitamento da crise para modernizar as nossas empresas, organizações e força de trabalho, e não apenas uma visão “assistencialista” ao nosso tecido empresarial. Será por isso muito relevante que as medidas governamentais dos próximos tempos venham a incorporar esta veia inovadora e empreendedora como foco essencial. Manter um posto de trabalho, tal como existe e é apoiado pelas medidas governamentais propostas, pode servir para aguentar uns meses, mas é a modernização tecnológica e a capacitação profissional que deve ser o nosso foco principal, controlado o choque inicial. Temos de começar a desenhar desde já incentivos a tudo isso. E os profissionais de recursos humanos serão o centro nevrálgico deste combate.

Redesenhar processos de trabalho, inovar em práticas jurídicas de contratualização laboral, capacitar líderes para processos de liderança virtual, redefinir indicadores e práticas de gestão do desempenho, diversificar processos de integração organizacional, incluindo a integração virtual, apostar fortemente em práticas de empreendedorismo e intraempreendedorismo para aproveitar os novos negócios gerados com a mudança e, talvez mais importante nesta primeira fase pós-crise sanitária, efetivar a reconversão profissional de profissionais empenhados e competentes, deverão estar entre as prioridades de gestores e empresários. É este o desígnio hercúleo do exercito dos profissionais de recursos humanos.

Não podemos ficar à espera dos outros para avançar nestas políticas e práticas de gestão de recursos humanos. Tal como o Estado Português não deve ficar como um “mendigo de mão estendida” à espera do “dinheiro da Europa”, como se lhe referiram os mais altos dirigentes da Nação, também os empresários e profissionais não devem esperar dos outros aquilo que lhes cabe a si. Urge lembrar a célebre frase de J. F. Kennedy, “não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas o que tu podes fazer pelo teu país!” Estou certo que os profissionais de Recursos Humanos em Portugal, por tudo o que já mostraram, serão os primeiros na linha da frente desta batalha do “day after”.

 

 

 

 

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