Fátima Santos, TIS: «Poder falar na primeira pessoa, dá-nos experiência e competência para recomendar soluções de mobilidade mais sustentáveis»

A mobilidade sustentável deixou de ser uma tendência para se tornar uma responsabilidade, e a TIS – consultora portuguesa em transportes, inovação e sistemas – decidiu liderar pelo exemplo, partilha Fátima Santos, coordenadora do Núcleo de Negócios e Desempenho.

Por Tânia Reis

 

Com um percurso consolidado no desenvolvimento de Planos de Mobilidade para grandes empresas, a consultora aplicou o seu próprio know-how para transformar a forma como os seus colaboradores se deslocam, reduzindo a pegada carbónica e promovendo hábitos mais conscientes. O resultado é um Plano de Mobilidade Corporativa Sustentável que alia inovação, pragmatismo e compromisso ambiental.

Fale-nos sobre o Plano de Mobilidade Corporativa Sustentável. Como surgiu e em que consiste?

O Plano de Mobilidade Corporativa Sustentável (PMC) nasceu da vontade de reduzir a pegada carbónica da empresa, não apenas nas deslocações profissionais, mas também nas deslocações casa-trabalho. Somos uma consultora especializada em Mobilidade e Transportes que já desenvolveu Planos de Mobilidade Corporativa para grandes empresas como a ANA Aeroportos, GALP, Novo Banco, entre outras, e sentimos que precisávamos de dar o exemplo quando falamos com os nossos clientes.

O PMC da TIS é o documento onde está definida a estratégia de mobilidade corporativa da empresa e o plano de acção que permite concretizar essa estratégia. Esta plano foi desenvolvido em três fases. Numa primeira fase, foi feito um diagnóstico onde foram identificadas a oferta de transportes – infra-estruturas e serviços – que existem nas imediações nas instalações da TIS em Lisboa e no Porto e foi lançado um inquérito aos colaboradores, o qual nos permite conhecer os seus hábitos de mobilidade nas deslocações casa-trabalho, a receptividade a medidas de mobilidade já implementadas na empresa e a propensão para a adesão a outras medidas, ou seja, ficamos com uma fotografia da empresa antes da implementação do plano. A segunda fase consistiu na definição da estratégia de mobilidade sustentável e no desenho de propostas de mobilidade sustentável que possam ser utilizadas pelos colaboradores. Por último, a terceira fase consistiu na implementação e monitorização do plano.

 

Que desafios enfrentaram no seu desenvolvimento e implementação?

Sendo a TIS uma PME, procurou-se desenvolver medidas cujo orçamento não fosse excessivo para a empresa e que fossem de fácil implementação. Por outro lado, procurou-se que as medidas dissuasoras do transporte individual fossem implementadas de forma gradual. Por exemplo, ocupou-se um dos seis lugares de estacionamento afectos à TIS com estacionamento para nove bicicletas, dos restantes cinco, três lugares podem ser ocupados em regime de avença (com um valor bastante inferior ao que é praticado no mercado), os restantes dois podem ser reservados pelos colaboradores sempre que deles necessitem, num regime de reservas que é monitorizado. No futuro, pode vir a ocorrer uma maior redução de lugares de estacionamento para automóveis.

 

Como foi feita a mobilização dos colaboradores para garantir 100% de adesão?

De uma forma geral, a taxa de adesão dos colaboradores das empresas a este inquérito é elevada – nas grandes empresas a taxa ronda os 75% – porque é um tema que afecta a sua qualidade vida. Na TIS, a adesão foi superior: responderam ao inquérito os 31 colaboradores que trabalhavam na TIS em 2024, porque sendo uma empresa que trabalha exclusivamente nesta área, as pessoas estavam motivadas para participarem. A equipa responsável pelo Plano também fez alguns reforços de pedido de preenchimento do questionário.

 

De que forma estiveram os RH envolvidos na concepção e implementação do plano?

Na fase de elaboração do Plano, os RH participaram como colaboradores da empresa. Na fase de implementação, os RH incorporaram as acções a implementar no conjunto de benefícios que é atribuído aos colaboradores e acompanham a adesão a estes benefícios e fazem reflectir estas medidas no ESG e no relatório de sustentabilidade da empresa. Também os serviços administrativos dão um apoio importante na implementação de algumas medidas, como sejam o carregamento dos passes ou a recepção e registo de encomendas.

 

Que tipo de formação ou sensibilização foi oferecida aos colaboradores sobre mobilidade sustentável?

Depois de concluído o Plano de Mobilidade Corporativa, foi organizada uma sessão de apresentação das medidas, onde estas foram explicadas de forma detalhada e foi dedicado tempo para esclarecimentos. Foi uma sessão muito participada por todos os colaboradores.

 

Que mudanças foram observadas no comportamento dos colaboradores após a implementação?

Houve uma redução significativa da utilização do automóvel e uma forte adesão ao Passe Metropolitano – 18 colaboradores utilizam actualmente este título de transporte. Nas viagens em serviço também se passou a dar prioridade à utilização do transporte público, quer em deslocações mais locais, mas também nas de longo curso, sempre que exista uma oferta competitiva. Para este tipo de viagens passou a fazer-se o registo das mesmas, para que se possa apurar a pegada carbónica da TIS e fazer a monitorização da sua evolução.

 

Que impacto teve na satisfação, produtividade ou retenção dos colaboradores?

Não é fácil medir esse impacto de forma directa, no entanto, o feedback dos colaboradores é muito positivo. Quando se trata de novos recrutamentos, o benefício relativo ao Passe Metropolitano e o Passe Gira é bem recebido.

 

Quais foram os principais indicadores ambientais utilizados para medir o impacto do plano?

Actualmente estamos a medir a emissão média de CO2 por quilómetro em periodicidade mensal e anual.

 

Como foi calculada a pegada carbónica inicial e que metodologias usaram para estimar a redução de CO?

A pegada carbónica é calculada com base em valores médios de referência por modo de transporte tendo em conta os modos de transporte utilizados pelos colaboradores, a distância casa-trabalho e regime de teletrabalho.

De forma a reduzir a pegada carbónica das deslocações casa-trabalho foi implementado um conjunto de medidas como forma de promover modos de transporte mais sustentáveis e que já demonstraram resultados positivos. Destas, destaca-se a regulação da utilização dos lugares de estacionamento da TIS, com limite de utilizações por mês, e a oferta do passe de transporte público, navegante empresa. A conversão de um dos lugares de estacionamento automóvel em parque de bicicletas, garantindo uma utilização fácil e segura do mesmo, foi também uma medida que levou a uma consolidação de utilização da bicicleta pelos colaboradores.

Estas medidas levaram a uma alteração da repartição modal, com uma variação na utilização do transporte público de 35% em 2024 para 54% em 2025 e uma redução de 8 pontos percentuais na utilização do carro enquanto condutor, com uma quota de 15% em 2025.

Outra medida que também reduz as deslocações dos colaboradores é a recepção de encomendas na empresa o que evita que as pessoas tenham de fazer deslocações para irem levantar encomendas a pontos de entrega.

Existe igualmente uma política de grande abertura à realização do teletrabalho, existindo diversas pessoas que optam por se deslocar ao escritório apenas em alguns dias da semana. Essa medida ajuda também a reduzir a pegada ambiental e ir ao encontro das necessidades da nossa equipa.

 

Que parâmetros estão a monitorizar para avaliar o sucesso do plano?

Estamos a medir a repartição modal – modos utilizados nas deslocações casa-trabalho, a evolução da venda de passes e do número de reservas de estacionamento. Também registamos diariamente o número de encomendas pessoais que são recebidas na empresa.

 

Como são recolhidos e analisados os dados de mobilidade dos colaboradores?

Anualmente, é feito um inquérito à mobilidade dos colaboradores para perceber as alterações modais, mudanças de residência, a receptividade às acções implementadas e recolher sugestões de melhoria. Mensalmente, são recolhidas as vendas de passes

 

O plano teve impacto na reputação da empresa junto de clientes, parceiros e comunidade?

Não é fácil medir este impacto, no entanto, o nosso plano está publicado na nossa página de internet para ser consultado por quem tenha interesse. De uma forma geral, este é um tema que é abordado com frequência, uma vez que os nossos resultados são muito positivos. Com os clientes para quem estamos a desenvolver Planos de Mobilidade Corporativa, mostramos a nossa experiência e apesar de sermos uma PME, temos na empresa todos os perfis de mobilidade que existem nas grandes empresas. Poder falar na primeira pessoa, dá-nos experiência e competência para recomendar soluções de mobilidade mais sustentáveis.

 

Que metas definiram para o futuro no médio-longo prazo?

No médio-longo prazo, a nossa ambição é consolidar o Plano de Mobilidade Corporativa da TIS como um elemento estratégico de sustentabilidade e ESG da empresa. Queremos reforçar a contribuição para a neutralidade carbónica, mas também gerar valor para as pessoas e para a comunidade.

Nesta fase não é possível associar metas quantificáveis, no entanto, é possível, destacar:

  • Redução progressiva da capacidade de estacionamento nas instalações, promovendo a adopção de alternativas mais sustentáveis.
  • Manutenção / Aumento do trabalho remoto e híbrido para funções que o permitam, reduzindo deslocações e promovendo maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
  • Integração da mobilidade sustentável nos relatórios ESG, como indicador de desempenho ambiental e social, permitindo medir de forma transparente o impacto das nossas acções.
  • Reforço das iniciativas de bem-estar e retenção, reconhecendo que colaboradores mais satisfeitos, com menos stress nas deslocações casa-trabalho, são também mais produtivos e motivados.
  • Estabelecimento de metas quantificáveis de redução de emissões associadas a deslocações casa-trabalho e em serviço.
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