Inteligência Artificial: A crise do pipeline de talento

Durante décadas, a pergunta foi sempre a mesma: que empregos irá a tecnologia eliminar? Mas a inteligência artificial (IA) obriga-nos, hoje, a colocar uma pergunta diferente e muito mais inquietante. Leia o artigo de Nuno Moreira da Cruz, dean da Católica-Lisbon | Executive Education.

Human Resources
29 de Julho 2026 | 14:00

Por Nuno Moreira da Cruz, dean da Católica-Lisbon | Executive Education

 

Essa questão é como irão as organizações formar os profissionais de que precisarão daqui a 10 ou 15 anos, se a IA começar precisamente por substituir os empregos de entrada. Estaremos a destruir a fábrica onde se produz o talento?

E é uma pergunta que deveria estar hoje na agenda de qualquer discussão estratégica dentro das empresas. Não apenas porque a IA representa uma extraordinária oportunidade de aumento de produtividade, mas porque poderá alterar profundamente a forma como as empresas recrutam, desenvolvem e renovam o seu capital humano.

Mas comecemos por criar contexto, para aquilo que é, na minha opinião e a todos os títulos, uma mudança estrutural do mercado de trabalho. Os números ajudam a perceber a dimensão da mudança. A consultora McKinsey estima que a IA generativa poderá acrescentar mais de quatro mil milhões de dólares por ano à economia mundial, através de ganhos de produtividade. Ao mesmo tempo, praticamente todas as grandes empresas estão já a investir em IA, embora apenas uma minoria considere ter alcançado um nível elevado de maturidade na sua utilização. A questão deixou, por isso, de ser se a IA irá transformar o trabalho, a verdadeira questão é como preparar essa transformação.

Continue a ler após a publicidade

Embora seja impossível antecipar todos os seus efeitos, parecem já evidentes quatro grandes impactos que essa transformação vai trazer:

1. Aumento significativo da produtividade. Organizações que consigam integrar eficazmente a IA produzirão mais, mais depressa e com menos recursos, aumentando a pressão competitiva sobre quem não acompanhar esta evolução.

2. Profunda redefinição das competências mais valorizadas. Ganharão ainda mais relevância capacidades como pensamento crítico, criatividade, julgamento, liderança, empatia e tomada de decisão em contextos ambíguos, precisamente aquelas que continuam a distinguir os humanos das máquinas. Por enquanto… diria eu.

Continue a ler após a publicidade

3. Transformação das estruturas organizacionais. Muitas tarefas intermédias tenderão a desaparecer, surgirão equipas mais pequenas e altamente qualificadas e cada profissional poderá multiplicar significativamente a sua capacidade de execução através da IA.

4. Desaparecimento gradual dos empregos de entrada que sempre funcionaram como escola para os futuros líderes. É, talvez, o impacto menos discutido e, paradoxalmente, um dos mais importantes. Durante décadas, praticamente todas as profissões seguiram um percurso semelhante. Médicos, advogados, consultores, engenheiros, auditores ou gestores iniciavam a carreira executando tarefas operacionais. Era nesse trabalho que aprendiam a profissão, acumulavam experiência, cometiam erros, observavam colegas mais experientes e desenvolviam aquilo que verdadeiramente cria valor: o conhecimento adquirido através da prática.

São precisamente essas tarefas iniciais que a IA executa hoje com maior eficiência e a conclusão parece evidente: se uma empresa puder escolher entre um recém-licenciado e um profissional com 15 ou 20 anos de experiência apoiado por IA, a decisão torna-se mais óbvia.

Na realidade, a IA está a aumentar a “rentabilidade” da experiência. Durante décadas, a experiência era importante porque permitia executar melhor o trabalho. Agora, torna-se ainda mais valiosa porque permite validar, questionar, contextualizar e decidir sobre aquilo que a IA produz. A tecnologia democratiza o acesso ao conhecimento, mas torna a experiência mais escassa e, por isso, mais valiosa.

Curiosamente, um estudo recente da PwC aponta nesta direcção. Nas funções mais expostas à IA, os empregadores procuram cada vez mais competências tradicionalmente associadas a profissionais seniores, como julgamento, influência, liderança e capacidade de decisão. A IA não está apenas a automatizar tarefas, está a elevar o nível das competências humanas que permanecem essenciais.

Continue a ler após a publicidade

Durante muitos anos, repetimos que as empresas procuravam juventude. Talvez estejamos agora a entrar numa fase em que procuram sobretudo experiência. Mas se deixarmos de contratar jovens, quem serão os profissionais experientes de amanhã?

Quanto mais reflito sobre este tema, mais estou convencido de que esta poderá tornar-se uma das maiores falhas de mercado da próxima década. Individualmente, cada empresa terá incentivos económicos para reduzir contratações de entrada. Colectivamente, porém, estaremos a comprometer a renovação das competências de que toda a economia dependerá no futuro.

E é aqui que o debate deixa de ser exclusivamente empresarial e passa a ser uma questão de política pública. Tal como os Estados intervêm para promover a formação profissional, a inovação ou a transição energética, poderá tornar-se necessário criar mecanismos que assegurem oportunidades de entrada no mercado de trabalho.

Será demasiado cedo para discutir quotas mínimas de contratação de jovens? Deverão existir incentivos fiscais para empresas que mantenham programas estruturados de trainees? Deverão universidades, empresas e Estado partilhar a responsabilidade pela criação de novos modelos de aprendizagem, onde os jovens trabalhem lado a lado com profissionais experientes apoiados por IA? Ninguém sabe, hoje, quais serão as melhores respostas, mas diria que ignorar o problema poderá sair muito caro.

Durante décadas, as empresas competiram por talento. Na próxima década, poderão competir por experiência. Mas existe um problema: a experiência não se compra. Constrói-se. E se deixarmos de contratar quem está a iniciar a carreira, estaremos a interromper o processo através do qual essa experiência é criada.

Talvez este seja um dos maiores paradoxos da IA. A tecnologia que promete tornar as organizações mais inteligentes pode acabar por destruir a principal fábrica onde se produzem os profissionais experientes de amanhã.

A IA poderá acelerar o trabalho. Mas continua incapaz de acelerar aquilo que leva anos a construir: a maturidade profissional. Creio que temos uma nova crise para gerir: aquilo a que chamaria a crise do pipeline de talento.

 

Este artigo foi publicado na edição de Julho (nº. 187) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

Partilhar


Mais Notícias