O “big brother” no trabalho remoto

Human Resources
22 de Agosto 2022 | 11:00
O “big brother” no trabalho remoto

Por Valter Ferreira – Data Scientist, Marketeer, Economista do território, Inovador e Especialista em cidades humanas e inteligente

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O tema do teletrabalho ainda levanta muita angústia em alguns gestores, com medo que os trabalhadores percam capacidade produtiva e no limite não estejam realmente a trabalhar. Existe ainda um longo caminho a percorrer, pese embora que os resultados da pandemia de 2020-2022 tenham ajudado a desmitificar o falso estereotipo do teletrabalhador preguiçoso e distraído, pelo verdadeiro estereotipo do trabalhador que deixou de perder tempo em deslocações.

Mesmo assim, nos últimos meses temos assistido à confiança entre empregador e trabalhador, e também muitas vezes entre colegas, a tornar-se um verdadeiro campo minado. As empresas podem ter a intenção/interesse em identificar os trabalhadores que não estão a trabalhar (quando estão em teletrabalho), no entanto esta tendência de monitorização da produtividade, muitas vezes através de spyware representa um gasto de energias, dinheiro e deteriora relações. Por um lado, aqueles que são valiosos e produtivos vão se sentir incomodados com o excesso de controlo, por outro lado aqueles com maior expertise técnica vão encontrar modos de “vadiar” e jogar jogos nos seus computadores.

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Li há relativamente pouco tempo um artigo na revista Wired que, e traduzindo livremente – “os trabalhadores estão a instalar máquinas virtuais para proteger os programas ofensivos – e o seu trabalho – do resto do que existe no seu comutador, ou seja, a criar mecanismos que permitam trabalhar numa janela e jogar noutra. Trabalhadores mais engenhosos podem explorar numerosas estratégias de controlar os esforços de monitorização dos seus empregadores”. No limite, os empregadores terão que pensar de forma mais estratégica a forma com medir e valorizar os seus trabalhadores do que pela pressão do relógio ou a monitorização de ecrãs.

Um estudo recente da Ricoh Europe indica que 65% dos empregadores não confia nos trabalhadores que trabalham remotamente, e 39% não acreditam que os trabalhadores em casa trabalhem com o mesmo empenho e eficiência, mas em contraponto apenas 19% apontam para a perda de produtividade desde que adotaram o teletrabalho.

Mas se o teletrabalho não surgiu agora, já é praticado há muito tempo, por muitas empresas, porque é que esta crise de confiança começa agora a ganhar corpo? Tenho em crer que o facto da sua acelerada disseminação a todos os trabalhadores e não só a alguns (escolhidos pelo empregador com base em diversos fatores que não vou agora explorar) poderá ter contribuído para essa desconfiança.

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Também acredito que muitos, no início da pandemia, foram “mandados” para casa sem equipamento, formação ou mesmo vontade de trabalhar remotamente. Acrescendo o facto da incerteza económica e estabilidade do emprego gerar ansiedade e per si promover o desejo do trabalho individual e a desconfiança no outro.

Na minha opinião o cerne da desconfiança não está no trabalhador, mas sim no empregador, importa que as gestões de topo tenham presente que o teletrabalho ou hibrido e o trabalho presencial são coisas totalmente diferentes, e que ainda que esta falta de confiança exista, oferecer a possibilidade de teletrabalho será essencial para atrair e reter bons profissionais.

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Recuando a março de 2020 com o fecho de muitas empresas devido à pandemia e ao boost do teletrabalho, existiram algumas empresas que levaram a monitorização dos seus trabalhadores ao limite, tendo havido relatos de instalação de software que controla o movimento do rato, de serviços de GPS no smartphone profissional, downloads aleatórios do screenshot do ecrã do trabalhador, controlar a presença através da webcam. Claro que todas estas ferramentas de monitorização levantam questões de privacidade e legalidade.

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Na utilização destas ferramentas, a preocupação com a privacidade é claramente um dos elementos cruciais. Ainda que as estatísticas apontem para que “a generalidade dos trabalhadores remotos tenham os mesmos níveis de produtividade que em presença”, não é certo que não exista quem não tire partido da falta de supervisão física.

No entanto, deve ser muito bem considerado o que se pretende monitorizar, se é mesmo necessário, e quais as necessidades do negócio que são asseguradas com essa monitorização, balanceando-as com o direito à privacidade do trabalhador. A ter mesmo que existir monitorização esta deve ser o menos intrusiva possível e só deve recolher dados se os dados recolhidos forem efetivamente para ser utilizados para algo. Importa reter que o RGPD proíbe a tomada de decisão puramente automatizada quando a mesma impacta legalmente num individuo, assim os dados recolhidos por monitorização remota não devem ativar consequências automáticas para um trabalhador.

Penso claramente que a monitorização não é a resposta, e que não funciona. O um empregador que julga que sabe tudo o que os seus trabalhadores estão a fazer remotamente (e mesmo presencialmente) está a enganar-se a si próprio. Também a nossa natureza humana tende a focar-nos mais na execução de acordo com a medida do que com o objetivo, aliás perdemos muitas vezes mais tempo em perceber como contornar a medida do que com o trabalho em si. E por fim, claro, a monitorização é ineficiente e aumenta o problema da desconfiança.

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Assim, e para construir uma confiança mútua entre empregadores e trabalhadores remotos importa, na minha opinião, que seguiam alguns passos simples como:

  • Aumentar a frequência das reuniões de ponto de situação;
  • Definir milestones tangíveis, que mostrem progresso, e que indiquem o rumo do trabalho “invisível” que está a ser feito;
  • O empregador ter disponibilidade para responder as questões/dúvidas e falar com os trabalhadores remotos;
  • Não negligenciar as relações presenciais, de vez em quando será necessário reunir as “tropas”;
  • Pensar em “equidade” em todo o momento, nenhum trabalhador pode, independentemente do regime de horário, pensar que outro tem mais ou melhores benefícios que o próprio.

Em suma, empregadores que estejam dispostos a conversar, dar feedback e a fazer solicitações regulares aos trabalhadores não têm motivo para monitorizar em versão “big brother”, antes pelo contrário, irão estimular uma relação mais transparente e inspirar os membros da equipa a dar sempre o seu melhor.

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