O sentido da doença

Por Diogo Alarcão, Gestor

Estou numa fase da vida em que a doença se vai insinuando à minha volta, levando e ameaçando alguns familiares e amigos próximos. Este confronto com a nossa finitude, e sobretudo a dos outros, tem-me feito refletir sobre o sentido da doença.
Haverá um sentido para a doença? Para o sofrimento? Para a incerteza do amanhã? Para a espera interminável de análises e exames? Para as incertezas e dúvidas da medicina e da ciência? Haverá um sentido para a condição titubeante de tantos doentes?
Atrevo-me a dizer que sim!
E faço-o observando com enorme admiração e gratidão a forma como tenho visto tantas pessoas encararem a doença, quer as que ainda cá estão quer as que já partiram. Tenho tido o privilégio de poder dizer a algumas delas o tão grato lhes estou pelos exemplos de determinação, disciplina, fé e esperança que me dão. Ao fazê-lo tenho encontrado o sentido das suas doenças… nas suas vidas e, sobretudo, na minha vida. A doença, vista desta forma, ganha uma dimensão que vai para além do mau estar físico e do sofrimento humano. A doença, assim vivida e “partilhada”, transforma-nos.
Há pouco tempo falava com um amigo, quadro de topo de uma multinacional, e ouvi-o dizer que a sua doença foi “um muro de betão com que chocou de frente a 200km/hora”. Perante este obstáculo, este meu amigo poderia ter desistido ou sentir-se impotente para recompor a destruição que o impacto teve na sua vida. Mas, não! Apesar dos momentos de angústia, dor, incerteza e desespero com que certamente se debate, a doença tem sido para ele um momento de profunda conversão. Ao ouvir este testemunho, encontro o sentido da doença na sua vida e na minha. A doença pode ser um processo de conversão.
Partilho outro exemplo de alguém que se debate há meses com a incapacidade da ciência encontrar as causas e, consequentemente, o modo de combater a sua doença. Perante esta incerteza e incapacidade de encontrar respostas, vejo nele um exemplo de coragem e otimismo… não um otimismo desgarrado da realidade ou tonto, mas a vontade de não preocupar amigos e familiares que o acompanham, bem como a determinação de procurar continuar a ver, acima de tudo, o lado bom da vida. É para mim um antídoto contra o (meu) medo da doença, vê-lo jantar com os amigos, rir-se das coisas grandes e pequenas, procurar desvalorizar o que não deve ser valorizado e gerir, o melhor que pode e consegue, os sucessivos adiamentos e exames a que tem estado sujeito.
Certamente que estas duas pessoas, que tenho tido o privilégio de acompanhar de forma mais próxima nos últimos tempos, têm os seus momentos de escuridão e solidão. Só eles saberão o que lhes vai no coração e na alma. Mas eu, pobre e sedenta testemunha, recebo deles a coragem, a determinação e a confiança.
Também nas organizações, temos dificuldade em encontrar o sentido para a “doença”, seja ela uma dificuldade na relação com o chefe ou com um colega, um insucesso comercial, uma injustiça ou uma desconsideração, uma meta não atingida, um erro cometido. Tendemos a olhar para estas “doenças” como fatalidades, injustiças e muros contra os quais esbarramos. Sentimo-nos tantas vezes incapazes de reconstruir os cacos em que nos transformamos. Temos atitudes semelhantes face às incertezas que vivemos, sejam ela a evolução da nossa carreira, a promoção ou o aumento, a nova oportunidade de negócio ou até o próprio futuro da empresa. Sofremos porque as respostas não nos chegam quando queremos. Fixamo-nos nos sintomas e não procuramos ver mais além.
Talvez os exemplos dos meus amigos nos possam ajudar, também, em contexto profissional. Se encararmos as dificuldades com que nos confrontamos no trabalho como um processo de conversão, no dia-a-dia, talvez possamos encontrar novas respostas. Esses obstáculos poderão ajudar-me a repensar a relação que tenho com o trabalho, as opções que faço, as prioridades que escolho e, ao fazê-lo, talvez encontre o sentido dos mesmos: a necessidade de mudar a forma como falo; como dou e recebo feedback; como celebro os sucessos e como sofro com pequenas contrariedades. Também o segundo exemplo de resiliência face à incerteza do diagnóstico e da cura pode ajudar-nos a gerir melhor as faltas de respostas nos tempos que desejávamos e, em vez de sofrer com isso, procurar outros caminhos. Esses caminhos poderão passar, desde logo, por nos focarmos no essencial e deixar o acessório, mas também tomarmos consciência de que nem tudo se faz e acontece quando queremos nem como desejaríamos… e aprender a viver e a não sofrer tanto com isso.
Talvez o sentido da doença passe por fazermos a pergunta ao contrário. Em vez de nos questionarmos sobre “O que posso fazer pela doença?”, perguntarmo-nos sobre “O que a doença pode fazer por mim?”.




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