O valor humano em tempos de pandemia

Em pleno período de progressiva retoma da actividade económica, em que o risco pandémico ainda persiste, assim como a incerteza de como irá evoluir nos próximos meses, é relevante reflectir e interiorizar a aprendizagem que este contexto nos ensinou, e compreender os impactos que a mesma está a ter no activo mais relevante das organizações – o seu capital humano.

 

Por Gonçalo de Salis Amaral, partner da Neves de Almeida HR Consulting, e head of Consulting Business

 

A análise, combinada, do impacto e aprendizagens que a pandemia nos trouxe permite identificar medidas assertivas e planos de acção que visam a recuperação, a realização de objectivos comuns e a persecução de estratégias ajustadas, face aos conhecimentos adquiridos. É neste sentido que a Neves de Almeida HR Consulting lança a abertura das inscrições, neste mês de Agosto, para a 5.ª edição do maior estudo nacional gratuito de satisfação, clima e envolvimento organizacionais – o Índice de Excelência 2020.

A abertura, este ano, mais tardia das inscrições deveu-se, não só ao período de confinamento, mas também à necessária incorporação no Índice de Excelência 2020 de questões e temas que foram realçados com a pandemia. São exemplo disto as novas formas e organização do trabalho, os novos métodos de gestão, o crucial reforço da capacidade das organizações de inovar e reinventar-se, tentando garantir a sustentabilidade dos sistemas económicos e a conservação do meio ambiente.

Ao nível do trabalho, as medidas de distanciamento social forçaram-nos à disseminação do trabalho remoto, até então muito questionado face à sua eficiência e eficácia, bem como à capacidade das organizações e dos líderes para o gerir e monitorizar, mantendo as equipas unidas e motivadas, trabalhando de forma mais colaborativa.

Um estudo da Neves de Almeida HR Consulting(1), junto de mais de 200 empresas a operar em território nacional durante o mês de Abril, em pleno período de confinamento, revelou que 69% das empresas inquiridas mantinham a actividade normal com trabalho remoto total ou parcialmente, demonstrando uma rápida adaptação às circunstâncias, quando tal foi exigido. Adicionalmente, cerca de 80% destas empresas assumiram que o trabalho remoto teve impacto nulo, moderadamente positivo ou mesmo muito positivo na performance do negócio e na produtividade dos colaboradores, indiciando falta de fundamento para as resistências à maior utilização deste tipo de trabalho, aumentando os seus benefícios (como por exemplo, optimização de custos e maior qualidade de vida).

Ainda assim, tivemos relatos dos esforços feitos na maior disseminação de condições que permitissem esta mobilidade e acessibilidade em segurança, o que não é de admirar quando, no primeiro trimestre deste ano, ainda tínhamos cerca de 40% das organizações com níveis baixos de desenvolvimento digital.

O trabalho remoto foi a revelação mais óbvia e imediata que a COVID-19 forçou e evidenciou como possível, e até vantajosa. No entanto, outras revelações foram verificadas, nomeadamente na mobilidade do talento dentro da organização ou mesmo entre organizações, bem como na aceleração da automação.

Várias empresas passaram a desenvolver actividades que até há umas semanas não imaginariam desenvolver, obrigando os respectivos líderes a reajustarem o trabalho e os seus colaboradores face a uma nova procura e necessidades de mercado. São exemplo disto as empresas têxteis, que passaram a produzir máscaras e vestuário de protecção, bem como outras do ramo Automóvel, que passaram a fabricar ventiladores. Poderia existir melhor revelação da capacidade de adaptação do trabalho e do talento às necessidades de mercado, desenvolvendo a resiliência e agilidade organizacionais necessárias em tempos de incerteza?

Adicionalmente, a capacidade de mover talento para as actividades mais críticas, de forma rápida e eficiente, criando equipas multidisciplinares, dispersas, mais autónomas, e libertando-as das tradicionais hierarquias e burocracias organizacionais, é essencial para reagir, em tempo útil, aos constantes desafios e mudanças. Por outro lado, aumentar a automação é cada vez mais imperioso, contribuindo para a credibilidade do serviço prestado, focando o trabalho humano nas componentes relacionais com clientes – bem como na monitorização dos indicadores da actividade –, sendo que muitas poderão ser realizadas de forma remota. Em tempos de pandemia, permite a redução do risco de contágio e, passado esse período, aumentar benefícios e eficiências com impacto positivo na performance e produtividade.

Sendo um período difícil é, sem dúvida, um momento que coloca à prova a nossa criatividade e agilidade, acelerando as tendências que já se vinham a verificar, se bem que a ritmos distintos nos vários países e organizações, no tipo de trabalho que é executado, quem e como executa, assim como o gerimos.

Somos, assim, forçados a quebrar as resistências e indecisões, adoptando e adaptando-nos a algo que está a mudar o panorama global do trabalho e da gestão de pessoas, mesmo depois de termos a pandemia controlada, já que nos ajudam a responder à constante volatilidade do mercado e suas necessidades.

É neste contexto que a 5.ª edição do Índice de Excelência 2020, ajustado a novos contextos e desafios, se torna ainda mais relevante como ferramenta de gestão, aferindo como estamos a reagir às novas exigências, preparando o futuro, assim como auscultando as opiniões e sentimentos dos nossos colaboradores, revelando como tais medidas estão a ser comunicadas, implementadas e assimiladas pelas organizações e respectivo activo humano.

 

Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 116) da Human Resources.

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