A falta de formação em TIC nas escolas e os efeitos sobre os profissionais do futuro

A minha formação base iniciou-se na área das ciências, noutro país (França), e depois segui uma formação académica em Matemáticas Aplicadas com um Mestrado em Comunicação Multimédia, e sempre me surpreendeu, em Portugal, a falta de sensibilidade dos “educadores” para exercerem a sua doutrina de forma adequada e actualizada, principalmente nas áreas das STEAMs (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics).

 

João José Vicente Gonçalves, formador FLAG, Interactive developer

 

Com o advento da revolução tecnológica, herdeira da já ultrapassada revolução industrial, o ser humano era tão somente visto como uma máquina de executar tarefas, não lhe reconhecendo qualquer capacidade de pensamento crítico, ou processo criativo na resolução de problemas. Com o advento da era do conhecimento, a ubiquidade de acesso a «Dados», e a transformação desses dados em informação, em conhecimento e deste em sabedoria, passou a dar-se uma maior importância e relevo às STEAMs.

Cada vez mais se nota uma transformação no mercado. As empresas estão cada vez mais próximas das instituições académicas e há uma crescente procura de futuros profissionais que estejam ligados à tecnologia e às indústrias de transformação digital. São estes os perfis mais cobiçados.

Como referido pela MCKinsey Portugal – «a área da licenciatura já não é um factor primordial no momento de recrutamento. Damos preferência às competências transferíveis», ou seja, «soft skills». Contudo, e infelizmente, as empresas não têm recebido uma resposta adequada por parte das instituições de ensino na formação de profissionais.

«Soft skills» são, na sua génese, competências do relacionamento do indivíduo, como por exemplo, saber comunicar, empatia, resiliência, pensamento crítico, escrita, flexibilidade, adaptação, pensamento criativo, capacidade de adaptação e resolução de problemas, liderança, entre muitas outras.

Quando olhamos para os jovens de hoje, vulgarmente chamados ou «rotulados» de «digital natives», que cresceram na presença do «digital» e se sentem confortáveis na utilização de tecnologias nas suas várias vertentes, verificamos que a maioria desta geração é mais «utilizadora» do que «criadora».

Nas últimas décadas, que coincide com estas novas gerações (Millenials, Generation Z, …), tenho tentado dar o meu contributo enquanto «educador» nesta mudança de paradigma. Recordo-me de alguns episódios que demonstram bem a falta de aposta das instituições de ensino nestas “soft skills” ligadas às STEAM, como exemplo, num projecto final do 12º ano de multimédia, onde os alunos iriam criar um portfólio, um aluno abordou-me perguntando como conseguiria pôr uma personagem do seu portfólio a «seguir» o posicionamento do rato no ecrã, com os olhos. Sabendo que tinham dado há pouco tempo, na disciplina de Matemática, o Teorema de Pitágoras, ingenuamente respondi: «é simples, aplicas o Teorema de Pitágoras». Vendo que o aluno ficou estupefacto, não percebendo o que lhe transmiti, pedi a todos os alunos que parassem as tarefas que estavam a executar e expliquei: «se tenho um elemento (olho) na minha animação que quero orientar para o rato no ecrã, bastará desenhar um triângulo retângulo, entre o elemento (olho) e o rato, calcular o ângulo do mesmo baseado nas coordenadas de ambos no ecrã, e aplicar esse valor à propriedade de rotação do elemento (olho) que pretendo animar», acho que pela primeira vez perceberam uma das muitas aplicações práticas do Teorema de Pitágoras.

Exemplos como este são comuns e demonstram a falta de formação nas nossas instituições de ensino, demasiado «agarrado» a métodos obsoletos e arcaicos, dando pouca importância à explicação prática da teoria. Na realidade, é dada pouca importância ao reforço do ensino e formação em «soft skills», onde se inclui também o ensino de programação e lógica em ciências da computação, ensino este que deveria ser iniciado nas escolas primárias, como fez o governo Estónio em 2012, ou como faz o movimento criado no Estados Unidos e que actualmente envolve a nível mundial 70 milhões de alunos e dois milhões de professores, o CODE.ORG, cujo lema é: «Todos os alunos em todas as escolas devem ter a oportunidade de aprender Ciências da Computação».

Da mesma forma que é senso comum que devemos «aprender a ler para posteriormente ler para aprender», deveremos também «aprender a programar, para mais tarde programar para aprender», criar software que ajude a formar e dotar profissionais com «skills» necessárias para suprir as necessidades das empresas.

Para ensinar jovens até ao nível K12, ou adultos de gerações mais antigas, existem aplicações como é o caso do SCRATCH desenvolvido no MIT, totalmente gratuito, que facilita a quem nunca «programou» criar animações, jogos e partilhá-los com amigos, aproveitando toda a interacção que esta juventude «digital native» utiliza diariamente.

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