Precisamos de falar sobre a falta de inclusão nas profissões tech

Deparamo-nos com um gap de competências que preocupa organizações ‘IT business’ em todo o mundo e que está a tornar o processo de recrutamento e gestão de talento numa tarefa cada vez mais difícil/complexa.

Por Hugo Miguel Ribeiro, vp People Operations, Inclusion and Diversity na Quidgest

 

O estudo internacional “The Future of Work”, levado a cabo junto de 3.000 profissionais de RH e Talent Aquisition revela, por exemplo, que 9 em cada 10 empregadores enfrentam cada vez mais dificuldades para preencher vagas, por não encontrarem candidatos ajustados para funções específicas.

Ao mesmo tempo, encontramos evidências de que uma forte cultura assente em políticas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) está na base de níveis mais elevados de criatividade, desempenho, pensamento crítico, inovação e competitividade – para além de aumentar as taxas de retenção dos colaboradores e possibilitar às organizações gerar resultados e lucros acima da média.

Apesar de o sector tech ser ainda um mundo dominado (cada vez menos, é certo) por homens brancos, há um forte investimento pelas Big Tech em políticas de DEI. Porque elas trazem melhores resultados. Existem inúmeros motivos e benefícios.

Claro que inclusão e diversidade inclui muito mais do que raça, género, idade, país de origem, religião ou orientação sexual. É também neuroinclusão (veja-se o programa de contratação da Dell para profissionais com autismo). É ainda a combinação de diferentes talentos, ideias, backgrounds e experiências – algo que Denise Young Smith, antiga vice-presidente da Apple para a inclusão e diversidade tentou explicar (talvez não da melhor forma) ao afirmar que «12 homens loiros de olhos azuis podem ser diversos».

Apostar numa cultura de DEI não é nenhum ‘extra’ ou acção de marketing empresarial. É parte estrutural e prioritária das organizações que já entenderam o que isto significa interna e externamente: da atracção de talento (que é diverso e cada vez mais exigente, sobretudo os Gen Z, Millennials e Gen X) ao reconhecimento da marca (cujos utilizadores/clientes são diversos e também cada vez mais exigentes).

A inclusão e diversidade actua ainda como alavanca de desempenho e catalisador de resultados, como refere a McKinsey, já que equipas mais plurais, resultam ser mais felizes e também mais eficazes e produtivas nos seus ambientes laborais, fazendo com que as suas organizações sejam mais propensas a ter uma performance financeira acima da média.

Está, por isso, na altura de trazer para o universo tech profissionais não só multiculturais, multidisciplinares e multilingues, mas multinegócio. Profissionais que podem agregar todo o seu conhecimento e experiência à revolução digital em curso.

Esta é uma tendência antecipada pela Gartner, que prevê, até 2024, que 80% dos serviços e produtos tecnológicos sejam desenvolvidos por pessoas fora das TI – os citizen developers. Pessoas de qualquer área de negócio que podem passar a ser criadoras de soluções digitais nas organizações onde trabalham. E em muitos casos, sem necessidade de processos de reskilling e upskilling ‘extremos’ que, de repente, exijam um profundo domínio de matemática ou programação. Ao invés disso, através de plataformas intuitivas que sejam capazes de gerar o código necessário de forma automática, por exemplo.

Caso contrário, e ao não possuirmos representatividade na força de trabalho das organizações tecnológicas, que não espelham as comunidades e os mercados em que estão inseridas, como esperamos desenhar soluções e produtos tecnológicos que impactem as diferentes realidades e respondam às diferentes necessidades das pessoas?

A probabilidade de estarmos a perpetuar uma indústria tech não inclusiva que alimenta algoritmos tendenciosos e um completo enviesamento da inovação é real. Porque as suas equipas e as organizações não são uma representação do mundo real.

É por isso que precisamos de falar sobre a falta de representatividade nas profissões tech. Mas, mais do que isso, precisamos de falar sobre o que não estamos a fazer (nas universidades, nas organizações e na sociedade em geral) para atrair talentos de todas as áreas e negócios, e responder assim a este problema cuja solução está afinal ao alcance de TODOS.

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