Por Carlos Sezões, Managing Partner da Darefy – Leadership & Change Builders
Raro é o dia em que não somos sobressaltados com notícias sobre os perigos da Inteligência Artificial (IA) ou de outras tecnologias disruptivas. Seja com as questões da privacidade, dos malvados (e enviesados) algoritmos e, essencialmente, com a substituição (dita inevitável) dos humanos por máquinas inteligentes nos respectivos “empregos”. Nada de surpreendente ou inteiramente novo. Quem quiser pesquisar online o que aconteceu no início do século XIX com a introdução de maquinaria na indústria têxtil na Inglaterra (com o rasto de distúrbios e destruição dos luddites) verá traços similares de ansiedade, medo e aversão à mudança.
Nesta era marcada por rapidíssimos avanços tecnológicos, é fácil deixarmo-nos levar pelo fatalismo de mensagens estilo “doomsday”. Mas, se existem preocupações válidas (e humanistas) com a segurança e os perigos da info-exclusão, existem argumentos para o optimismo tecnológico — a crença de que, com uma orientação criteriosa e uma inovação responsável, a IA pode conduzir a um mundo mais equitativo, eficiente e imaginativo. Provavelmente, em nenhuma outra dimensão isto será mais evidente do que mundo do trabalho.
Para começar, sim, a IA automatizará muitas tarefas — mas as tarefas não são empregos. Embora algumas funções diminuam ou desapareçam, a maioria evoluirá. A história comprova-o: a ascensão dos computadores não eliminou os empregos de escritório; redefiniu-os e criou até muitos outros. A IA já demonstra padrões semelhantes. Por exemplo, nos serviços jurídicos, a IA trata da revisão de documentos, facilitando trabalho dos advogados. Na área da saúde, a IA auxilia no diagnóstico, permitindo uma celeridade que salva muitas vidas; e que aos médicos possam focar-se mais na relação com os pacientes.
Depois, de acordo com a maioria dos estudos (ex. do Fórum Económico Mundial), espera-se que a IA crie milhões de novos empregos nas próximas décadas. Funções ligadas à análise e arquitectura de dados e ao design e criação de conteúdos emergirão. Paralelamente, o crescimento de negócios (e trabalho) em áreas como a descarbonização e as energias alternativas, a educação e a saúde mental ou as muitas indústrias orientadas à longevidade e ao envelhecimento activo — áreas que exigem uma profunda intuição humana e empatia — beneficiará da IA como assistente ou reforço, e não como substituta.
A chave para aproveitar os benefícios da IA está na educação de base e na requalificação (upkilling e reskilling). Governos, empresas e e profissionais devem investir na aprendizagem contínua – bootcamps de programação e os programas de literacia em IA já estão felizmente a massificar-se.
Permitam-se ser claro. Ser “tecno-optimista” não significa ter uma fé cega nas máquinas — é uma crença racional de que a humanidade pode moldar a tecnologia para melhorar as nossas vidas. Ser um optimista tecnológico não significa ignorar os riscos — significa reconhecer a nossa capacidade de os gerir. Com as regulamentações certas, políticas inclusivas e estruturas éticas, a IA pode tornar-se uma ferramenta não só de disrupção, mas de transformação positiva.
E, à medida que as máquinas se aperfeiçoam “como máquinas”, os humanos serão, creio, incentivados a ser “mais humanos”. Criatividade, empatia, pensamento crítico e decisão ética serão os traços mais valiosos no novo mundo do trabalho.














