
Responsabilidade Social Corporativa: Um conceito sem espaço no novo paradigma da sustentabilidade?
Por Beatriz Rodrigues, Coordenadora da área de Sustentabilidade, SCORING
A Responsabilidade Social Corporativa (RSC) moldou, durante décadas, a forma como as empresas procuraram responder às expectativas sociais, mediante iniciativas voluntárias de apoio comunitário, programas de bem-estar laboral e a integração de princípios éticos nos seus modelos de gestão. Este paradigma, embora frequentemente assente em ações pontuais, voluntárias e, muitas vezes, desconectadas da estratégia corporativa, e, por isso, difíceis de avaliar, representou um avanço importante face a visões estritamente económicas, ao reconhecer que as organizações desempenham um papel que ultrapassa a mera criação de lucro.
Contudo, a crescente complexidade dos desafios ambientais, sociais e éticos tornou evidente que a filantropia corporativa, por si só, era insuficiente para enfrentar realidades como desigualdades persistentes, crises ambientais ou riscos de violação de direitos humanos em cadeias de abastecimento globais. As exigências contemporâneas requeriam um quadro mais estruturado e consistente.
Foi, neste contexto, que, no início da década de 2010, emergiu a necessidade de um referencial internacional capaz de uniformizar a compreensão da responsabilidade social. Dessa necessidade nasceu a ISO 26000, frequentemente apelidada de “mãe” da responsabilidade social. A norma expandiu o foco muito além do “social”, consolidando sete princípios orientadores – responsabilidade, transparência, comportamento ético, respeito pelos interesses das partes interessadas, respeito pelo Estado de direito, respeito pelas normas internacionais de conduta e respeito pelos direitos humanos – o que antecipava uma visão mais robusta, coerente e abrangente do que aquela tradicionalmente associada à RSC. Ainda assim, apesar deste avanço conceptual, a sustentabilidade corporativa ainda não detinha, na época, a maturidade normativa, regulatória e financeira que viria a ganhar com a evolução das políticas europeias, com a consolidação dos referenciais de relato e com a ascensão do paradigma ESG.
Ao longo desta década e da seguinte, impulsionadas por quadros regulatórios mais exigentes, por frameworks internacionais amplamente difundidas e por sistemas de ratings e métricas considerados como referência pelas diferentes partes interessadas, a Sustentabilidade afirmou-se como um novo paradigma empresarial, mais amplo e sistémico, deslocando o foco da empresa para a totalidade da sua cadeia de valor e para o ciclo de vida dos seus produtos e serviços. Já não se tratava de “fazer o bem”, mas de gerir impactos e criar valor de forma equilibrada, duradoura e verificável. Este movimento foi amplificado por referenciais como a ascensão do Global Reporting Initiative, a criação do Sustainability Accounting Standards Board (SASB) e, mais recentemente, pela Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), que introduz normas obrigatórias de reporte de sustentabilidade para milhares de empresas europeias.
Perante este novo enquadramento, a questão torna-se inevitável: estaremos a assistir ao fim da RSC tal como a conhecemos?
A resposta não reside num “fim”, mas numa transformação estrutural. A RSC metamorfoseia-se na Sustentabilidade e encontra expressão prática através do ESG. Mantém-se como fundamento ético, mas deixa de ser suficiente enquanto abordagem isolada. O que se esvai não é o propósito da responsabilidade social, mas o seu modelo tradicional – voluntário, fragmentado e difícil de mensurar.
A transição ganhou velocidade com a consolidação do ESG. Diferentemente da RSC, o ESG assenta em indicadores mensuráveis, dados verificáveis e mecanismos de governação que permitem avaliar desempenho, mapear riscos e medir resiliência organizacional. Para investidores, reguladores e, cada vez mais, para colaboradores e consumidores, o ESG tornou-se a linguagem comum da sustentabilidade corporativa. E, embora por vezes se sugira que o ESG substituiu a RSC, tal perspetiva simplifica em demasia a realidade: na verdade, o ESG operacionaliza e quantifica o propósito da RSC, conferindo-lhe rigor, comparabilidade e relevância estratégica. Hoje, nenhuma organização pode legitimar a sua responsabilidade social sem demonstrar, com evidências, o seu impacto ambiental e social, a sua transparência e a qualidade da sua governação.
No centro desta transformação encontra-se um elemento decisivo e frequentemente subestimado: a cultura organizacional. Nem a RSC tradicional, nem a Sustentabilidade, nem o ESG conseguem produzir impacto significativo quando encarados apenas como obrigações de relato, rotinas de conformidade ou exercícios de comunicação. A verdadeira mudança requer que valores éticos, responsabilidade, transparência e compromisso com as partes interessadas sejam incorporados no ADN da organização, manifestando-se em práticas quotidianas, decisões estratégicas e comportamentos alinhados em todos os níveis hierárquicos.
Uma cultura orientada para a sustentabilidade exige liderança consciente e comprometida, capaz de articular uma visão clara e mobilizar a organização em torno dela. Implica, também, capacitação interna, garantindo que os colaboradores compreendem o impacto das suas ações e participam na criação de valor sustentável e, por fim, pressupõe mecanismos de governação robustos, que integrem critérios ESG nos processos decisórios, no planeamento estratégico, na gestão de riscos e na avaliação de desempenho.
A cultura organizacional torna-se, assim, o verdadeiro sistema operativo da sustentabilidade, assegurando coerência, continuidade e autenticidade ao propósito corporativo, por isso constitui o elo entre o passado da responsabilidade social, marcado por boas intenções e iniciativas voluntárias, e o presente, moldado pelo ESG, que exige rigor, mensurabilidade e integração estratégica. Mais do que uma mudança semântica, esta evolução representa uma verdadeira mudança de mentalidade: a compreensão de que a sustentabilidade é hoje a lente através da qual as organizações interpretam o seu propósito, orientam decisões e criam valor para a sociedade e para os seus stakeholders.