Por Helena Paixão, psicóloga clínica, Ceo & Founder da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal
As sucessivas tempestades que têm atingido Portugal, acompanhadas por níveis de alerta elevados em várias zonas do país, representam mais do que um fenómeno meteorológico. Para muitas pessoas, estes episódios activam uma sensação de imprevisibilidade constante, fragilizando a percepção de segurança e controlo, dois pilares fundamentais do equilíbrio emocional.
A imprevisibilidade é um dos principais gatilhos de ansiedade. Quando o ambiente se torna instável, o cérebro entra em modo de alerta prolongado, preparando-se continuamente para o pior cenário. Este estado de hiperactivação pode manifestar-se através de ansiedade, tensão física, irritabilidade, dificuldades de concentração, alterações do sono e sensação de cansaço persistente, mesmo em pessoas habitualmente resilientes.
A exposição repetida a alertas, notícias e imagens de destruição reforça esta resposta emocional. Mesmo quem não foi directamente afectado pode experienciar stress empático, preocupação excessiva com familiares e antecipação constante de perdas ou dificuldades. Com o tempo, este estado reduz a capacidade de recuperação emocional e aumenta o risco de exaustão psicológica.
No dia-a-dia, este impacto pode reflectir-se tanto na vida pessoal como profissional. A capacidade de tomar decisões, planear, manter o foco e regular emoções pode ficar comprometida. Em contexto laboral, pode surgir um nível de stress mais elevado, ansiedade, maior reactividade emocional, menor tolerância à frustração ou uma tentativa de controlo excessivo como forma de lidar com a incerteza.
Gerir este impacto começa pelo reconhecimento. Validar que é normal sentir-se mais ansioso, cansado ou em alerta num contexto de instabilidade ajuda a reduzir a autocrítica e o isolamento emocional. Seguidamente, é fundamental recuperar pequenas ilhas de previsibilidade: manter rotinas simples, definir horários, estabelecer prioridades realistas e focar a atenção no que está no seu campo de acção e responsabilidade.
Reduzir a exposição contínua a notícias é outra estratégia-chave. Estar informado não significa estar permanentemente exposto. Limitar momentos específicos do dia para actualização ajuda o sistema nervoso a sair do estado de alerta constante.
Estratégias de autorregulação, como pausas conscientes, respiração lenta e profunda, movimento físico e contacto social seguro, funcionam como factores protectores da saúde mental.
Pequenas acções também aumentam a sensação de segurança, como ajudar dentro do que for possível, mesmo gestos simples como uma mensagem, partilha de informação útil ou apoio logístico, ajudam a gerir a sensação de impotência que acompanha contextos de crise. Ter em casa um pequeno kit SOS com água, alimentos não perecíveis, lanterna, pilhas, medicamentos essenciais e contactos importantes contribui para maior sensação de controlo e segurança. A preparação não é alarmismo, é uma estratégia preventiva que reduz ansiedade antecipatória. Pensar previamente em cenários práticos, como deslocações, contactos ou alternativas de rotina, ajuda o cérebro a sair do modo de ameaça, desde que feito de forma objectiva e sem ruminação excessiva.
Quando o impacto emocional interfere de forma significativa no sono, na alimentação, no funcionamento diário ou nas relações, procurar apoio psicológico é um sinal de consciência e autocuidado, e não de fraqueza.
Num contexto marcado pela imprevisibilidade, a adaptação emocional não passa por eliminar a ansiedade, mas por aprender a regulá-la. Recuperar a sensação de segurança interna, mesmo quando o exterior é instável, é um dos maiores factores de protecção da saúde mental. E, em tempos de alerta contínuo, cuidar do equilíbrio mental e emocional torna-se uma competência determinante para atravessar a adversidade com foco e resiliência.














