Internacional: Está na hora de enfrentar os indiscutíveis da equipa

Margarida Lopes
28 de Outubro 2019 | 10:32

Há temas e situações sobre as quais não se fala nas empresas. Estes “indiscutíveis” existem porque ajudam as pessoas a evitar conflitos, mas também impedem as opiniões e os desafios essenciais que melhoram o desempenho e promovem a aprendizagem.

 

Por Ginka Toegel e Jean-Louis Barsoux

 

Em 2008, um engenheiro da Theranos (empresa americana de serviços de saúde-tecnologia e médico-laboratorial), Aaron Moore, criou um anúncio falso para um  protótipo do dispositivo de teste de sangue da empresa. Criado como brincadeira para divertir os colegas, o anúncio descrevia o dispositivo como “praticamente funcional” e incluía “sanguessugas” entre os seus “acessórios para recolha de sangue”.

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Agora, em retrospectiva, podemos interpretar esta paródia não apenas como piada, mas como uma tentativa desesperada de levantar um assunto tabu: o dispositivo da empresa não funcionava e a equipa de liderança estava a esconder esse facto. As acções de Aaron Moore disseram muito sobre o “indiscutível” na Theranos.

Os indiscutíveis existem porque ajudam as pessoas a evitar conflitos, ameaças e constrangimentos a curto prazo. Mas também impedem as opiniões e desafios essenciais que melhoram o desempenho e promovem a aprendizagem em equipa. O nosso trabalho de consultoria com dezenas de equipas de gestão ensinou-nos que a capacidade de uma equipa para debater obstáculos impulsiona a sua eficácia. Observámos essa dinâmica numa ampla variedade de contextos e aproveitámos essa experiência para propor uma estrutura, um conjunto de perguntas de diagnóstico e algumas soluções direccionadas para ajudar as equipas a resolverem os seus próprios indiscutíveis. Essa abordagem permite que os líderes de equipa identifiquem os indiscutíveis dominantes nos seus negócios e iniciem os debates necessários para os revelar.

Na Theranos, a CEO Elizabeth Holmes e a sua equipa de topo não estavam dispostos sequer a reconhecer problemas que eram óbvios para muitos dos seus engenheiros. Foi significativo que Aaron Moore não tivesse partilhado as suas dúvidas directamente com os seus chefes, exprimindo-se em vez disso de maneira sarcástica e anónima.

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Quando Elizabeth Holmes foi informada sobre o anúncio falso, iniciou uma investigação para se identificar o culpado. Em vez de desencadearem um de- bate, as suas acções reforçaram a men- sagem de que os problemas com o produ- to não deveriam ser discutidos. Poucos meses depois de ser repreendido, Aaron Moore demitiu-se, frustrado e desiludido.

A análise
Os autores examinaram várias correntes de pesquisa sobre eficácia e disfunção nas equipas, ligando as perspectivas dominantes de gestão e psicologia social nas equipas à literatura psicodinâmica frequentemente negligenciada em grupos.

Juntamente com o seu trabalho de consultoria com equipas seniores de gestão, os autores estudaram a dinâmica de grupos em equipas desportivas de elite, orquestras, equipas médicas e uma equipa de negociação de reféns.

As suas ideias foram validadas e aperfeiçoadas pelos participantes nos programas de formação de executivos da IMD, Business School of Management, nos últimos 10 anos.

O caso Theranos mostra o que pode acontecer quando as vozes em questão são silenciadas e os tópicos considerados tabu. Na Theranos, isto criou uma cultura de medo e negação que acabou por levar a falsas alegações feitas a investidores e clientes, bem como a decisões que prejudicaram a saúde dos pacientes. A história da Theranos terminou com acusações de fraude criminal movidas contra Elizabeth Holmes e com a queda de uma startup anteriormente avaliada em oito mil milhões de euros.

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Enquanto a Theranos representa um caso extremo de uma organização disfuncional, o problema subjacente – as questões indiscutíveis das equipas – é muito comum. E está a piorar à medida que as equipas cada vez mais virtuais e distribuídas globalmente sentem mais dificuldade a vislumbrar sinais de desconforto e a antecipar mal-entendidos. Com menos oportunidades de abordar o indiscutível (casualmente, durante o almoço ou café), torna-se ainda mais importante identificar e expor as preocupações antes que elas aumentem e que o desempenho da equipa e da organização comece a deteriorar-se.

 

Um problema incompreendido
Quando as equipas de liderança com que trabalhamos se debatem com os indiscutíveis, os sintomas que nos apresentam variam – de conflitos por resolver entre membros da equipa e participação desigual nas reuniões até ao destrutivo pensamento de grupo e ao desinteresse dos colaboradores. Estudámos também a dinâmica de grupo em vários ambientes não empresariais – incluindo equipas desportivas de topo, orquestras, equipas médicas e uma equipa de  negociação de reféns – e o padrão mantém-se igual em diferentes contextos e níveis: quanto mais indiscutíveis existem, mais dificuldade tem a equipa em funcionar. Se não forem discutidos colectivamente, não podem ser geridos de forma inteligente.

 

Leia o artigo na íntegra na edição de Outubro da Human Resources, nas bancas.

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