A necessidade de cumprir ordens com as quais não se concorda ou das quais se desconhece a utilidade está entre os desafios mais sentidos durante o confinamento

Margarida Lopes
29 de Janeiro 2021 | 12:10

Os estudo “A ética nas empresas em tempos de pandemia”– realizado pelo Fórum de Ética da Católica Porto Business School – revela que mais de metade (53%) dos participantes considera que teve mais desafios éticos durante o período de confinamento. Este número sobe para os 80% se se juntar as respostas dos que não sabem estabelecer exactamente o que é um desafio ético.

 

Olhando para os desafios concretos, os resultados demonstram que a pandemia agravou a gestão do equilíbrio entre as questões familiares e o trabalho – reportado por elementos de chefia e não-chefia – e a equidade no tratamento dos colaboradores face a situações particulares.

Entre os que não têm responsabilidades de gestão, a questão da equidade surge a par da necessidade de cumprir ordens com as quais não concorda ou das quais desconhece a utilidade (16%). Esta resposta poderá estar relacionada com a comunicação e a transparência, aspectos que todos (chefias e não-chefias) consideram que poderiam ter sido mais bem geridos durante o período de confinamento.

De acordo com o estudo, o local de trabalho, que passou a ser algo indefinido e volátil, assim como o próprio horário de trabalho, que passou a ser questionado, menos controlável e um factor de ansiedade para muitas chefias e de pressão para os trabalhadores, posicionam-se como outros factores que tornaram mais complexos os desafios éticos. Estes dois aspectos surgem ligados a questões como a confiança ou a decisão de confiar. As questões da autonomia e da flexibilização foram, também, aspetos muito focados.

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Os estudo revela ainda que a pandemia permitiu, em muitos casos, ter uma nova visão da empresa. Os inquiridos indicam que a gestão aberta, transparente e participativa foi um dos aspectos que saiu claramente reforçado.

Os dados analisados indicam que a pandemia permitiu descobrir competências colectivas e individuais. Talvez por isso, quando questionados sobre o ambiente vivido na empresa, a maioria das respostas tenha sido positiva.

O inquérito, realizado entre 19 de Junho e 31 de Julho de 2020, analisou um conjunto de 242 organizações. Mais de 80% dos inquiridos referiram que a sua organização estava a operar com “trabalho totalmente remoto” (28%), com a “equipa reduzida no local de trabalho” (27%) ou “apenas com os que não podiam fazer o trabalho remotamente” (26%). A principal perturbação operacional reportada foi a “quebra ou aumento significativo da procura de produtos/serviços” (20%), seguida de “desorganização devido ao trabalho remoto” (15%).

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As principais decisões tomadas para reagir a essas perturbações operacionais foram “reforçar a protecção e segurança” (23%) e “estabelecer políticas/procedimentos” para lidar com teletrabalho (23%). Foram, também, tomadas “medidas no sentido de ajudar a conciliar a vida familiar com a profissional” (14%).

No início do verão do ano passado, pouco mais de metade (55%) esperava que a sua organização regressasse à “normalidade” até ao final de 2020. Os restantes dividem-se, equitativamente, entre os que vaticinavam o regresso “no próximo ano (2021)” (23%) e os que não vislumbravam regresso, essencialmente porque não faziam ideia de quando poderiam voltar à “normalidade” (17%) ou porque não perspetivavam continuidade do negócio (5%).

O estudo “A ética nas empresas em tempos de pandemia”, realizado por Helena Gonçalves e Ana Roque, coordenadoras do Fórum de Ética da Católica Porto Business School, visa retratar a forma como as organizações enfrentaram a crise pandémica numa perspectiva ética, compreender o processo de tomada de decisão e como os colaboradores das organizações deram resposta ao contexto foram o principal foco do inquérito.

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