Por Érica Pereira, Associate director, Professional Talent Solutions, Randstad
Quando abordamos a temática do regime de flexibilidade no mercado de trabalho, importa, antes de mais, compreender o estado actual deste ecossistema em transformação. Conceitos como “work-life balance” (equilíbrio entre vida profissional e pessoal), teletrabalho e flexibilidade tornaram-se comuns, sendo amplamente debatidos e analisados. A forma como, numa primeira fase, estes conceitos delinearam os novos locais de trabalho, a sua expansão e integração, tem motivado um crescente debate em torno da visão e percepção dos profissionais e empresas quanto ao futuro da relação laboral.
O que fica depois da poeira assentar? Algures, entre aqueles que consideram este como um movimento consequente da crise pandémica de 2020/2021, mas que perderá relevância, e aqueles que defendem ser esta uma oportunidade para criar um paradigma, deverá estar a resposta.
Nos últimos anos assistiu-se a um conjunto de mudanças drásticas no interior das organizações. E não falo apenas naquilo que diz directamente respeito aos Recursos Humanos. Do ponto de vista operacional, muitas empresas reformularam arquitectonicamente os seus escritórios, mais amplos e dinâmicos, menos monótonos, sem se cingir a corredores constituídos em exclusivos por mesas de trabalho. O bem-estar dos profissionais passou a ser a prioridade na organização dos espaços, em detrimento de um pensamento prático para os mesmos. Não poucas empresas, em especial as de maior dimensão, têm agora mais colaboradores do que desks de trabalho, cientes de que a presença física de todas as equipas é assunto passado.
E os números corroboram esta realidade. Verificou-se em Portugal, no segundo trimestre de 2024, um crescimento no número de pessoas em regime de teletrabalho, praticamente, mais 42 mil profissionais. Dessa forma, superou-se a barreira do milhão de pessoas que desenvolve as funções laborais neste formato, o que representa 21% do total nacional. Outro dado relevante a merecer atenção: para 25% dos profissionais portugueses não trabalhar a partir de casa é inegociável. Mais, o worklife balance é o terceiro critério mais importante, aquando da escolha do próximo desafio laboral, apenas ultrapassado pelo salário e benefícios. E, na hora de encontrar factores que motivem a mudança de projecto, juntamente com a falta de flexibilidade, o worklife balance é um dos principais factores identificados pelos colaboradores portugueses para deixar a sua entidade profissional.
Flexibilidade dos profissionais? O que pensam as empresas
Se entre os colaboradores o teletrabalho foi recebido de forma quase efusiva, qual será o posicionamento das entidades empregadoras? Existem várias tendências ao nível dos Recursos Humanos que vale a pena abordar. Por exemplo, e dentro das medidas actualmente praticadas, quase 70% das empresas aposta numa política de flexibilidade, com especial atenção aos horários de trabalho, sejam estes de entrada, saída ou refeições. Já no que concerne ao teletrabalho, híbrido ou total, mais de metade das entidades assume adoptar esta prática.
Existe também uma percepção generalizada por parte das organizações que as medidas de flexibilidade aplicadas internamente são eficazes e garantem a fidelização dos seus colaboradores. Uma política mais aberta não apenas ajuda a manter os talentos existentes, mas também atrai novos profissionais que valorizam estas novas directrizes na hora de escolher entre dois empregos.
Fruto desta realidade, e por demais evidente, importa concluir que, actualmente, as medidas de flexibilidade desempenham um papel fundamental na retenção de profissionais, com base numa força de trabalho comprometida e estável.
Agora, se o presente constitui a continuidade de um conceito que a pandemia veio apenas extrapolar: o que reserva o futuro? Embora cresça o debate, bem como a pressão para o regresso completo às empresas, e um maior rigor em relação à assiduidade (e alguns sinais, evidenciados em especial nos EUA, por organizações tecnológicas – ironicamente, apontam nesse rumo), dificilmente voltaremos a hábitos pré-pandémicos. Os talentos ainda ditam muitas das regras que regulam a relação de trabalho. E estes, definitivamente, imaginam um futuro bem diferente das anteriores gerações.














