Rita Oliveira Pelica, ONYOU: O intraempreendedor no “país das maravilhas”

Em “Alice no País das Maravilhas”, Lewis Carroll mergulha-nos num mundo maravilhoso onde o absurdo é a regra, a lógica é desmontada e as normas são relativas – uma metáfora involuntária, embora perfeitamente realista, para o estado das organizações em 2025. O intraempreendedor que aceita “ir pela toca do coelho” abandona deliberadamente a segurança dos manuais corporativos para explorar um território incerto.

 

Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer da ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

Desde que caiu pela toca do coelho, há mais de 160 anos, Alice tornou-se num ícone da cultural global, símbolo da imaginação, da rebeldia lúdica e da curiosidade como força transformadora. O intraempreendedor contemporâneo é, neste sentido, uma nova Alice: alguém que escolhe, conscientemente, ir “go down the rabbit hole”, não por ingenuidade, mas por inquietação crítica. Em 2025, isto significa explorar territórios corporativos incertos, onde a lógica tradicional já não responde aos desafios exponenciais do presente.

Na sua essência, “Alice no País das Maravilhas” não é um conto infantil, mas antes um manifesto surrealista contra a rigidez das estruturas e dos discursos dominantes. Lewis Carroll, que escrevia sob pseudónimo para explorar livremente lógicas paralelas, jogos de linguagem e paradoxos científicos, criou um universo onde tudo pode ser questionado. “Ah, se a vida nas organizações pudesse ser assim um dia.” A obra nasceu num contexto de industrialização e globalização vitoriana, e serviu para desconstruir os excessos de racionalismo e controlo. E, por isso mesmo, surrealmente, continua actual.

Ao cair na toca do coelho, Alice questiona tudo o que parecia natural. E é este o primeiro gesto intraempreendedor, o de desafiar as rotinas instaladas, desconfiar das verdades absolutas e ousar re-imaginar a realidade da organização a partir de perguntas desconfortáveis e, por vezes, incómodas. A sua curiosidade é activa e indisciplinada. Alice não representa apenas a curiosidade infantil, ela simboliza a criatividade radical, a que inventa novas formas de pensar onde, antes, só havia repetição. Inovar, em 2025, é esse acto de transgressão lúcida (e, eventualmente, lúdica?).

A metáfora é ainda mais evidente quando olhamos para as figuras que habitam o “País das Maravilhas”. O Coelho Branco, sempre em pânico e perpetuamente atrasado, representa a gestão ansiosa que corre sem direcção, preso a cronogramas e a KPI, e ao seu próprio ritmo frenético; a Rainha de Copas personifica as lideranças reactivas, que sufocam a inovação com decisões autoritárias, aliás, “cortam-se umas cabeças” e fica tudo bem. O Chapeleiro Louco encarna o vazio das reuniões sem propósito, a caricatura dos rituais corporativos sem sentido, onde se discute muito e se muda pouco, numa sátira sã ao status quo; a Lagarta representa “aquela pessoa” que nos convida à introspecção, à transformação e ao questionar da identidade; por fim, o intrigante Gato de Cheshire, sorridente e observador, mas sempre à margem da responsabilidade, sem nunca se comprometer. Outros, tal como a Lebre de Março, apenas continuam a beber “o chá das cinco”, durante todo o dia. Os paralelismos são evidentes, ou estou a “ver mal o filme”, aliás, o livro?

Alice sobrevive a tudo isto porque conjuga criatividade com pensamento crítico, duas das competências essenciais para o intraempreendedor. Ela observa, analisa e resiste. Num mundo corporativo onde os discursos são muitas vezes incoerentes, os rituais desconectados da realidade e a inovação sequestrada por meras buzzwords, o intraempreendedor precisa da mesma lucidez para navegar, provocar e propor. Em plena era da automatização e da inteligência artificial, o intraempreendedor tem de ser capaz de “se ver ao espelho” e reflectir (sobre) o poder da dúvida criativa e da insubmissão pensada.

Em 2025, no País das Organizações, só há uma forma de inovar com sentido: aceitando mergulhar no caos, sem perder a capacidade de pensar pela própria cabeça (e, idealmente, sem “perder a cabeça”!), e imaginar “novos caminhos” e possibilidades. Porque, como nos mostrou Carroll, a entrada para o futuro não se faz por uma porta – faz-se por uma toca. Quem quer entrar por aí?

 

Este artigo foi publicado na edição de Maio (nº. 173) da Human Resources, nas bancas.

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