
A inovação é um mar de oportunidades para as organizações sociais
Por Susana Bernardino, coordenadora da Pós-Graduação de Inovação e Gestão das Organizações Sociais da PEA / ISCAP
A inovação social é um termo cada vez mais presente nos discursos contemporâneos, em diferentes contextos e meios de comunicação. Mas, afinal, estamos todos a falar do mesmo? E, mais importante ainda, as organizações sociais estão a aplicá-la onde deveriam?
O artigo Rediscovering Social Innovation, publicado pela Stanford Social Innovation Review, diz-nos que a inovação social é uma das ferramentas mais promissoras para promover mudanças sociais duradouras. Isto é, nada mais nada menos do que a procura de soluções novas para problemas sociais existentes, que possam ser mais eficazes, eficientes, sustentáveis ou justas do que as abordagens convencionais.
Etimologicamente a expressão resulta da junção de dois termos – inovação e social – ambas de origem latina, innovatio e socialis, que significam, respectivamente, a “introdução de algo novo” e “relativo à sociedade ou ao companheirismo”.
Também enquanto prática, a inovação social tem as suas raízes na inovação em sentido lato. Trata-se, no entanto, de uma inovação com um propósito: criar valor para as pessoas e para a comunidade. Assim, no seu ADN encontra-se o desejo de que as soluções ou resultados a gerar a partir da inovação sejam apropriados pela sociedade.
No fundo, consiste em fazer algo de novo ou algo que já era feito de uma forma diferente, tendo em mente a criação de impacto social. Também no contexto da inovação social é possível aplicar, ou almejar, o conceito de destruição criativa, introduzido por Joseph Schumpeter já em 1942. A ideia aqui será tornar os padrões até então em vigor obsoletos e elevar a forma como os problemas sociais são abordados.
A inovação (social) pode classificar-se como revolucionária, radical ou incremental, consoante o alcance, o nível de transformação, o risco ou os custos envolvidos. A inovação incremental, embora à primeira vista possa parecer menos ambiciosa, tem um enorme potencial de criação de valor social. De facto, é nas pequenas e constantes melhorias que pode surgir um impacto significativo e sistemático na sociedade, sendo esta tipologia mais facilmente explorável pelas organizações. Como tal, apresenta um excelente valor acrescentado aos esforços realizados em matéria de inovação social.
Na verdade, este conceito pode ser encarado quer sob a perspectiva dos resultados obtidos na sequência da inovação, mas, também, na forma como os processos são desenvolvidos no interior das organizações. Tendo em conta o objecto da mudança, a inovação pode ser considerada ao nível do produto ou serviço, dos processos, dos modelos organizacionais ou do marketing.
É precisamente este espectro alargado de possibilidades no âmbito da inovação que é fundamental para as organizações sociais. Para além de poder ocorrer ao nível dos serviços a disponibilizar, estende o espaço de oportunidades à forma como os produtos/serviços são desenvolvidos ou implementados. Neste contexto a inovação pode ser alcançada na forma como as organizações desenvolvem as operações, se estruturam, gerem e lideram as equipas, definem estratégias de financiamento, abordam a comunidade ou estabelecem relações com o exterior.
As organizações sociais são, por definição, o espaço natural para a inovação social. Basta olhar para o sector para identificar vários casos de sucesso que têm alcançado resultados com impacto directo na vida das pessoas. Tendo em conta os muitos e complexos problemas sociais existentes, a criação de organizações robustas e ágeis na sua capacidade de serem socialmente inovadoras releva-se fundamental nos dias de hoje.
Criar uma cultura orientada para a inovação, investir em programas de formação, integrar redes de colaboração no ecossistema de inovação social e a interacção com um conjunto diferenciado de actores são condições determinantes para explorar todo o potencial e espaço de oportunidades que a inovação social oferece.
No fim, não é o conceito de inovar que importa, é a acção de melhorar a vida das pessoas.