Raul Neto, CEO da Randstad, e João Bento, CEO dos CTT, analisam o mercado de trabalho no sector da logística

O sector da Logística transformou-se drasticamente com a digitalização. Mudou a actividade e tiveram de mudar as pessoas – as suas competências. Raul Neto, CEO da Randstad, e João Bento, CEO dos CTT, analisam o mercado, partilham os principais desafios e os caminhos seguidos, deixando claro que, não havendo fórmulas mágicas, há apostas determinantes para o sucesso.

 

Moderação por Ana Leonor Martins e Ricardo Florêncio | Fotos Nuno Carrancho

 

Raul Neto é CEO da Randstad Portugal desde 2023. O João Bento é CEO dos CTT desde 2019. Foram estes os protagonistas de mais uma Conversa de Presidentes promovida pela Human Resources, que aceitaram o desafio de reflectirem sobre o mercado de trabalho no sector da Logística em Portugal. Numa conversa que decorreu no Pestana Palace, em Lisboa, os dois líderes traçaram o retrato de um sector em profunda transformação, tendo como rastilho a digitalização.

Os CTT, um dos maiores empregadores portugueses, com cerca de 13 mil trabalhadores, são um exemplo paradigmático disso mesmo, tendo tido de se reinventarem para sobreviverem. «O grande desafio era pôr os CTT numa rota de futuro. Era preciso não só fazer melhor, mas fazer diferente.» E foi isso que João Bento fez. Com a consciência de que não podia – nem ia – deixar cair as pessoas. Capacitou-as para a mudança e promoveu também uma mudança cultural.

Com profundo conhecimento do mercado, Raul Neto reconhece esse trabalho – e os resultados já visíveis – num sector pouco atractivo para trabalhar, apesar da aposta na modernização e de os salários até serem cada vez mais competitivos. Num contexto de escassez, não só de talento, mas de pessoas, alerta para a necessidade de apostar no upskilling e no reskilling, na certeza de que «uma empresa que investe na formação e no desenvolvimento das competências dos seus colaboradores é muito mais apelativa».

 

Que grandes mudanças ou evoluções se destacam dos últimos anos no sector da Logística, e nos CTT, em particular?
João Bento (JB): Somos, talvez, um dos casos de maior impacto, porque o nosso negócio original está a desaparecer. É inexorável, o nosso grande concorrente é a digitalização.

Assumi estas funções nos CTT em 2019, e, nas contas de 2018, o Correio representava 70% dos proveitos, e 118% do EBIT [lucros antes de juros e impostos], ou seja, a nossa margem era exclusivamente gerada pelo Correio. E ainda havia negócios que degradavam essa margem. No ano passado, o Correio, pela primeira vez, deixou de ser a maior área de negócio dos CTT, passando a representar 42% dos proveitos e 8% da margem. E crescemos significativamente, não só em receita, como em margem, portanto, somos uma empresa completamente diferente.

Quando falávamos com os vários stakeholders, a nossa mensagem era “somos um postal operator under transformation” – talvez um dos mais bem-sucedidos nesse processo –, mas há um ano que abandonámos essa mensagem para nos posicionarmos como um “E-commerce Logistics Player”. Somos uma empresa nova, uma empresa de logística de e-commerce. E se a digitalização da economia representa um desafio, também nos ajudou a fazer explodir esta área. Num documento dos CTT de 2018, previa-se que, em 2025, poderíamos estar a entregar cerca de 39 mil encomendas por dia. Hoje, entregamos mais de 600 mil. Falhámos por 20 vezes a previsão…

Em grande medida, isto corresponde também a uma alteração no comportamento social, na forma como se compra, como se convive com o retalho, e isso requer toda uma nova forma de organização logística.

 

Quais têm sido os principais desafios?
JB: A nossa história recente tem sido, no fundo, de ajudar a construir essa nova forma de organização logística. Os clientes, mas principalmente os clientes dos nossos clientes, são muito mais exigentes. O negócio de Expresso é muito mais rico, porque as pessoas querem velocidade, querem informação fiável, querem saber onde estão as coisas, querem poder receber em qualquer sítio, a qualquer hora…

Temos centros muito mais intensos em tecnologia, com muitos processos automatizados, e temos de ter muito mais informação sobre as mercadorias, o que implica que, do ponto de vista das pessoas, estas tenham de estar muito mais aptas a trabalhar com dados. E isto está muito longe daquilo que era o skill set predominante nos CTT.

No passado, basicamente tínhamos pessoas que pegavam em coisas e as transportavam de um lado para o outro – ainda é isso que fazemos, mas de maneira diferente. Aliás, um dos nossos motes favoritos é “ligamos pessoas e empresas com a entrega total”, fazendo um trocadilho com a palavra entrega, no sentido de compromisso e também no sentido literal.

Lembro-me da primeira vez que fiz um giro com um carteiro, e o PDT que usava tinha informação um pouco mais do que miserável. Hoje um carteiro, na sua interacção com o cliente final, tem múltiplas oportunidades de interacção, seja para receber o dinheiro ou para dar informação sobre a encomenda. É muito diferente do que acontecia no passado. Isso implica que as pessoas tenham de ser, elas próprias, mais aptas do ponto de vista da digitalização, pois as ferramentas são mais sofisticadas. E os clientes mais exigentes.

 

Isso implica que as pessoas tenham de ter outras competências…
JB: Sim, o reskilling e o upskilling são uma necessidade muito vincada no nosso caso, mas também no mercado de trabalho de forma geral. Temos casos com escala e outros com dimensão quase laboratorial, mas muito interessantes. Nós próprios estamos ainda a tentar aprender, mas têm imenso impacto no nosso futuro.

A digitalização está a transformar o nosso negócio, e isso obriga a ter pessoas capacitadas. No nosso caso – porque somos muitos, não só não faria sentido, como não seria possível substituí-las –, têm de ser predominantemente as mesmas, temos de ajudar a desenvolvê-las. E temos feito isso. Mas nem sempre podemos esperar pelo ciclo de desenvolvimento, por isso também temos recrutado.

Tudo isto num intervalo de cinco, seis anos. Somos hoje uma empresa muito diferente daquela que éramos há uns anos, naquilo que fazemos e também na forma como estamos organizados.

 

Implica uma nova cultura?
JB: Claramente. Evoluímos em termos de digitalização, mas também de cultura, para um foco muito maior no cliente. Neste processo de transformação cultural, revisitámos e reconstruímos a nossa visão, missão e valores. E a definição de valores resultou de um processo muito democrático, em que todos participaram. Depois, depurámos cinco com os nossos directores de primeira linha, um grupo de 50 pessoas. Um desses valores é precisamente o foco no cliente.

Ou seja, a par de todo o processo associado à transformação digital, houve ainda esta outra necessidade, a de virar a empresa mais para o cliente, mantendo as preocupações de rigor e de qualidade, que sempre existiram.

 

Raul, os CTT destacam-se no sector em que actuam? São a excepção e não a regra?
Raul Neto (RN): Os CTT têm, de facto, uma posição muito predominante e uma visão até se calhar um pouco diferenciada de outros players no mercado. Diria que estão um passo à frente. Isso nota-se inclusive ao nível da sua atractividade enquanto empregador – e a marca é certamente relevante nesse contexto.

 

E o sector da Logística não é dos mais atractivos para trabalhar…
RN: É uma realidade que é um sector em que ainda não há um grande reconhecimento, quando comparado com outros. Não é dos sectores mais atractivos, ainda que, surpreendentemente ou não – e basta olhar para os dados do INE –, é um sector que inclusive paga, em média, acima daquilo que é a remuneração média na economia portuguesa.

Isso já denota o caminho que está a ser feito, esta transição para ser um sector mais reconhecido, com melhores remunerações, com profissionais mais qualificados. É também interessante ver que a grande maioria da sua população profissional é especializada, não tem apenas qualificações básicas.

Mas há claramente, ainda, um trabalho a fazer…A atractividade do sector não está ao nível de outros.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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