Emigração portuguesa estabilizou em 65 mil. A maioria continua pouco qualificada

O Observatório da Emigração estima que, em 2024, terão emigrado cerca de 65 mil portugueses, menos cinco mil do que em 2023, confirmando-se, apesar de uma ligeira desaceleração, uma trajectória de estabilização dos fluxos emigratórios em torno de valores próximos dos registados na primeira década deste século. E a maioria não é qualificada.

Segundo a estimativa do Observatório da Emigração que funciona no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do Iscte, a ligeira diminuição observada em 2024 deve-se, sobretudo, aos efeitos recessivos do Brexit sobre a emigração portuguesa para o Reino Unido, que diminuiu 37% entre 2023 e 2024. Tendo a emigração para o Reino Unido passado de mais 32 mil em 2015 para menos de três mil em 2024, o Observatório prevê que dificilmente este fluxo, “hoje muito reduzido”, continuará a ter grande impacto na evolução da emigração portuguesa, «pelo que esta deverá estabilizar nos próximos anos em valores próximos dos atuais, entre 60 e 65 mil».

Em 2024, a Suíça (com 12 388 entradas) e a Espanha (com 11 332) mantiveram-se como os principais destinos da emigração portuguesa. É o segundo ano consecutivo em que o destino espanhol perde a liderança das saídas. A França deverá ter sido o terceiro país de destino, embora não haja ainda dados para 2024 (em 2023, entraram 7 426 portugueses neste país), e o quarto terá sido a Alemanha (7 410 entradas). Um terceiro grupo de destinos inclui os países do Benelux: Bélgica (5 471 saídas), Países Baixos (4 795) e Luxemburgo (3 469).

«Nesta nova fase da emigração portuguesa, Espanha e Suíça têm alternado como destino principal: em 2023 e 2024 houve mais portugueses a entrar na Suíça do que em Espanha, em 2021 e 2022 a Espanha foi o destino principal», afirma Inês Vidigal, coordenadora executiva do Observatório da Emigração. «Cinco dos sete principais países de destino da emigração portuguesa continuam a ter maioritariamente uma migração com baixas qualificações escolares: Suíça, Espanha, França, Alemanha e Luxemburgo».

Segundo Inês Vidigal, apenas nos casos da Bélgica e, sobretudo, dos Países Baixos, a emigração portuguesa é hoje constituída sobretudo por profissionais com formação superior. «O mesmo acontece para destinos com menos emigração, como os países escandinavos e anglo-saxónicos», afirma a coordenadora executiva.

A Alemanha, com 7410 entradas, é a mais forte candidata a disputar o terceiro lugar à França. Entre os restantes destinos, sobressai a emigração para o Benelux: a Bélgica registou 5471 entradas, os Países Baixos 4795 e o Luxemburgo 3469.

«Enquanto em Portugal se colocam cada vez mais obstáculos à entrada de imigrantes, os portugueses continuam a sair em números significativos para outros países, nomeadamente os da União Europeia», afirma Rui Pena Pires, sociólogo das migrações a anterior coordenador do Observatório da Emigração. «Uma parte do vazio deixado por esta emigração, sobretudo quando é pouco qualificada, abre a porta à entrada de imigrantes que colmatam as necessidades do mercado de trabalho nacional».

Rui Pena Pires chama a atenção para que, «ao contrário do que se pensa, a maioria de emigração portuguesa, sendo mais qualificada do que no passado, não é maioritariamente qualificada». E sublinha que as migrações para Portugal também não são compostas apenas por trabalhadores pouco qualificados: «Há muitos imigrantes qualificados que, por não conseguirem o reconhecimento das suas habilitações, desempenham trabalhos pouco qualificados, o que se traduz num enorme desperdício de competências necessárias ao desenvolvimento do país», afirma Rui Pena Pires.

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