
A ciência do sistema nervoso e o futuro do trabalho
O cérebro, o corpo e o trabalho: uma orquestra por afinar.
Por Beatriz Subtil, comunicadora de Ciência, doutorada em Ciências Biomédicas
Muitos de nós trabalhamos em ambientes acelerados, hipercompetitivos e de alta pressão. A vida transforma-se facilmente numa lista interminável de tarefas e responsabilidades. O mundo corporativo orgulha-se de ser dinâmico e intenso – fast-paced – mas, na prática, isso traduz-se em metas apertadas, prazos curtos, reuniões sucessivas e notificações constantes, que ditam um ritmo em que trabalhar parece sempre mais importante, e urgente, do que parar.
O resultado está à vista: uma epidemia de problemas de saúde física e mental, como o burnout, que comprometem o desempenho individual e têm repercussões pessoais, familiares e organizacionais, com custos emocionais e financeiros elevados. É uma realidade que, acredito, todos gostaríamos de mudar.
Vivemos grande parte dos dias dentro da cabeça, como se o corpo fosse apenas o veículo, e por vezes até o empecilho, que nos leva ao escritório. Trabalhamos como se fôssemos apenas mente, desligada de um corpo com necessidades biológicas e fisiológicas. Mas somos, antes de tudo, um corpo físico, resultado de milhões de anos de evolução, perfeitamente adaptado a condições muito diferentes daquelas em que vivemos e trabalhamos hoje.
A ponte entre a mente que pensa e o corpo que a transporta é o nosso sistema nervoso, a interface entre o físico, o mental, o social e o ambiente que nos rodeia. Este sistema é o nosso maestro interno, um sistema ancestral, sempre a perscrutar e adaptar-se às exigências do ambiente, com um único objectivo: garantir a nossa sobrevivência. É importante relembrar que o sistema nervoso não tem como propósito que sejamos felizes ou produtivos no trabalho; a sua prioridade é manter-nos vivos e assegurar o bom funcionamento de todos os sistemas.
O nosso sistema nervoso foi calibrado para sobreviver na savana africana, preparado para lidar com perigos e exigências muito diferentes das de hoje. Dificilmente está preparado para o ritmo e as condições do trabalho moderno. Reconhecer isto é aceitar que possuímos um sistema nervoso ancestral, muitas vezes perdido num mundo moderno hiper-estimulante.
Quando este maestro perde o ritmo, assolado pelas exigências do quotidiano, não é apenas a atenção e a performance no trabalho que diminuem, é o próprio funcionamento fisiológico do nosso organismo que se desregula. É aqui que surgem múltiplos problemas físicos e mentais.
O corpo humano não foi feito para permanecer horas a fio sentado, imóvel diante de um ecrã, enquanto as notificações, os e-mails e as tarefas se acumulam. Biologicamente, somos seres de movimento e de ciclos de actividade e descanso. A inactividade física prolongada gera tensão e coloca o sistema nervoso em estado de alerta contínuo, o nosso bem conhecido stress, dificultando a nossa capacidade de desligar ao fim do dia. É por isso que nos sentimos exaustos, ainda que praticamente não nos tenhamos mexido. Daí a importância de integrar movimento ao longo do dia de trabalho, seja a caminhar, correr, subir e descer escadas, mudar de postura ou alongar ainda que por breves períodos.
No plano mental, é igualmente essencial reconhecermos que a atenção é um recurso finito do nosso sistema nervoso. Por exemplo, o multitasking, muitas vezes apresentado como uma competência e pré-requisito essencial para acompanhar o passo do mundo corporativo, não é mais do que uma ilusão cognitiva. Cada vez que mudamos de tarefa, o cérebro paga um custo energético e o sistema nervoso entra em microestados de stress. Ao somarmos a isto as interrupções de colegas e as chamadas de atenção dos nossos dispositivos electrónicos, não é de admirar que tenhamos tanta dificuldade em manter o foco e a concentração.
A produtividade e a eficiência sustentáveis não vêm de trabalhar mais horas nem de beber mais café, mas de ritmos de trabalho que respeitam os nossos ciclos de atenção e recuperação. Passa por integrar períodos de foco seguidos de pausas reais; que não incluem scroll nas redes sociais, mas sim, olhar pela janela, fechar os olhos durante umas respirações, meditar ou conversar descontraidamente com um colega.
A dimensão emocional é também incontornável. Como nos relembra António Damásio, “não somos seres racionais que sentem, somos seres emocionais que pensam”. O excesso de responsabilidades, a pressão constante e a sobrecarga activam o sistema límbico, uma parte primitiva do nosso cérebro ligada às emoções, dificultando a regulação emocional, a gestão de stress e a tomada de decisões. As emoções não são obstáculos no caminho da produtividade, são parte da nossa biologia. Por isso, precisamos de momentos para as processar e escoar, seja pela introspecção, pela escrita, pela partilha com colegas, chefes, amigos, família ou profissionais de saúde.
E, falando noutras pessoas, é importante reafirmar que não somos apenas um corpo e uma mente com pensamentos e emoções num vácuo. O nosso sistema nervoso é um sistema social, esculpido por milhões de anos de evolução para interagir e cooperar com os outros. Durante grande parte da nossa história evolutiva, estar fora do grupo significava risco de vida.
É dessa herança que nasce a nossa necessidade de agradar, o medo de desiludir e a dificuldade em dizer “não” e impor limites no trabalho. É também por isso que um e-mail agressivo, uma reunião tensa ou a falta de empatia dentro de uma equipa activam as nossas respostas de sobrevivência, resultando em bloqueio criativo, irritabilidade, falta de paciência e reactividade. O sistema nervoso precisa de sinais de segurança e de pertença e, por isso, ambientes de trabalho empáticos, com comunicação clara e confiança, ajudam o sistema a relaxar e libertar os recursos cognitivos e criativos.
Sem um sistema nervoso regulado e seguro, a energia é canalizada para a hipervigilância, não para o foco, colaboração, criatividade, empatia ou inovação. Trabalhar em sintonia com o sistema nervoso é reconhecer e respeitar a nossa biologia. É devolver humanidade ao trabalho e, paradoxalmente, é isso que o torna mais eficaz. As empresas que compreendem isto começam a redesenhar os seus dias e a sua cultura organizacional: espaços que promovem movimento, reuniões mais curtas, cultura de pausa, ritmos que respeitam a biologia, e liderança e gestão de pessoas baseada na empatia e numa comunicação mais consciente.
A ciência do sistema nervoso não é uma curiosidade académica, é um mapa para o futuro do trabalho. Porque, antes de sermos profissionais, somos sistemas vivos. E se o maestro que nos habita não consegue acompanhar o ritmo do mundo corporativo, os instrumentos desafinam, desgastam-se e a música deixa de soar.
A questão é esta: continuamos a insistir num ritmo impossível de acompanhar até o maestro colapsar ou criamos condições para que a orquestra possa, finalmente, tocar em harmonia?
Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº.180) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.