
Candidatos a emprego descobrem nova fonte de rendimento (com muita procura e com vista a serem substituídos)
A Mercor, startup de IA avaliada em 10 mil milhões de dólares, está a contratar desde astrónomos a psicólogos, passando por engenheiros e especialistas jurídicos. A função? Treinar a inteligência artificial para que um dia ela faça esses trabalhos, reporta o The Wall Street Journal.
Em vez de escolherem a Uber ou a Glovo, uma nova onda de trabalhadores está a candidatar-se para treinar IA, ou seja analisar e opinar sobre os resultados dos grandes modelos de linguagem que alimentam os chatbots e outras ferramentas de IA.
Não é qualquer pessoa que pode trabalhar na startup. Os candidatos têm de demonstrar as suas competências no processo de entrevista. E podem trabalhar no mesmo projecto durante semanas ou meses.
A vasta lista de especialistas em diversas áreas que a Mercor procura inclui astrónomos, psicólogos, engenheiros industriais, cineastas, escritores criativos, comediantes, especialistas jurídicos, banqueiros de investimento e capitalistas de risco.
Um dermatologista pode ganhar até 250 dólares por hora, ajudando um parceiro da área da saúde a desenvolver as suas “ferramentas de apoio à decisão”. Os poetas que “melhorarem a compreensão da IA sobre a estrutura poética, as nuances literárias e a expressão emocional” podem ganhar até 150 dólares por hora.
Em 2025, a Mercor contratou mais de 30.000 colaboradores para trabalhar em projectos para algumas das maiores empresas de IA. Entre os clientes estão a OpenAI e a Anthropic.
A incerteza económica, as tarifas e uma postura cautelosa em relação à capacidade da IA para lidar com tarefas contribuíram para o aumento da taxa de desemprego nos EUA, que em Novembro atingiu o seu nível mais elevado em quatro anos. Os trabalhadores de escritório estão a candidatar-se a centenas de vagas. Para muitos, isso inclui agora trabalhos na Mercor.
É possível ganhar um bónus de referência de 250 dólares ao recomendar outras pessoas para se registarem na Mercor, o que contribui para uma enxurrada de anúncios de emprego no LinkedIn e para especulações de que tudo isto não passa de uma fraude. Mas treinar a IA para assumir tarefas humanas pode ser considerado uma ironia cruel no actual mercado de trabalho.
Quando Katie Williams, de 30 anos, viu pela primeira vez uma vaga de emprego na Mercor, o anúncio dizia que a empresa estava à procura de um editor de vídeo. Williams, que vive em Houston, estudou edição de vídeo e trabalhou com notícias e marketing de redes sociais. Candidatou-se e logo conseguiu uma entrevista, conduzida por um examinador de IA invisível com voz masculina.
Não tinha muita certeza do que o trabalho envolveria, mas o salário era de 45 dólares por hora, por isso seguiu em frente. Está há cerca de seis meses envolvida em vários projectos que incluem ver videoclipes e escrever legendas de tudo o que acontece neles, bem como avaliar a qualidade dos vídeos gerados por instruções. E tem sentimentos contraditórios em relação a isso. «Disse aos meus amigos em tom de piada que estou a treinar IA para ocupar o meu lugar um dia.»
Os colegas de trabalho no seu canal Slack expressam sentimentos semelhantes, acrescenta. Não se sentem bem a treinar IA, mas sentem que as suas perspectivas de emprego são limitadas.
«Muitas das pessoas com quem trabalhamos já vêem a IA como inevitável nas suas áreas, mas isso não significa que os humanos ficarão sem trabalho significativo», disse uma porta-voz da Mercor em comunicado. «Muitos dos nossos especialistas consideram que é sua responsabilidade incorporar o seu conhecimento e experiência nos modelos para garantir resultados precisos e ponderados.»
Os candidatos passam por uma entrevista inicial em vídeo conduzida por IA, e a empresa afirma que uma pequena percentagem precisa de partilhar o ecrã para mostrar o seu trabalho.
Uma vez contratados, os trabalhadores devem instalar um software de controlo de tempo. Este software garante que os contratados estão a trabalhar durante as horas pagas e não a contornar as regras usando IA para criticar a própria IA — como alguns já foram apanhados a fazer, revela a porta-voz da Mercor.
Após mais de 20 anos no mesmo emprego como jornalista do ramo automóvel, Peter Valdes-Dapena foi despedido em 2024. Passou meses a enviar currículos para vagas a tempo inteiro, sem sucesso. Considera o trabalho freelancer inconsistente e não compensa o salário que recebia anteriormente. Embora tenha poupado para a reforma, prefere não começar já a mexer nesse dinheiro.
Um dia, a Mercor apareceu no seu feed do LinkedIn. O homem de 61 anos passa agora 20 a 30 horas por semana a analisar criticamente as tentativas da IA de escrever artigos jornalísticos. Considera o trabalho desafiante e diz que teve o efeito colateral positivo de melhorar a sua própria escrita.
A natureza do trabalho gera alguns conflitos internos. Valdes-Dapena diz que os jornalistas sempre existirão — acredita que as pessoas apreciam as ideias e a escrita humana — mas preocupa-se que a IA possa levar a mais perdas de emprego.
«Não inventei a IA e não vou “desinventá-la”. Se parasse de fazer este trabalho, isso impedi-la-ia? A resposta é não.»
Sara Kubik, advogada com escritório próprio, gera rendimentos extra durante os meses de menor movimento ao realizar trabalho de formação de IA por contrato para a Mercor. Também já trabalhou para outras duas empresas de formação em IA e diz que um dos projectos em que trabalhou para a Mercor foi em nome da OpenAI.
Kubik afirma que a maioria das pessoas que a procuram a propósito da Mercor está à procura de trabalho, mas algumas fazem comentários negativos, alegando que a empresa está a treinar IA para roubar empregos. Kuubik rejeita a ideia de que a IA vá substituir os advogados (embora diga que alguns assistentes jurídicos podem não ter tanta sorte). Considera a formação em IA gratificante e espera que um dia a IA assuma algumas partes do trabalho, como a triagem de novos clientes.