O título original deste filme, “The penguin lessons”, é estranho, mas a surpresa não se fica por aqui: é uma história baseada em factos reais, mas que parece impossível de ter acontecido. É um filme de 2024, do realizador Peter Cattaneo, que conta com Steve Coogan e Jonathan Pryce nos principais papéis.
Por Paulo Miguel Martins, professor da AESE Business School e investigador nas áreas de Cinema, História, Comunicação e Mass Media
Um professor britânico aceita dar aulas de inglês em Buenos Aires, num colégio privado só para rapazes, que é das escolas mais elitistas do país. A situação na Argentina nesses anos de 1975 e 1976 é explosiva, com atentados e tentativas militares de golpes de estado, mas o professor mantém-se afastado de tudo isso. Escolhe ir para lá pois procura um trabalho que “não puxe” por ele. Está desiludido com a vida. A filha morrera atropelada. Perdera o sentido da vida. Quer apenas ganhar dinheiro com um trabalho simples e honesto. É apreciador de literatura e satisfaz-se despejando essa matéria nas aulas. Pensa que afastar-se do local onde vivera tantas tristezas lhe fará bem. Olha para a vida sem interesse, já não dá valor a nada, nada lhe merece importância.
Um dia, encontra um pinguim encharcado em petróleo numa praia. Recolhe-o e salva-o. Tenta ir entregá-lo a um zoo, mas não o aceitam. Acaba por decidir ficar com ele, adoptando-o. Leva-o para o colégio, apesar de saber que o director – rígido e disciplinador, que não tolera alterações nem quebra de regras – vai ser contra a sua decisão.
A presença do animal no seu quarto vai provocar uma série de mudanças, que são lições para todos. Para começar, o professor quer adaptar-se à nova realidade. Decide enfrentar o desafio. Isso faz com que tenha algo com que se preocupar e a que prestar atenção. Dá- -lhe uma motivação, um propósito para viver. Vai também constatar que ter de cuidar do pinguim faz com que tenha de se relacionar melhor com as pessoas e contar com o apoio dos outros. Desenvolve o trabalho de equipa. Fala com a empregada da limpeza dos quartos e a sua jovem neta, que também ali trabalha. Vai conhecendo-as. Crescem na confiança e estima mútua.
A relação com os alunos também melhora, pois decide puxar por eles, envolvendo o animal e tirando assim partido das novas circunstâncias. Quer o bem dos rapazes, tal como quer o bem do pinguim. Resolve, então, contar com eles e confiar neles, aprendendo que sozinho não se consegue alcançar os objectivos.
A lição essencial que acaba por nos ensinar é que vale a pena lutar por uma causa, por algo em que se acredita, estabelecendo um propósito. Tudo acontece quando se dá mais um golpe de estado e a neta da empregada é raptada. De início, ele nada faz para a defender, mas dá- -se conta de que está a agir mal. A consciência pesa-lhe. Fala com a avó. Assume o erro e compromete-se a tentar ajudar. Não quer mudar o mundo, nem fazer nenhuma revolução. Só pretende melhorar o que está ao seu alcance. Decide confrontar o director da escola. Arrisca e explica a sua posição. Perde o confronto inicial, pelo choque da novidade, mas ganha pela sua consistência. Envolve-se com os alunos, traça-lhes metas, esclarece as situações.
O pinguim dá-lhe asas à criatividade e inspira-o a continuar. Há avanços e recuos na trama, mas, no final, consegue- se a libertação da neta. O factor decisivo é que todos – e cada um à sua maneira – se realizam como pessoas, dando o melhor que sabem e podem, em cada circunstância.
Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº. 181) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














