Enquanto muitos trabalhadores temem que, um dia, a IA lhes roube os empregos, segundo o The New York Times, outra utilização da IA e da tecnologia pode já estar a remodelar e a degradar silenciosamente as condições de trabalho.
Nos últimos anos, as tecnologias utilizadas para vigiar os trabalhadores tornaram-se mais sofisticadas e disseminadas. “Bossware” refere-se à tecnologia que alguns gestores utilizam para supervisionar e vigiar os colaboradores no local de trabalho. O termo foi popularizado por um relatório de 2020 da Electronic Frontier Foundation, uma organização sem fins lucrativos de privacidade digital, e desde então tem aparecido em relatórios de outras organizações e nos media.
«A vigilância no local de trabalho sempre existiu», afirma Karen Levy, professora da Universidade de Cornell. Os gestores sempre tentaram controlar os colaboradores para tornar as operações mais eficientes, mas a ascensão da IA permitiu monitorizá-los de “formas mais preditivas e detalhadas”.
No mundo do transporte rodoviário, por exemplo, as ferramentas de vídeo com IA podem disparar alertas em tempo real se um condutor parecer cansado. Noutros sectores — incluindo alguns trabalhos de escritório — os empregadores estão a utilizar ferramentas algorítmicas e biométricas para monitorizar hábitos e produtividade. Algumas destas ferramentas, incluindo as baseadas em IA, estão integradas em pacotes de software empresariais.
O uso da tecnologia de vigilância no trabalho avançou durante a pandemia. Com muitas pessoas a trabalhar remotamente, os empregadores começaram a monitorizar as suas equipas de novas formas: rastreando as teclas digitadas, tirando capturas de ecrã e monitorizando as pausas. Em 2022, oito dos 10 maiores empregadores privados dos Estados Unidos estavam a acompanhar as métricas de produtividade de cada colaborador, noticiou o The New York Times.
Nos últimos anos, «a IA ajudou a criar uma maior oportunidade para a vigilância ubíqua dos trabalhadores», disse Rob Reich, professor de Ciência Política em Stanford. Estão agora disponíveis ferramentas sofisticadas de IA a preços mais acessíveis, o que significa que podem ser aplicadas de forma mais ampla. Agora são utilizadas em fábricas e escritórios; monitorizam agentes de atendimento ao cliente, terapeutas e até padres.
O objectivo é extrair mais dos trabalhadores. Mas algumas métricas — como a quantidade de texto digitado por um colaborador — podem não se traduzir directamente na quantidade de trabalho que alguém realmente realiza. E os trabalhadores, defende Rob Reich, merecem períodos de paragem e «momentos de inactividade fora do alcance dessas ferramentas de vigilância». Estes intervalos são bons para a cultura e possibilitam melhores relações no local de trabalho.
Além do impacto psicológico, as ferramentas de “Bossware” que pressionam as pessoas a trabalhar mais e mais depressa apresentam «sérios riscos para a saúde e segurança dos trabalhadores», incluindo possíveis lesões físicas, disse Laura Padin, advogada e directora do National Employment Law Project, uma organização sem fins lucrativos de defesa dos direitos dos trabalhadores.
Na sua opinião, as ferramentas são impopulares porque afectam o bem-estar dos trabalhadores e, no caso dos camionistas, a sua investigação constatou que não melhoram necessariamente a segurança.
«Dar mais autonomia aos trabalhadores pode ajudar na retenção e na capacidade de realizar trabalhos mais criativos», defende, acrescentando que obter a aprovação dos trabalhadores em relação a quais as tecnologias que lhes seriam realmente úteis poderia ajudar a alcançar um melhor equilíbrio.
Ainda assim, Rob Reich acredita que mesmo as ferramentas de monitorização bem-intencionadas devem ser vistas com cautela, pois podem contribuir para o avanço de uma cultura de vigilância. «É óbvio que a introdução de “Bossware” acentua ainda mais o desequilíbrio de poder entre chefias e trabalhadores, favorecendo aqueles que já detêm consideravelmente mais poder.»














