Tenham paciência

Por Rui Coutinho, Professor Adjunto Convidado de Inovação da Nova SBE

Human Resources
21 de Abril 2026 | 10:30

Por Rui Coutinho, Professor Adjunto Convidado de Inovação da Nova SBE

Este mundo anda estranho. Deixou de existir qualquer intervalo entre o desejo e a sua satisfação. Cada gesto encontra uma resposta quase imediata. A experiência quotidiana foi progressivamente desenhada para reduzir a fricção a um mínimo imperceptível. Esta é uma alteração silenciosa da relação com o tempo.

Durante a maior parte da história da espécie humana, a realidade impôs-se sob a forma de processos longos, incertos e muitas vezes opacos, nos quais a sobrevivência, a aprendizagem e a criação de valor dependiam de uma capacidade contínua de esperar, persistir e investir energia sem garantia de retorno imediato, fazendo da paciência não uma virtude opcional, mas uma competência adaptativa essencial, inscrita na própria forma como interagíamos com o mundo e com os outros.

A evolução, na sua lógica implacável, nunca selecionou qualidades abstratas, mas sim aquelas que permitiam navegar os constrangimentos concretos de cada ambiente. Durante milénios, esse ambiente exigiu a capacidade de sustentar esforço ao longo do tempo, de tolerar a ausência de resultados visíveis, de confiar em processos cujo desfecho não era imediato, tornando a paciência um activo invisível mas estrutural.

O que hoje observamos corresponde a uma alteração radical dessas condições, na medida em que as últimas décadas foram progressivamente eliminando a latência que antes estruturava a experiência humana, comprimindo o tempo entre intenção e resposta, entre acção e validação, entre expectativa e resultado, e criando um ecossistema onde a espera deixa de ser uma necessidade funcional para se tornar uma anomalia a corrigir.

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Temos hoje uma geração inteira que cresceu imersa neste ambiente e, como qualquer sistema adaptativo, ajustou-se com precisão. Não desenvolveu paciência porque o contexto deixou de a exigir, não treinou a capacidade de esperar porque a espera deixou de fazer parte da experiência, não construiu relação com processos longos porque a realidade passou a apresentar-se em ciclos curtos de feedback e validação.

No entanto, esta reorganização da superfície do mundo não eliminou a natureza dos fenómenos que determinam a criação de valor nas organizações, que continuam a operar em temporalidades próprias, mais longas, ambíguas e densas, onde a inovação exige iteração e maturação, onde a transformação implica reconfiguração lenta de rotinas e significados, onde o desenvolvimento de talento se constrói ao longo de trajectórias extensas e onde os modelos de negócio se afirmam através de coerência sustentada no tempo.

Entre a instantaneidade da experiência e a duração dos processos instala-se, assim, uma tensão estrutural que não se resolve de forma espontânea, manifestando-se na dificuldade em sustentar projectos cujo valor ainda não é visível, com tendência para privilegiar decisões que produzam resultados rápidos em detrimento de apostas que exijam tempo, na erosão do compromisso perante trajectórias que não devolvem validação imediata e na substituição progressiva de critérios de profundidade por sinais de velocidade.

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Neste contexto, a paciência deixa de poder ser entendida como traço individual ou recomendação comportamental, assumindo-se antes como uma forma de inteligência temporal, uma capacidade sofisticada de operar simultaneamente em diferentes horizontes, de sustentar direção na ausência de evidência imediata, de reconhecer que determinados processos só revelam o seu verdadeiro valor quando atravessados pelo tempo, e de resistir à tentação de avaliar o que importa com base na rapidez com que responde.

A sua ausência tende a encurtar horizontes, a fragilizar apostas, a reduzir a qualidade das decisões, enquanto a sua presença permite transformar o tempo num recurso activo de construção, criando condições para que a aprendizagem se acumule, para que a confiança se desenvolva e para que a inovação adquira profundidade.

Por essa razão, a paciência não pode ser tratada apenas como atributo desejável dos indivíduos, devendo antes ser incorporada no desenho das próprias organizações, através de mecanismos de governância capazes de proteger os respectivos processos de maturação, de métricas que reconheçam valor para além do curto prazo, de portefólios que equilibrem diferentes ritmos de criação de valor e de lideranças capazes de sustentar coerência num ambiente que privilegia a resposta imediata.

Num sistema que se reorganizou em torno da aceleração, a paciência torna-se simultaneamente escassa e estratégica – uma capacidade exigente que se afirma pela profundidade com que constrói, distinguindo aqueles que apenas acompanham o fluxo do presente daqueles que conseguem, com intenção, desenhar trajetórias de longo prazo. E talvez seja precisamente nessa capacidade (silenciosa, contraintuitiva e cada vez mais rara) que reside uma das formas mais sofisticadas de vantagem competitiva.

Por isso, tenham paciência!

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