Por Diogo Bernardo, Formado em Gestão de Recursos Humanos
Há datas que não pertencem ao passado e o 25 de Abril é uma delas. A Revolução dos Cravos não é apenas uma memória, é uma tarefa que não deve apenas ser celebrada, mas deve ser encarada como um compromisso, considerando que a democracia não se esgota no dia em que nasce. Pelo contrário, é nesse dia que começa a sua exigência mais profunda.
Ao longo de décadas, habituámo-nos a evocar a Revolução dos Cravos como um momento fundador, quase intocável, onde a coragem de alguns abriu caminho à liberdade de todos. E é justo que assim seja. Mas há um risco silencioso nesta evocação, que é o de transformar Abril numa peça de museu, admirada à distância, mas desligada da vida concreta de hoje.
Portugal mudou muito desde 1974. Mudaram as instituições, mudou a economia, mudou a sociedade, ganhámos direitos, consolidámos liberdades, construímos um Estado de Direito que, com todas as suas imperfeições, é hoje um património colectivo inegável. Mas a pergunta que hoje importa não é apenas o que conquistámos. É o que estamos a fazer com essa conquista, pois é tentador olhar para essa trajectória como uma história consolidada e reflectir se estamos à altura do que Abril prometeu?
Diria que há democracias que caem de forma abrupta e há outras que se vão desgastando lentamente, enquanto continuam formalmente intactas, pois existem sinais de desgaste que não devem ser ignorados. A desconfiança nas instituições, o afastamento de muitos cidadãos da participação cívica, a tentação de respostas simples para problemas complexos. Tudo isto não é exclusivo de Portugal, mas isso não nos desobriga de agir. Pelo contrário, exige-nos mais lucidez e mais responsabilidade.
A democracia vive de equilíbrio entre liberdade e responsabilidade, entre diversidade e coesão, entre conflito legítimo e respeito mútuo, e quando esse equilíbrio se fragiliza, abre-se espaço para a polarização estéril e para discursos que exploram o descontentamento sem oferecer soluções duradouras. Portugal transformou-se profundamente desde 1974, tendo mais educação, melhor saúde, mais direitos, mais abertura ao mundo, em que a Constituição de 1976 consolidou um regime democrático que aboliu a censura, libertou presos políticos e instituiu direitos fundamentais. E, apesar de imperfeições, o país tornou-se uma democracia estável, integrada na Europa e com níveis de desenvolvimento incomparáveis ao período da ditadura.
Mas estabilidade não é imunidade. É por isso que o 25 de Abril continua a ser actual, porque recordar Abril é reconhecer que a liberdade nunca é garantida de forma definitiva, que dependerá sempre de instituições sólidas, mas também de cidadãos exigentes, que depende de regras, mas também de cultura democrática, e sobretudo, depende de escolhas quotidianas que muitas vezes discretas, mas decisivas.
Neste contexto, o papel das lideranças é particularmente relevante. Não se espera delas unanimidade, mas sim sentido de responsabilidade, não se exige ausência de conflito, mas sim capacidade de diálogo, pois a democracia não precisa de vozes que gritam mais alto, precisa sim, de vozes que constroem pontes. O mesmo se aplica à sociedade como um todo, em que o futuro não se faz apenas com reivindicação, faz-se também com participação.
A liberdade que Abril nos deu implica deveres: o dever de informar, o dever de participar, o dever de respeitar o outro, mesmo quando discordamos profundamente.
Hoje, o sistema político português mostra sinais de fragmentação e tensão, em que o tradicional equilíbrio entre os grandes partidos deu lugar a uma nova realidade, com forças emergentes a capitalizar o descontentamento e a desconfiança, temos observado também que forças políticas mais radicais têm ganho visibilidade desproporcional no espaço mediático europeu, influenciando a percepção pública e o debate democrático. Por isso, celebrar o 25 de Abril é, mais do que lembrar o passado, é olhar para o presente com honestidade e para o futuro com responsabilidade.
Talvez o maior tributo que podemos prestar àqueles que fizeram a revolução não seja repetir as suas palavras, mas honrar o seu exemplo. Provavelmente, não sabiam exatamente o país que estavam a construir, mas sabiam, com clareza, o país que queriam deixar para trás. Essa clareza continua a fazer falta. Porque estamos perante um paradoxo inquietante: nunca tivemos tanta liberdade e, ainda assim, cresce a sensação de que a democracia “não funciona”. Essa percepção não nasce no vazio. Alimenta-se de desigualdades persistentes, de dificuldades económicas e Portugal continua abaixo da média europeia em riqueza e de uma distância crescente entre cidadãos e instituições.
A história ensina-nos algo essencial, a democracia portuguesa não foi um presente. Foi uma conquista e, nos seus primeiros anos, uma conquista instável, atravessada por conflitos, incerteza e até violência política. Nada garantia que sobrevivesse. E talvez seja esse o ponto que hoje esquecemos. Essa clareza continua a fazer falta, porque quando banalizamos o discurso antidemocrático, quando relativizamos a importância das instituições, quando aceitamos a erosão da confiança pública como inevitável, estamos, lentamente, a abdicar daquilo que outros conquistaram com risco pessoal e colectivo, porque a democracia não morre apenas com golpes de Estado. Morre também com indiferença.
Entre a indiferença e o alarmismo, há um caminho mais exigente: o da lucidez. Entre a divisão e a uniformidade, há um espaço mais fértil: o do diálogo. Entre o passado e o futuro, há uma ponte que só pode ser construída no presente. É aí que Abril continua a acontecer.
Por isso, a verdadeira homenagem ao 25 de Abril não está apenas nas cerimónias, nos cravos ou nos discursos. Está na exigência. Exigência sobre quem governa, mas também sobre quem se envolve e participa, vota e mobiliza o voto, debate de forma consciente e discorda de forma informada e fundamentada.
A pergunta que este dia nos deve deixar não é confortável: O que estamos nós a fazer, hoje, com a liberdade que outros conquistaram, muitos deles com medo, alguns com a própria vida para que pudéssemos escolher sem medo? E, no silêncio dessa pergunta, talvez surja outra ainda mais difícil: Estamos a honrar esse legado ou a deixá-lo diluir-se na indiferença, na facilidade, na cedência a quem simplifica o que é complexo?
Lembro que a liberdade não é um legado garantido, é um compromisso que se renova, ou se perde, todos os dias. Mas é também uma possibilidade sempre aberta de escolher melhor, participar mais, cuidar do que é comum e, assim, dar continuidade ao que Abril começou.














