
A Grande Redistribuição – preparar os profissionais para a era dos agentes
Por Tiago Machado, Sales senior manager da Salesforce
A conversa sobre Inteligência Artificial (IA) e o futuro do trabalho tem sido dominada por uma palavra: substituição. No entanto, a verdadeira história desta revolução tecnológica não é sobre substituição, mas sim sobre redistribuição, ou seja, uma mudança fundamental na forma como organizamos o talento humano e a tecnologia inteligente.
Num momento em que as organizações enfrentam expectativas crescentes e uma maior complexidade, estamos a entrar na era da empresa agente: onde humanos e agentes de IA colaboram de forma fluida como uma única força de trabalho inteligente.
Estes agentes de IA não são meros assistentes; são parceiros autónomos, capazes de raciocinar, decidir e agir, proporcionando que as equipas humanas deixem de estar alocadas a tarefas rotineiras para se concentrarem no que fazem melhor: estratégia, inovação e construção de relações sólidas com os clientes.
Esta colaboração marca o início da grande redistribuição: uma oportunidade única para elevar a própria natureza do trabalho.
O sucesso, contudo, não está garantido. Exige uma abordagem clara em duas frentes: transformar as competências das equipas e cultivar uma mentalidade “agente” em toda a organização.
Do trabalho baseado em tarefas ao trabalho orientado para resultados
Durante décadas, definimos funções pelo conjunto de tarefas que lhes estavam associadas. A grande redistribuição exige que mudemos o foco para os resultados.
À medida que os agentes de IA assumem tarefas automatizáveis, que vão da análise de dados à geração de código, as competências humanas mais valiosas serão precisamente aquelas que a IA não consegue replicar.
É por isso que reskilling, upskilling e cross-skilling (requalificação, aperfeiçoamento e diversificação de competências) são hoje os pilares fundamentais para preparar uma força de trabalho à prova de futuro.
Devemos equipar os colaboradores em funções susceptíveis de automação com novas capacidades. Mas, mais importante ainda, precisamos de reforçar as competências humanas em toda a organização. Pensamento crítico, visão estratégica e liderança empática já não são “soft skills”: são os motores centrais de criação de valor numa empresa agente.
O grande elemento diferenciador do talento será a capacidade de distinguir entre um cargo (o “porquê” estratégico) e as tarefas que lhe estão associadas (o “como” táctico). Os profissionais mais bem-sucedidos serão aqueles que assumem plena responsabilidade pelos resultados do seu trabalho, enquanto usam com mestria os agentes de IA para executar as tarefas necessárias com rapidez e precisão. Este é o novo padrão de desempenho.
Cultivar a mentalidade agente
As competências são apenas metade da equação. Sem uma cultura que abrace a mudança, mesmo a força de trabalho mais qualificada corre o risco de falhar.
Estudos recentes mostram que os colaboradores que utilizam IA de forma activa não só são significativamente mais produtivos, como também estão mais satisfeitos com o seu trabalho. Isto não é apenas um truque de produtividade: é o sinal de uma mudança cultural profunda.
Cultivar esta mentalidade começa pela liderança. Os líderes devem promover uma cultura de aprendizagem contínua e de segurança psicológica, onde a curiosidade é incentivada e a experimentação é recompensada.
Na prática, isto significa começar com pequenas integrações de IA que reforcem a confiança, comunicar de forma clara o valor da colaboração humano-agente e envolver as equipas de forma inclusiva. Quando as pessoas se sentem suportadas e percebem o propósito da tecnologia, ficam mais motivadas para inovar.
O objectivo da grande redistribuição não é criar uma força de trabalho de operadores de IA, mas sim de inovadores, estrategas e construtores de relações, amplificados pela IA.
Se unirmos competências e mentalidade, conseguiremos desbloquear o potencial ilimitado desta nova era e construir organizações que não são apenas mais eficientes, mas também mais humanas.