Ana Rita Lopes, Grupo Nabeiro: O valor do propósito no regresso à normalidade

O que os colaboradores podem esperar das empresas no pós-pandemia?

 

Por Ana Rita Lopes, directora de Recursos Humanos do Grupo Nabeiro – Delta Cafés

 

Há 20 meses, todos fomos obrigados, de um dia para o outro, a pegar nos nossos instrumentos de trabalho mais elementares e ir para casa trabalhar. Colocámos em prática um termo tão português como o “desenrascar” e, de uma maneira ou de outra, fizemos acontecer tudo e, se possível, dentro do normal, enquanto tentávamos perceber a dimensão do que estava a acontecer.

Não houve tempo para preparar a mudança de uma realidade presencial para uma realidade à distância, não houve tempo para preparar o espaço das nossas casas para uma realidade de teletrabalho, não houve tempo para preparar a nossa família para alterar rotinas. Durante muitos meses, as nossas principais prioridades alteraram-se. Passaram a estar centradas na saúde, em manter a fonte de sustento e em suportar a família em tarefas até então asseguradas por terceiros.

Fizemos da nossa fraqueza a nossa força, percebemos que éramos tão fortes quanto o nosso elemento mais fraco, e tomámos mais consciência de que as organizações são como um corpo vivo que precisa de todas as partes para sobreviver de forma saudável.

Quase dois anos depois, muitos momentos foram vividos e sentimentos diferentes foram experimentados. A intensidade e imprevisibilidade da experiência destes 20 meses não deixou ninguém indiferente, apesar da capacidade que o ser humano tem de se adaptar.

Muitos preferem hoje esta nova forma de trabalhar 100% remota, outros nunca se adaptaram, outros houve que mudaram de opinião ao longo desta longa jornada. Seguramente, todos nós identificámos nas nossas equipas colaboradores que não tinham condições socioeconómicas de contexto para o desempenho de funções em regime remoto.

Mas uma certeza temos: todos nós ficámos diferentes, passámos a ver as relações com o outro de forma diferente, passámos a ter preocupações e prioridades diferentes na nossa vida. Somos os mesmos, mas já não somos iguais ao que éramos.

E a grande preocupação das organizações passa hoje, certamente, por perceber em que medida isso afecta o regresso a este novo normal. O que valorizam hoje, verdadeiramente, os nossos colaboradores? O que estão os colaboradores dispostos a dar à organização? Onde colocam os colaboradores a organização no ranking das suas prioridades? Como vão privilegiar o relacionamento entre colegas e equipa de trabalho? Como vamos manter equipas coesas e dinâmicas com regimes de trabalho híbridos? E a cultura de empresa e o engagement dos colaboradores, como se mantêm vivos e nutridos? Num período em que as empresas enfrentam um impacto forte nos seus resultados, terão os seus CEO capacidade para manter estes temas nas suas agendas, à parte de temas de negócio e, muitas vezes, de sustentabilidade financeira?

Estes são os desafios das equipas de Recursos Humanos que nos próximos meses serão um elemento estratégico nas organizações para monitorizar os seus recursos e diagnosticar antecipadamente as fragilidades que possam ter impacto na saúde da empresa.

Há que ter a consciência, antecipar e actuar. Saber ouvir e construir pontes para continuar a dar significado e valor ao que fazemos e que nos define.

O tema do propósito poderá deixar de ser um chavão tantas vezes empregue em vão pelas empresas, e irá distinguir verdadeiramente as empresas que o alimentam nas acções daquelas que apenas o escrevem ou verbalizam sem concretização.

Apenas os que tiverem um propósito que se traduza numa proposta de valor percebida pelos vários stakeholders, incluindo colaboradores, que se traduza em acções sustentáveis do ponto de vista do ecossistema onde opera, seja social, económico, ambiental ou seja da comunidade, saberão manter os colaboradores comprometidos.

 

Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº.132) da Human Resources, nas bancas.

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