
As empresas que também são escola
Por: Ana Madalena Ferreira, responsável pela SAP Academy e Manager@Portugal Tech Hub da Siemens
Existe uma energia única num campus universitário. Quem passou por isso certamente não esquece o primeiro dia em que entrou na universidade onde iria passar os próximos três ou quatro anos. A curiosidade, o mix de entusiasmo e nervosismo por se estar a começar algo novo, o sentimento de que a vida começa agora e que, em teoria, tudo é possível. Irrepetível! Ou será que não?
O mercado de trabalho mudou e esta realidade não pode ser ignorada pelas empresas. Os avanços tecnológicos a um ritmo sem precedentes, as alterações demográficas, a escassez crítica de mão-de-obra qualificada em determinadas áreas, e a necessidade de tornar as economias e organizações cada vez mais sustentáveis e resilientes estão a transformar as necessidades laborais e a desafiar os modelos tradicionais de formação.
Neste contexto de rápida transformação em que tecnologias como a inteligência artificial estão a impactar a forma como vivemos, aprendemos e trabalhamos, a formação contínua é o novo motor de empregabilidade, competitividade e relevância. É crucial que a aprendizagem deixe de estar exclusivamente associada à educação tradicional e que se criem, nas empresas, condições para requalificar e motivar os colaboradores, como academias de formação ou programas específicos de estágios, que promovem o learning on the job. Estas iniciativas dotam as pessoas de novos conhecimentos e competências interdisciplinares, para que estejam aptas a integrar equipas diversas e completas. Nas iniciativas semelhantes que promovemos na área do IT, por exemplo, recebemos candidatos com formação em comunicação, arquitectura ou fisioterapia, entre muitas outras áreas, o que confere um dinamismo e mais valias únicas às equipas.
Os dados mais recentes do Fórum Económico Mundial mostram que uma transformação estrutural do mercado laboral deverá resultar em 170 milhões de novos postos de trabalho até 2030 e na extinção de 92 milhões já existentes. Embora estes sejam números impactantes, a necessidade de repensar o futuro do trabalho não deve intimidar-nos, mas sim incentivar a planear e antecipar, fomentando dentro das organizações a adopção de tecnologias como a inteligência artificial e estratégias de “reskilling” e “cross-skilling”, além do mais tradicional “upskilling”.
Parte do desafio reside em antecipar quais os postos de trabalho que surgirão e os que desaparecerão. Mas, mesmo que estas alterações não estejam 100% definidas, é certo que competências analíticas, pensamento crítico e criativo, a par da capacidade de trabalhar em diferentes áreas, serão cada vez mais essenciais. Um desafio ainda maior é mudar a cultura dentro das organizações, promovendo a tão necessária mentalidade de crescimento e melhoria contínuas, abertura à mudança, curiosidade e resiliência.
Esta capacidade de adaptação é essencial também como factor de atracção e retenção de talento, uma vez que a própria visão dos colaboradores sobre o emprego mudou. Já não é visto apenas como uma fonte de rendimento, mas também como fonte de propósito, sentido de pertença e identificação de valores com os quais querem estar alinhados.
Como empregadores, o investimento nas pessoas deve ser prioritário. Só assim é que conseguiremos potenciar a transformação que queremos ver na sociedade e nas organizações, conseguida através da inovação e da criatividade, para que estas sejam mais digitais e sustentáveis.
Esta transformação profunda e inevitável deixa evidente que o sucesso das empresas – e dos próprios países –, dependerá da sua capacidade de adaptação. Investir no desenvolvimento e bem-estar das pessoas, capacitando-as para navegar as transformações futuras, será o maior activo de qualquer organização e a garantia da sua resiliência e competitividade. Esta estratégia contribuirá ainda para que quem entra pela primeira vez numa empresa, no seu primeiro dia de trabalho, sinta a mesma energia e entusiasmo que sente um caloiro que acaba de entrar na faculdade!