
Bem-vindo, Janeiro de 2026!
Janeiro é, simbolicamente, o mês da transição. O próprio nome remete para Janus, o deus romano das portas e das passagens. Representado com duas faces, Janus olha simultaneamente para o passado e para o futuro, numa lógica de continuidade consciente. A mudança acontece porque alguém permanece suficientemente ancorado para poder avançar. É neste espaço intermédio que o intraempreendedorismo se manifesta nas organizações.
Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer da ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs
As s organizações vivem de linguagens simbólicas, e a cor é uma das mais poderosas. Fala-se de “alerta vermelho”, de “luz verde”, de “cenários negros” e de “zonas cinzentas”. E sem esquecer a “blue ocean strategy”, claro! Estas expressões não são meramente decorativas e, na verdade, acabam por funcionar como códigos implícitos que regulam, simultaneamente, emoções e decisões.
O passado organizacional tende a ser simbolizado por cores mais densas, saudosistas e contidas, como o azul-escuro, o cinzento ou o castanho. São cores associadas à estabilidade, à ordem e à memória institucional, traduzindo a necessidade de continuidade e de segurança. Já o futuro é frequentemente representado por cores mais luminosas e abertas, como o verde, o amarelo ou o branco. Estas cores remetem para a inovação, as aprendizagens e os novos começos. Não ilustram o controlo, mas antes o potencial, razão pela qual despertam o entusiasmo, mas também a incerteza. Falar do futuro é, muitas vezes, falar em tons mais claros e menos definidos. Curiosamente, a cor Pantone de 2026 foi intitulada Cloud Dancer, numa tonalidade que pretende ser a representação da calma e da paz, num mundo sobrecarregado de ruído. Mas há quem veja apenas branco.
Entre estas duas dimensões situa-se o arquétipo de Janus, que não opõe passado e futuro, mas que os mantém em coexistência. Cromaticamente, Janus habita as cores de transição: o azul que se torna verde, o cinzento que se aproxima do branco. São tonalidades intermédias que permitem à organização mudar sem negar a sua história.
É precisamente neste espaço cromático intermédio que o intraempreendedor actua. A mudança organizacional intencional raramente acontece por ruptura abrupta, acontece, sim, quando alguém consegue traduzir o novo na linguagem do antigo, escolhendo cuidadosamente a cor com que apresentará o futuro. Saber “recolorir” o passado, em vez de o apagar, é uma das competências mais subtis e mais críticas do intraempreendedor.
Neste sentido, o intraempreendedor apresenta um perfil “janusiano”. Actua dentro da organização que existe, respeitando a sua linguagem simbólica, enquanto abre portas para novas formas de pensar e agir. Sabe quando pedir luz verde, quando avançar com cautela no amarelo e quando reconhecer um vermelho institucionalizado (o que exige uma leitura política e não o confronto directo). Bem, talvez nem sempre este caminho seja tão linear, mas é preciso saber contornar obstáculos nas organizações que se estão a “desconstruir” ou a “reinventar” – e Janeiro é o mês ideal para isso. O intraempreendedor eficaz não é aquele que tem uma cor dominante, mas aquele que consegue alternar conscientemente entre cores. E que define a sua própria “paleta de cores”.
Esta leitura organizacional “mais colorida” ganha profundidade quando cruzada com os seis chapéus de Edward de Bono. Aqui, as cores deixam de representar pessoas e passam a representar formas de pensar. Pensar bem implica mudar deliberadamente de cor: legitimar emoções (vermelho), explorar possibilidades (amarelo), gerar alternativas criativas (verde) e organizar o processo (azul).
Cultivar o intraempreendedorismo não é identificar “talentos raros”, mas tornar visível o sistema de cores que governa a organização. É uma actividade policromática. Que cores dominam a linguagem da liderança e a cultura organizacional? Que formas de pensar são recompensadas? Que “chapéus” são permitidos aos colaboradores?
Em termos organizacionais, o futuro não começa quando se abandona o passado. Janeiro lembra-nos que mudar não é escolher uma nova cor e apagar as anteriores. É aprender a olhar em duas direcções, tal como Janus, e a escolher conscientemente que cor activar a cada momento. Bem-vindo, Janeiro!
Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº. 181) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.