Catarina Paiva, Turismo de Portugal. Blink: Decidir num piscar de olhos

Catarina Paiva, administradora do Turismo de Portugal, defende que «o aumento progressivo da utilização das ferramentas de IA vai fazer emergir a necessidade de as decisões serem baseadas com base em dados, mas também salvaguardando aquilo que a IA não consegue replicar: a intuição humana».

«A inteligência artificial (IA) tem vindo a transformar profundamente a forma como as organizações gerem os seus recursos humanos. A tecnologia permite automatizar tarefas, analisar grande volumes de dados e apoiar decisões baseadas em evidências, contribuindo para uma gestão mais eficiente e rigorosa.

As áreas vão desde o recrutamento e selecção, à gestão do desempenho e avaliação de competências, permitindo ainda abordagem mais proactiva à gestão do talento, antecipando riscos de rotatividade e identificando potenciais líderes. Plataformas inteligentes conseguem monitorizar indicadores-chave, detectar necessidades de formação e recomendar percursos personalizados de aprendizagem.

Neste contexto, a intuição humana emerge como um elemento essencial que complementa os modelos racionais de tomada de decisão. Na Gestão de Pessoas, muitas decisões envolvem factores subjectivos, como clima emocional, compatibilidade cultural ou potencial de desenvolvimento, que nem sempre podem ser captados por métricas objectivas. No processo de recrutamento e selecção, por exemplo, a intuição pode ajudar a identificar traços de personalidade, atitudes ou valores que não se revelam plenamente em currículos ou entrevistas estruturadas.

Malcolm Gladwell no seu livro “Blink: Decidir num Piscar de Olhos” apresenta uma perspectiva interessante sobre o poder da intuição nas decisões. Uma pessoa pode chegar intuitivamente num “piscar de olhos” a conclusões mais confiáveis do que milhares de dados e medições técnicas ou estatísticas. O autor aborda a capacidade humana de decidir e de conseguir perceber quase instantaneamente que “algo está errado” ou que um “caminho” ou uma “escolha é a certa”, mesmo que os dados demonstrem o contrário. É a chamada intuição ou “6.º sentido”.

Para explicar o conceito, o autor apresenta histórias como o caso do especialista em arte que, num único relance, descobriu que uma escultura comprada por um museu era uma falsificação, ou o produtor de cinema que percebeu todo o potencial do actor Tom Hanks, no instante em que o conheceu. Gladwell mostra ainda que o julgamento intuitivo é, na verdade, um processo em que o cérebro analisa padrões complexos, de forma ultra-rápida, com base em memórias e aprendizagens acumuladas. É o que permite a um médico experiente diagnosticar uma condição rara em segundos.

No 62.º questionário do Barómetro da Human Resources, quando questionados sobre se a utilização de inteligência artificial, nomeadamente generativa, está a aumentar, 37% dos gestores referem que sim, moderadamente, sendo que 24% indica estar a aumentar significativamente. O aumento progressivo da utilização das ferramentas de IA vai fazer emergir a necessidade de as decisões serem baseadas com base em dados, mas também salvaguardando aquilo que a IA não consegue replicar: a intuição humana.

A intuição oferece a criatividade, empatia e coragem, enquanto os dados fornecem clareza, precisão e eficiência. No seu célebre discurso na Universidade de Stanford, Steve Jobs lembrou a importância da intuição na tomada decisão “tenha a coragem de seguir seu coração e intuição. Eles, de alguma forma, já sabem o que você realmente quer”.»

 

Este testemunho foi publicado na edição de de Dezembro (nº. 180) da Human Resources, no âmbito do seu LXII Barómetro.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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