CR7 e a Gestão do Talento Sénior

Por Carla Caracol, Directora de Recursos Humanos do Grupo Renascença Multimédia, Professora Universitária, membro da Direcção Nacional da APG e da DCH Portugal

O Cristiano Ronaldo, para muitos (eu incluída) o melhor jogador de futebol do mundo, dizia há muito pouco tempo que “quem tem longevidade no futebol são aqueles que se adaptam melhor”, referindo que o jogo está muito diferente do que era e que, consequentemente, os jogadores, incluindo ele próprio, se têm que adaptar a este contexto volátil.

Enquanto fã de futebol, tenho vindo a constatar a inteligência e perspicácia deste jogador. Para além do inegável talento natural e da incontestável capacidade de trabalho, tem sabido, com enorme proficiência e assertividade, manter elevados níveis de performance, porque se tem conseguido adaptar a todas as circunstâncias, demonstrando, no terreno de jogo, essa maturidade na e para a função.

Idos são os tempos do CR7 no Manchester United, em que os dribles aos seus adversários eram desconcertantes, em que a sua compleição física era impressionante, com o desenvolvimento de uma massa muscular que permitia ter uma força inesgotável que fazia com que estivesse em todo o campo, fosse à procura de jogo, fosse a distribui-lo. Actualmente assistimos a uma maior sobriedade no seu desempenho, com um corpo menos musculado, mas mais ágil, que lhe permite uma elevação surpreendente e uma capacidade de concretização verdadeiramente fora de série, pulverizando sucessivos recordes.

O que este exímio jogador de futebol tem conseguido ao longo do tempo, para manter o alto rendimento, é assumir e respeitar o curso natural da condição humana que nos leva ao inevitável envelhecimento. E só quando o encaramos com essa naturalidade é que conseguimos assumir que é uma condição inultrapassável e temos então a atitude e o comportamento adequados para ajustar o foco e os recursos disponíveis às condições existentes, procurando alavancar ou, pelo menos, manter a capacidade de resposta no que respeita à exigência do desafio.

Ao reflectir sobre este caso de sucesso pessoal, não consigo deixar de fazer o paralelismo com a Gestão do Talento Sénior.

O CR7, com a sua elevada performance, tem sido um exemplo de talento surpreendente que parece quase ilimitado no portfólio de atributos e, com isso, tem assegurado cada vez mais alcançar e almejar novos desafios profissionais… não há clube algum que não gostasse de o ter. Ele entrega muito e recebe na sua proporção, em reconhecimento e recompensa, em motivação e oportunidades de superação. Por outro lado, ele faz questão de ter consigo a sua família, de os envolver nos momentos que lhe são importantes e esta veste a camisola 7 da equipa do craque, porque sentem um enorme orgulho!

E isto leva-me a recuar muitos anos… aos tempos em que, em criança, ia visitar os meus pais às suas empresas e explodia de alegria. Eles não eram as “estrelas da companhia”, mas via, in loco, o quanto eram felizes a trabalhar, o quanto gostavam do que faziam, o quanto eram acarinhados e respeitados por todos quantos com eles interagiam, sentia que também ali eram valorizados e que essa estima era transposta naturalmente para mim e para o meu irmão… afinal era a filha do/a Caracol. Sentia-me em casa, em família. Pensava persistentemente no quanto queria muito começar a trabalhar para conseguir ter essa experiência na primeira pessoa!

Muitos de nós, profissionais, e alguns de nós, profissionais em Gestão de Pessoas, reviverão a sua própria experiência pessoal neste sentimento, mas quantos de nós temos encarado, de frente, o envelhecimento natural nas organizações, lançando desafios adequados a esses estados de maturidade mais experientes? Quantos de nós temos práticas activas para reconhecimento do know-how existente e para a sua partilha entre os mais juniores? Quantos de nós encaram esse capital como uma mais-valia real, que tem que ser valorizado e reconhecido? E tantas mais questões provocatórias poderia colocar!

Quase invariavelmente, quando se fala em Gestão do Talento, a sua 1ª fase recai sobre a atracção! Então e os colaboradores que já integram a organização? O seu Talento já não pode ser identificado? E, mesmo tendo mais idade, o seu conhecimento e experiência, não podem ser aproveitados, valorizados e desenvolvidos? Estes esgotaram o seu potencial no exercício da actual função?

Poderemos nunca ser considerados para o pool de Talento, podemos nunca conseguir concretizar o “estrelato” do CR7, ou sequer ambicioná-lo, mas, no final do dia, não ambicionamos todos ser a nossa melhor versão, independentemente da idade? Não sentimos todos que ainda temos muito para dar e nem sempre a nossa competência está a ser devidamente aproveitada?

Na actualidade podemos ainda não ter o label de Sénior, mas, com toda a serenidade, esse dia chegará (assim espero!). E será que ainda sentiremos orgulho em falar da nossa função, da nossa empresa ou em fazer visitas guiadas às suas instalações à nossa família?

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