
E se o cérebro dos seus líderes estiver a operar abaixo do potencial?
A verdadeira performance é desenhada no córtex, não no calendário.
Por Carlos Alves, fundador da Brain World
Há, na minha opinião, duas palavras que não têm merecido a devida atenção, ou sequer a devida compreensão, por parte de muitos líderes portugueses. A primeira é neurociência, a segunda é coaching. Quanto à primeira, tem sido vista como algo longínquo, técnico, quase clínico. No domínio dos médicos e dos cientistas, não das empresas. O que é verdade, embora profundamente incompleto. Quanto à segunda, temo que tenha sido uma palavra gasta pelo excesso de promessas. Em muitos casos, tornou-se um rótulo mais do que uma prática, uma técnica mais do que uma arte, um produto mais do que um processo.
E, no entanto, o que está a emergir globalmente é precisamente o denominador comum das duas, o cérebro como o novo território do desenvolvimento humano.
Durante décadas, falámos de performance como algo que dependia de talento, motivação e cultura. Hoje, percebemos que há um outro factor verdadeiramente determinante: a regulação. Não basta treinar competências, é preciso treinar o sistema que as suporta, o cérebro. E aqui entra a pergunta desconfortável: e se o seu cérebro, e o dos seus líderes, estiver a operar abaixo do potencial?
Do músculo ao córtex
É curioso como aceitámos com naturalidade a ideia de ir ao ginásio para fortalecer o corpo, mas ainda estranhamos a ideia de treinar o cérebro. Queremos que as equipas sejam criativas, focadas e resilientes, mas continuamos a tratar o cérebro como se fosse uma caixa negra, algo que “funciona” até deixar de funcionar.
Mas será que só vai ao ginásio quem passou primeiro pela fisioterapia? Claro que não. O treino físico é sinónimo de prevenção, saúde e performance. O treino cerebral está a seguir o mesmo caminho, a sair da clínica e a entrar nas organizações.
A neurociência aplicada está a transformar a forma como entendemos liderança, foco e decisão. Não como um exercício de introspecção, mas como uma ciência prática. E uma das ferramentas mais promissoras nesta transição é o neurofeedback, também conhecido como neurotreino ou EEG biofeedback.
Trata-se de um método seguro e não invasivo que utiliza sensores de EEG (eletroencefalograma) para medir, em tempo real, a actividade eléctrica do cérebro.
O que o distingue é o princípio por trás, a neuroplasticidade, que se resume à capacidade de o cérebro se reorganizar, aprender e optimizar padrões de funcionamento. Em vez de tentar “controlar” o comportamento pela força da vontade, o neurotreino actua a montante, ajudando o cérebro a regular-se.
É como dar ao cérebro um espelho em que ele aprende a reconhecer os seus próprios padrões e, com feedback em tempo real, vai-se ajustando. O resultado é menos ruído interno, mais foco, decisões mais consistentes, mais equilíbrio e um cérebro a operar de forma menos reactiva e mais estratégica.
Se tudo isto ainda soa a futuro distante, vale a pena olhar para quem já o pratica. Em 2018, David Waldman, professor da Arizona State University, publicou o estudo “Neurofeedback: The Future of Leadership Training”, onde propôs algo ousado: integrar treino cerebral em programas de desenvolvimento de líderes. Waldman estudou centenas de executivos e mostrou que, ao melhorar a auto- regulação neural, os líderes tomavam decisões mais ponderadas sob pressão, mantinham maior coerência emocional e conseguiam sustentar o foco em ambientes complexos.
A ideia foi reforçada por um estudo de 2022, publicado na revista Scientific Reports, intitulado “Top managers, neuro( bio)feedback & decision-making”. O ensaio clínico randomizado demonstrou que os gestores que treinaram a auto- -regulação via neurofeedback mudaram o seu perfil de risco e impulsividade, tornando-se mais equilibrados em decisões intertemporais, ou seja, menos reactivos e mais estratégicos.
O impacto não se limita ao mundo corporativo. Desde os anos 60, a NASA recorre ao neurofeedback para optimizar a atenção e a resiliência de pilotos e astronautas em ambientes de alto stress. O Liverpool Football Club adoptou programas de treino cerebral para melhorar o foco e a recuperação mental dos jogadores. E o quarterback Kirk Cousins, dos Minnesota Vikings, revelou na série “Quarterback”, da Netflix, que o seu segredo de foco e clareza mental é precisamente o treino cerebral com neurofeedback, que faz de forma quase tão regular como o treino físico.
Quando o cérebro se esgota antes do talento
Depois de mais de 27 anos em funções executivas, nacionais e internacionais, percebi que grande parte das vezes não é o talento que falha, é o cérebro que se esgota antes de o corpo chegar ao fim da semana.
Vivemos em ambientes corporativos saturados, onde tantas e tantas vezes a hiperestimulação ainda é confundida com produtividade e o cansaço com mérito. As equipas estão cronicamente ligadas, mas internamente desligadas, e a saúde mental, outrora tabu, passou a ser tema central nas agendas de Recursos Humanos (RH), embora ainda envolta num significativo estigma.
Mas há uma diferença entre cuidar da mente para não adoecer e treiná-la para prosperar. O primeiro é reacção, o segundo é evolução. A neurociência aplicada ao desenvolvimento executivo não vem substituir a psicoterapia, a psicologia nem o coaching, vem ampliá-los. Traz dados, traz mapas, traz evidência. Onde antes havia apenas percepção, agora há leitura cerebral objectiva (qEEG – electroencefalograma quantitativo), onde antes falávamos em foco, agora medimos atenção sustentada, onde antes aconselhávamos a “abrandar”, agora sabemos quais as redes cerebrais que precisam de ser
estimuladas ou atenuadas.
Leia o artigo na edição de Novembro (nº. 178) da Human Resources
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