Entrámos na Era da “economia da incompatibilidade de competências” (significa que há uma nova moeda para o trabalho)

O mercado de trabalho está a reorganizar-se a um ritmo que ultrapassa a capacidade de adaptação das empresas e dos trabalhadores. Segundo o “Skills Index” da Wharton-Accenture, que acompanha mais de 150 milhões de perfis únicos nos EUA e 100 milhões de anúncios de emprego, o mundo entrou na Era da “economia da incompatibilidade de competências”, onde há uma desconexão entre o que os trabalhadores têm e o que as empresas precisam, noticia a Fortune.

A equipa de investigação, composta pelo professor da Wharton, Eric Bradlow, e por James Crowley, Ken Munie e Selen Karaca-Griffin, da Accenture, descobriu que o mercado de trabalho está a operar num estado de desequilíbrio estrutural. Resumindo, a maioria dos trabalhadores está a promover soft skills como a comunicação, a liderança e a resolução de problemas, enquanto os empregadores procuram desesperadamente competências especializadas.

«Há um enorme skills gap. As competências que as empresas dizem querer nos anúncios de emprego simplesmente não correspondem à forma como as pessoas se apresentam», disse Bradlow à Fortune. Na sua opinião, os empregadores estão cansados de competências “básicas”, como liderança, trabalho em equipa e comunicação — capacidades que todos têm nos seus CV – e garante uma certeza: esta situação não pode continuar.

A investigação destaca um excedente de oferta de competências “generalistas” que se tornaram tão comuns que já não diferenciam o talento. Por outro lado, o mercado recompensa a profundidade técnica, os métodos científicos e a precisão analítica — capacidades que os trabalhadores subestimam consistentemente. Isto significa que os cargos «já não descrevem como o trabalho é realmente feito», refere o relatório.

De acordo com Bradlow, os empregadores dizem cada vez mais: “Não me diga o seu cargo. Diga-me que competências tem e o que realmente faz”. No entanto, o currículo, a “ferramenta dominante”, continua a enfatizar características como a comunicação, a liderança e a resolução de problemas, «sem comunicar realmente o valor que um determinado trabalhador acrescenta».

Os autores descrevem uma “desconexão impressionante e persistente entre o que os trabalhadores escolhem destacar e o que os empregadores realmente precisam para realizar o trabalho”. Os traços generalistas menos valiosos incluem liderança, comunicação, trabalho em equipa e resolução de problemas. Por outro lado, os trabalhadores tendem a não destacar as competências específicas, valiosas e escassas que os empregadores mais desejam — e, em muitos casos, “não têm”.

Uma das descobertas mais reveladoras do estudo é o facto de o valor das competências não ser universal, mas sim específico para cada função, com uma capacidade que aumenta o salário num sector, por exemplo, podendo reduzi-lo noutro.

Por exemplo, o índice descobriu que destacar competências de “análise estratégica” está correlacionada com um aumento salarial de 8.000 dólares para os representantes de vendas, mas com uma redução salarial de 10.000 dólares para os líderes de validação técnica. Nas funções altamente técnicas, o mercado prioriza o conhecimento aprofundado do domínio em detrimento da estratégia global de gestão.

Uma nova moeda para o trabalho

A implicação para o futuro do trabalho é clara: as competências estão a substituir os cargos como a principal moeda do mercado de trabalho. Para navegar nesta transição, os autores sugerem uma mudança radical de perspectiva para todas as partes interessadas:

  • Os empregadores devem abandonar a “arquitectura de cargos” e adoptar a “arquitectura de competências”, dividindo as funções em tarefas e alinhando a remuneração com as competências específicas que acrescentam valor.
  • Os colaboradores são encorajados a ver as suas carreiras como um portefólio de competências de alto valor, em vez de uma lista de títulos, utilizando a IA para adquirir rapidamente conhecimentos técnicos aprofundados.
  • Os educadores precisam de reequilibrar os currículos, deixando de lado a preparação generalista e focando-se em capacidades especializadas e prontas para o mercado de trabalho, que garantam que os graduados possam contribuir desde o primeiro dia.

Para quem se preocupa por não ter as competências certas na era da IA, Bradlow deixa um conselho: «Aprenda a pegar em problemas difíceis, a dividi-los em problemas mais pequenos e estruturados, a explicitar as suas premissas, a compreender a incerteza, e sair-se-á bem. Há sempre vagas para pessoas assim. São as chamadas competências de pensamento e estruturação.»

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