Estórias com Propósito | Pedro Sales (NOS): Calçar quem anda descalço

O que uma missão nas montanhas do Atlas me ensinou sobre liderança e propósito; sobre resiliência, gestão de adversidade e capacidade de superação; sobre a importância do espírito de equipa. E sobre generosidade. Sobretudo generosidade.

 

Por Pedro Sales, Digital Transformation manager na NOS

 

É em Marrocos que esta “estória” tem lugar. Muitos dos que viajam até este país do Norte de África fazem-no em turismo. O choque cultural é imediato e, quase sempre, delicioso. Dependendo do destino, ouvimos uma língua diferente, vemos cores, roupas e cheiros que nos transportam para uma realidade muito diferente da nossa. Sobretudo em locais como Rabat, Casablanca, Marraquexe ou Chefchaouen, o passeio é, convenhamos, magnífico, com monumentos e uma história riquíssima.

Mas esta crónica não é sobre esse Marrocos. É sobre uma missão com um nome que diz tudo: “Calçar Quem Anda Descalço”. É sobre como eu e mais 11 amigos, cada um na sua mota, fomos entregar mais de 1200 pares de sapatos a um local que poucos conhecem, dolorosamente próximo do epicentro do sismo de 2023, que vitimou mais de 2500 pessoas (o mais mortífero a atingir o país nos últimos 60 anos) e deixou um devastador cenário de destruição – Asni.

Deixem-me dar-vos algum contexto. Ando de mota desde os 14 anos, ou seja, já lá vão mais de 25. Começou como transporte puramente utilitário, com uma Honda CRM 50cc, que, para um adolescente, era a definição de liberdade e adrenalina. Acompanhou-me do 10.º ano ao primeiro emprego, tendo depois começado nas BigTrail, com uma Honda Transalp 700. Durante muito tempo (por vezes, ainda hoje), as motas foram as minhas guerreiras de duas rodas, que me levavam a atravessar a Ponte 25 de Abril todos os dias (em alguns, um verdadeiro um acto de bravura, diga-se), mas que ao fim-de-semana me permitia fazer umas “escapadinhas” fora de estrada.

Em 2017, aventurei-me pela primeira vez em Marrocos numa fantástica Honda AfricaTwin 1000, com três amigos – o Diogo Leitão, o Fernando Florentino e o João Rebelo Martins. Que equipa! Tínhamos 10 dias e a ambição (completamente irrealista) de conhecer o país todo. Preparámos as motas, definimos um percurso e o João até nos arranjou patrocínios. Um deles de uma marca de latas de bacalhau confitado, que nos souberam a refeições de restaurante estrela Michelin, com as melhores vistas: no meio da montanha ou do deserto, ou junto a lagos que ali parecem miragens. Era só parar e tirar os talheres da bagagem. Comíamos onde nos apetecia. Que sensação de liberdade.

Apelidámos a viagem de “Varrer Marrocos”. Tivemos direito a autocolantes, T-shirts e tudo. Foi uma aventura que, só por si, dava outro artigo. Lembro-me de uma odisseia de 36 horas sem dormir, de Algeciras até Marraquexe (não recomendo). Mas a experiência que “se seguiu” teve um impacto incomparável.

Por conhecerem este meu gosto por motas, por Marrocos e pelo espírito de entreajuda, um dia convidaram-me para integrar a missão “Calçar Quem Anda Descalço”. Aceitei logo. O desafio era “simples”: reunir pelo menos 100 pares de sapatos para entregar às crianças nas montanhas do Atlas. A ideia partiu de Rui Baltazar, especialista em viagens de motociclismo de aventura, que há anos faz esta “peregrinação”. Tive o privilégio de o acompanhar, pela primeira vez, em 2024, e foi de tal maneira impactante que repeti, agora em Outubro de 2025.

São viagens intensas, física e psicologicamente, onde se forja um espírito de camaradagem absolutamente ímpar (os meus companheiros de viagem sabem bem ao que me refiro). É, na prática, um caso de estudo de “liderança sem líder”, num grupo que não é organizado formalmente, mas onde tudo funciona na perfeição, por vezes nas condições mais adversas.

Chegamos ao propósito da “estória”, Asni, o destino deste ano. Aquelas montanhas têm tanto de bonito como de assustador. Imaginem o cenário: a 1800 metros de altitude, a paisagem está marcada. Vemos o entulho do sismo ainda nas bermas, as casas destruídas. E, depois, vemos as tendas de missão, que ainda servem de abrigo a famílias inteiras! Pode não estar um frio de rachar enquanto lá estamos, à luz do dia. Mas impressiona saber que estamos num local onde o frio nocturno é impiedoso. Olhar para aquelas “casas” e imaginar as temperaturas a descer abaixo de zero… É aí que a dimensão da tragédia nos atinge em força. E tomamos consciência clara de quão privilegiados somos.

Foi ali que começámos, literalmente, a calçar todas as crianças e jovens que se aproximavam. É um processo de conquista, quase coreografado. Em alguns locais, não se vê ninguém. Buzinamos, desligamos as motas. E, do silêncio, como se brotassem da terra, começam a surgir crianças a correr monte abaixo na nossa direcção.

Não sei o que pensam, e por vezes o diálogo é difícil, mas entre português, inglês, francês e muitos gestos, lá nos entendemos. Basta abrir os sacos, percebem logo. E os olhos brilham.

É então que começa o “caos” logístico. Olhamos para o tamanho do pé (a experiência já me permite a acertar nos números à primeira) e escolhemos o melhor par, consoante é para rapaz ou rapariga. Quando me falta um número, grito: “Alguém tem um 32?”

A sensação de dar é sempre boa. Mas dar a quem realmente precisa… essa é de outro nível. É transformadora! E é um povo de uma gratidão que nos desarma. Lembro-me de, “no fim do mundo”, nos darem das melhores maçãs que já comi. Podem não ter muito, mas dão o que têm.

Noutra ocasião, um pão foi dividido por todos e serviu-nos de “almoço” gourmet às seis da tarde, enquanto reparávamos um furo, no meio do nada. Já nos aconteceu bloquearem-nos a estrada, só para nos servirem um belo repasto de chá e pão, ali mesmo, no meio do caminho.

Como disse um dos motociclistas: «Como é possível conseguir explicar aos outros a tamanha gratidão deste povo? Como é possível não voltar? Por vezes somos tão pobres, tão pobres, que a única coisa que temos é dinheiro…»

Este ano, além dos sapatos, levei brinquedos que as minhas filhas escolheram. Foi um processo de aprendizagem lá em casa. Perceberam, talvez pela primeira vez, que os seus brinquedos podiam ter uma segunda vida e fazer outras crianças felizes; crianças que, ao contrário delas, raramente recebem presentes.

As reacções das crianças são as mais diversas, mas sempre com um denominador comum: um sorriso, mesmo que por vezes tímido. Recordo-me de um episódio em particular. Vi ao longe um abrigo isolado, com uma cabra presa a uma árvore, duas cabritinhas e duas crianças, acredito que irmãos. A mais velha talvez de seis anos, o mais pequeno de três, descalço no piso de pedra. Dei-lhe uns ténis cor de laranja, gostou (o espanto denunciava que talvez nunca tivesse tido nenhuns). Mas o que o fez sorrir de orelha a orelha? O Olaf, da Frozen. Claro. No meio do Atlas, a magia da Disney é igual. E encontra sempre forma de aparecer.

O texto já vai longo, mas tenho de deixar uma palavra para o Rui, mentor do projecto. Tem uma habilidade notável: consegue, “sem querer”, liderar (e bem) um grupo de pessoas com o mesmo interesse, à volta de um mesmo propósito. Transmite-nos a paixão que coloca naquilo que faz, e faz-nos segui-lo, muitas vezes sem sabermos bem ao que vamos (o que, confesso, ainda me entusiasma mais, o desconhecido, o espaço para a descoberta).

Impossível não referir também as dezenas de pessoas que quiseram juntar-se a esta missão da forma que podiam, ajudando-nos a reunir os sapatos (obrigado a todas elas!). Muitas ainda nos deram também brinquedos, canetas, bolas, fazendo “o dia” (se calhar o ano) daquelas crianças. Acabamos por ser apenas os mensageiros. Vamos fazendo partilhas nas redes sociais para que possam viajar connosco.

É difícil descrever a experiência por palavras. É uma missão feita de imprevistos, mas sobretudo de emoções. Somos forçados a adaptar-nos constantemente às estradas, ao tempo e aos azares (nomeadamente, um acidente grave). Mas o que fica é o espírito de equipa (absolutamente essencial), a superação. E a generosidade e alegria de quem pouco ou nada tem.

São cerca de três mil quilómetros de desafios. Ao final do primeiro dia, parece que fomos atropelados por um camião. Estamos todos doridos. Mas, havendo uma missão, um propósito, o foco é outro. O cansaço desaparece. Sobrepõe-se a motivação, renovada a cada sorriso.

Esta foi a sétima vez que fui a Marrocos de mota. E hei-de voltar, fazendo jus à música de Jorge Palma: «Enquanto houver estrada p’ra andar, a gente vai continuar.»

 

Este artigo foi publicado na edição de Novembro (nº. 179) da Human Resources.

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