Flash Talk: a importância de um “não” positivo

Titiana Barroso
11 de Setembro 2018 | 12:07

Já quis recusar uma ideia ou oferta, mas teve medo das consequências na sua vida profissional ou na relação com os colegas? Aprenda a dizer “não” sem culpas. É o que António Sacavém quer ensinar-lhe. 

Por Diana Pedro Tavares 

 

O autor do livro “Aprenda a dizer não sem culpas” é partner, trainer e coach na António Sacavém Communication Academy e professor auxiliar na Universidade Europeia e no IPAM.

À revista Human Resources Portugal, explica como a experiência profissional que tem e os profissionais que ajuda o levaram a escrever este livro, o que pode aprender com ele, e como a vida profissional pode mudar com um “não” diferente.

Continue a ler após a publicidade

A ideia para este livro surgiu porque, no dia-a-dia, encontra muitos profissionais com dificuldade em dizer “não”. Consegue estabelecer um perfil ou um padrão, nos profissionais que mais se debatem com esta dificuldade?

A dificuldade de dizer um “não” com competência surge, essencialmente, ligado ao tema da produtividade, da gestão de conflitos, da liderança, da negociação empresarial, do equilíbrio trabalho/família, etc. Por esse motivo, é um tema relativamente transversal nas empresas dado que se trata de uma questão relacional.

Porque acha que existe esta dificuldade, especialmente no mundo empresarial?

Continue a ler após a publicidade

Repare, enquanto espécie, nunca fomos os mais rápidos, os mais altos ou os mais fortes. No entanto, tornámo-nos naquilo que somos hoje porque aprendemos a juntar-nos em tribos, a proteger-nos uns aos outros e a trabalhar em equipa. A nossa necessidade de pertencermos a um grupo mantém-se até ao momento presente.

Nas empresas, receamos dizer “não” pois sentimos que isso nos pode afastar dos outros e dos nossos objectivos. Podemos ter receio que o nosso chefe sinta que não estamos à altura, que o colega não aceite o “não” como resposta, de gerar um conflito, de correr o risco de perdermos uma oportunidade de progressão profissional, de prejudicar a relação com o chefe, etc.

Isso pode acontecer, de facto, no caso do “não-negativo” do tipo acusatório, que confunde o comportamento com a pessoa. No entanto, no caso do “não-positivo”, não corremos esse risco. Pelo contrário, até nos candidatamos a melhorar a qualidade da relação com as outras pessoas, enquanto nos mantemos focados naquilo que é mais importante para nós, ao serviço de algo mais abrangente.

Como é que este livro pode ajudar os profissionais? Partilhe dois ou três dos principais “ensinamentos”.

Os leitores vão aprender que existem três tipos de “não”, como podem aplicar eficazmente o “não-positivo” e o “não-assertivo”, e como podem evitar o “não-negativo”, que os afasta dos outros e dos objectivos.

Continue a ler após a publicidade

As pessoas vão aprender, também, a lidar eficazmente com conflitos, a dizerem “não” ao acessório para dizerem “sim” ao que é realmente importante, a gerirem o sentimento de culpa e de ansiedade que um “não” pode trazer, a evitarem a manipulação num estágio inicial e a manterem uma relação saudável com o outro mesmo depois de terem dito que “não”.

Quando começou a escrever o livro, qual era o objectivo?

Acima de tudo, dar a conhecer um conjunto de ferramentas essenciais para as pessoas aprenderem a dizer um “não-positivo”, um não confiante, que lhes abre portas para o diálogo, que as vai ajudar a serem mais produtivas, a equilibrarem a relação trabalho/família e a sentirem-se mais felizes e realizadas.

Como é que a tecnologia e as redes sociais melhoram ou pioram esta questão?

Pegando no exemplo do email. Se existe um problema a resolver, as pessoas tendem a dar feedback mais “duro” por email, do que numa relação face-a-face. O nível de empatia tende a decrescer quando não estamos em contacto directo, ou seja, quando estamos privados de observar aquilo que o outro está a sentir, tanto através da face como do corpo.

É um “problema” que partilhamos com outras nacionalidades ou é mais evidente nos portugueses?

É um tema global. No entanto, os portugueses, comparativamente com outras culturas, tendem a ser mais avessos ao risco. Isto pode conduzir-nos a evitar o “não” como forma de protecção.

Há outros factores que jogam com esta temática? Gerações, género, cultura?

A minha experiência diz-me que é uma questão relativamente transversal, no que toca ao género.

O que é um “não positivo”?

O “não positivo” é um dos três tipos de “não”, que tem a vantagem de manter as pessoas focadas no objectivo, desejavelmente ao serviço de um bem maior, enquanto desenvolvem uma relação saudável com os outros. O “não-positivo” só pode existir se soubermos realmente aquilo que queremos.

Por isso, é tão importante no local de trabalho. O “não positivo” é um processo de três passos:

– Passo 1: inicie o diálogo de forma positiva e partilhe o quão importante é aquilo que está a fazer para benefício de algo mais abrangente;

– Passo 2: demonstre que entende aquilo que o outro sente e aquilo de que necessita no momento;

– Passo 3: empenhe-se em descobrir com o outro uma ou mais soluções habilitadoras que tenham em consideração a sua necessidade de se manter focado naquilo que é realmente importante, sem descuidar aquilo que são os sentimentos e as necessidades dos outros.

Como sabemos, como receptores deste não, que foi um “não positivo” em vez de um negativo? O que os distingue?

O “não positivo” procura uma solução habilitadora (win-win), para nós e para o outro, enquanto nos mantém focados no essencial. O “não negativo” afasta-nos dos nossos sonhos e do nosso talento, porque nos convida a trocar bons desafios, que têm o potencial para impulsionar a nossa transformação pessoal, pelo conforto daquilo que é simplesmente satisfatório.

Na interacção com clientes e parceiros é, naturalmente, de evitar. O problema é que, por vezes, quando nos “carregam em determinados botões” não conseguimos gerir eficazmente as nossas emoções e, no calor do momento, lá reagimos com um “não negativo” acusatório. Por isso, o livro também ajuda as pessoas a lidarem melhor com as suas emoções e com o diálogo interno “distrator”.

Como coach, que outras “dificuldades” percepciona nos profissionais que o procuram?

Tenho o privilégio de facilitar processos de coaching junto de executivos, empreendedores, celebridades, políticos, desportistas, etc. Existem temas que, na minha experiência, estão muito presentes nestes targets: o desenvolvimento de competências profissionais; a alavancagem do negócio; a gestão da mudança; o desenvolvimento de competências de liderança; a progressão profissional; a confiança; a superação pessoal e a produtividade; o equilíbrio trabalho/família; a gestão do tempo e da energia; a eficácia na comunicação interpessoal e na comunicação em público; o saber lidar com a rejeição; a motivação pessoal e de equipas; a construção do propósito, etc. Como pano de fundo encontro, geralmente, a transformação pessoal, a gestão das emoções e o desenvolvimento de equipas e da organização. Sinto, cada vez mais, que as pessoas procuram ser mais reais, fazerem aquilo que apregoam e criarem versões melhoradas dela próprias.

Já tem tema para o próximo livro?

Bela questão… Existe algo pensado, mas não quero adiantar para já. Prefiro focar-me em fazer acontecer logo que encontrar o momento adequado, procurando criar algo de novo e que acrescente valor. Sou apologista da máxima” falar menos e fazer mais”.

Leia também estas entrevistas. 

Partilhar


Mais Notícias