Isabel Borgas, NOS: Arquitectos do propósito

Num mundo marcado pela incerteza e num contexto de mudança permanente, o propósito deixou de ser uma ideia inspiradora para se tornar uma bússola estratégica. A questão já não é apenas o que as organizações fazem, mas por que existem. Leia o artigo de Isabel Borgas, directora de Pessoas e Organização da NOS.

Human Resources
13 de Julho 2026 | 10:10
Isabel Borgas, NOS: Arquitectos do propósito

Por Isabel Borgas, directora de Pessoas e Organização da NOS

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Ao longo dos últimos anos, sempre que tinha oportunidade, fazia a mesma pergunta a muitos líderes de topo: “para além de gerar resultados e retorno aos vossos accionistas, para que é que a vossa organização existe?”

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A verdade é que em tempos de instabilidade geopolítica crescente, desafios económicos recorrentes, transformação social definitivamente acelerada, novas gerações mais transaccionais e gerações mais velhas estranhamente mais angustiadas com o futuro, esta pergunta deixou de ser de retórica teórica. As respostas são, hoje, absolutamente vitais.

Ainda me recordo quando a Optimus e a ZON se fundiram para dar origem à NOS. Não estávamos apenas a somar activos e a procurar sinergias. Era muito mais do que isso, procurávamos responder a uma questão fundacional: o que podemos ser juntos que nenhum de nós conseguiria ser sozinho? E é precisamente aqui que começa o verdadeiro trabalho sobre propósito. Foi também isto que permitiu que uma fusão superasse em muito a mera conquista, levando o “1+1=3” de lugar comum motivacional a projecto real de futuro partilhado.

Nestes tempos de hiper turbulência, o propósito tem três funções nucleares. A primeira é apontar o caminho, dar direcção, mesmo quando tudo parece estar em constante mutação. Estruturas, modelos de negócio e tecnologias reinventam-se em ciclos cada vez mais curtos. O propósito é a “sapata estrutural”, é a resposta ao “porquê” quando o “como” e o “o quê” admitem reescritas. Nestas alturas, de crise ou transformação acelerada, a pergunta dentro de cada pessoa não é “o que vai acontecer”, mas antes “o que é que isto significa para aquilo em que acreditamos”. E quando os líderes “não se chegam à frente”, abrem espaço para o medo… e o medo destrói confiança e fragmenta culturas.

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A segunda função é criar um contrato emocional num mundo onde tudo é cada vez mais transaccional. As novas gerações negoceiam tempo e lealdade com mais assertividade; as gerações mais séniores interrogam-se sobre o seu lugar num futuro dominado pela tecnologia do qual não parecem fazer parte. Em comum, ambas querem sentir que contam para algo que tenha sentido. Sem propósitos claros, as organizações tornam-se marketplace de horas por salário, vida por dinheiro. Isso não sustenta talento excepcional, nem retém massa crítica, tão essencial para quando a pressão aumenta.

Por fim, a terceira função passa por ser o principal mecanismo de alinhamento estratégico. Neste novo paradigma da inteligência artificial, de novo não serão as ferramentas a diferenciar as empresas. O que permanecerá singular será sempre a forma como as organizações combinam propósito, cultura e liderança.

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Quando, na NOS, democratizámos o acesso à inteligência artificial (IA) com o NOS GPT fizemo-lo a partir de uma convicção firme: a tecnologia deve ser um acelerador de humanidade e não um substituto. Esta escolha faz toda a diferença e impacta tudo: os programas de requalificação, os modelos de liderança, a forma e os critérios com que medimos o sucesso.

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É aqui que o propósito deixa, de facto, de ser slogan comportamental de comunicação interna e passa a ser estruturante na estratégia do negócio. E é também aqui que o papel da Gestão de Pessoas se torna central, procurando assegurar que o propósito se traduz, de forma concreta, em boas decisões, de forma consistente: quem promovemos, onde investimos em competências, que comportamentos toleramos ou não, como gerimos a ambiguidade e o conflito.

Sabemos que a cultura não nasce por decreto. Nasce das microdecisões de liderança que ninguém acha que estão a ser observadas, mas que toda a gente observa, quem é convidado para definir prioridades, quem é ouvido quando há tensão entre “como sempre fizemos” e “como precisamos de fazer”, quem é reconhecido pela forma como entrega resultados e não apenas pelos resultados que entrega. É aí que se vê e se materializa, de facto, o propósito em acção!

No fim, a pergunta que mais me interessa é sempre uma pergunta simples, embora talvez mais desafiante: as pessoas que passaram por nós (organizações) sentem que fizeram parte de algo maior do que elas próprias? Se a resposta for sim, então o propósito cumpriu a sua função.

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Este artigo foi publicado na edição de Junho (nº. 186) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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