Jornalismo local, que futuro?

Por Valter Ferreira – Data Scientist, Marketeer, Economista do território, Inovador e Especialista em cidades humanas e inteligentes

Escrevo este artigo em paralelo para um jornal local, o Almadense, e para a Human Resources Portugal, por um lado porque aborda o jornalismo local, e Almada é o meu concelho de residência, e por outro porque aborda o emprego gerado neste sector, e a Human Resources Portugal é uma referência na sua área. E mais do que nunca este tema tem de ser discutido, pois a importância do jornalismo local para a clareza da democracia está em jogo.
Um estudo recente dos investigadores do Mediatrust coloca Almada (entre outros concelhos nacionais) como um concelho “ameaçado” de se tornar um deserto de notícias, ou seja, perto 180 mil habitantes sem acesso a informação isenta e desprovida de propaganda sobre o que se passa no seu concelho. Isto é, perante uma verdadeira ameaça à democracia e à decisão informada.
Nós, cidadãos, não podemos ficar reféns das notícias que o poder local quer passar, temos de ter sempre um contraditório, e uma parte independente, com espaço para todos, para levar a realidade sem artifícios nem populismos até todos.
Para mim, especialmente enquanto liberal, é me impensável que não exista jornalismo livre, jornalismo que possa monitorizar aqueles que exercem o poder, e que com toda a isenção podem fazer chegar a informação às pessoas, acima de tudo de forma que todos percebam a mensagem. Assim como a democracia é tão forte quanto forem as nossas liberdades individuais, também esta precisa de uma imprensa forte e presente.
A minha veia mais política faz-me escrever que ler jornais locais aumenta a capacidade/vontade de envolvimento e participação das pessoas, pois estes meios de comunicação são a ferramenta que mostra a nossa comunidade, que percebe as nossas ambições e sonhos, que nos conta quem são os diretores dos agrupamentos escolares, os presidentes das associações locais, os eleitos e quem representa o quê e quando. E esse sentimento é reforçado quando leio Alexander Meiklejohn, e ele escreve: “quando um homem livre exerce o seu voto, não é suficiente que a verdade só seja conhecida por alguns (…) Os votantes têm que ter acesso à verdade, todos eles”, ou seja, nenhuma ideia, opinião, dúvida, crença, direito de oposição ou até mesmo informação sem relevância deve ser mantida longe do comum cidadão, e o jornalismo local é o veículo que melhor o pode fazer.
Se eu estivesse a escrever este artigo há dez anos, teria escrito que os jornais locais online iriam tomar conta do espaço noticioso, e que seriam hoje o principal canal de comunicação, mas estou a escrever em 2023, em não foi isso que aconteceu, antes pelo contrário, muito destes meios lutam pela sobrevivência financeira e não preencheram os espaços que os grandes grupos foram deixando abertos.
Num mercado muito dividido entre os grandes grupos empresariais e alguns “novos” players que se alicerçam nas redes sociais para o seu crescimento, – onde fica o meio termo? Aquele nicho de mercado jornalístico que reporta e representa a maioria dos portugueses, e que cada vez mais está fora da equação, tendo nas suas grandes lutas diárias o tempo e o dinheiro, aos quais se juntam por consequência o recrutamento e retenção de jovens repórteres. Onde fica o jornalismo que vai a assistir a assembleias municipais e reuniões de câmara durante cinco ou seis horas seguidas e depois reportar o que se passou com isenção? Claro que estes temas locais, nem sempre são sexy e muitas vezes não têm polémica suficiente para serem “vendidos” no prime-time dos grandes grupos.
Mas, não nos podemos esquecer que a maioria das reportagens originais pode e deve nascer no jornalismo local, visto que estes, por norma, não têm de atuar como caixas de ressonância de agências centrais de notícias, nem tão pouco agradar a acionistas, e podem fazer primar a sua ligação privilegiada com a comunidade local.
É normal, como em quase todos os setores de atividade, que os jovens repórteres quando olham para o mercado de trabalho procurem oportunidades nos grandes grupos, e essa é uma realidade que os empresários locais têm que enfrentar. É minha opinião, que os empresários do jornalismo local têm de se mostrar ao mercado de trabalho como uma porta de entrada, como a forma do jornalista impactar junto da sua comunidade e ao mesmo tempo crescer e ganhar visibilidade para ser disputado pelos grandes grupos.
Porque essencialmente, e no final do deve e haver, o jornalismo local têm um papel importante na criação de empregos numa comunidade. Não só empregam jornalistas, editores e outros profissionais da área, mas também pessoas das vendas, marketing e tecnologia. Além disso, são frequentemente parceiros de outras empresas locais, como empresas de publicidade, agências de relações públicas e produtoras de vídeo. Criando mais oportunidades de emprego para os residentes locais. Não havendo, no entanto, bela sem senão, a crise financeira global e a mudança nos hábitos de consumo de conteúdos noticiosos, têm afetado negativamente o setor.
Neste sentido, um dos grandes desafios do jornalismo local é a sua sustentabilidade, e uma coisa é certa, é necessário fazer diferente e com muito menos. A diferenciação será a boia de salvação, evitar o risco de se tornar o fornecedor das notícias de conveniência, mas sim como a fonte de divulgação de excelência em tópicos específicos, quando menos generalista melhor, esse caminho foi feito, está cheio, e não é no generalismo que se encontra a sobrevivência.
Importa como já referi, e é chave para a sobrevivência, o envolvimento com as comunidades locais e fomentar a participação dos leitores. O jornalismo local deve potenciar a participação do público em termos de fornecimento de notícias, como fotos e informações de eventos, e também em campanhas de financiamento para apoiar sua operação.
Só financeiramente independentes podem estar longe das amarras da política local, removendo da equação os subsídios autarquias, mas sim, como referi no parágrafo anterior, ser apoiado pelo capital local, ou seja, pelas empresas, investidores, cidadãos anónimos, filantrópicos. Estes atores assumem um papel particularmente importante na existência do jornalismo local e para que estes se mantenham relevantes no seu papel de informar e manter informados os cidadãos, sem terem de ficar reféns de um poder ávido por propaganda.




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