Miguel Gonçalves, Magma Studio: «A felicidade custa dinheiro»

Miguel Gonçalves, comandante executivo da Magma Studio, foi à XXVII Conferência Human Resources falar sobre o papel que as novas gerações estão a desempenhar na “encruzilhada” em que se encontra a área da Gestão de Pessoas. E, na impossibilidade de pagar mais, a solução passa pela aposta na formação.

Fotos: NC Produções

 

O orador começou por lembrar que em 1890 Portugal já era o país mais pobre da Europa Ocidental e que em 1900 havia no nosso país 75% de analfabetos. Hoje as coisas são muito diferentes, mas um em cada três jovens em Portugal vai trabalhar para o estrangeiro.

Para o orador, «estas pessoas não vão embora porque as nossas empresas não são suficientemente diversas, nem porque os nossos ambientes de trabalho são agressivos, nem por falta de projectos entusiasmantes em Portugal. Também não vão embora porque as empresas não estão comprometidas ou não plantam árvores suficientes. Vão embora porque há coisas giras para comprar, há mundo para viajar e o conceito de felicidade que temos vindo a criar nos últimos tempos não é compatível com este país. E porquê? Porque nós não podemos pagar, e a felicidade custa dinheiro».

Miguel Gonçalves acredita também que o discurso dominante sobre a felicidade irá «virar-se contra nós». Isto porque «estamos a criar uma definição de felicidade que praticamente ninguém consegue acompanhar. E nós, empresas, temos uma culpa dominante, porque esta definição de felicidade que estamos a criar alimenta expectativas que não vão ser cumpridas».

Para o consultor, a encruzilhada em que vivemos vai continuar porque as empresas não podem pagar em conformidade com as expectativas que os jovens têm. Além disso, uma carreira cria-se em qualquer parte do mundo e, «já que é para chorar, que seja num Ferrari». Assim, este êxodo dos jovens apresenta-se como um dos mais graves problemas que as empresas enfrentam a curto, médio e longo prazo.

Para caracterizar a geração Z, Miguel Gonçalves elenca factores como maior impaciência e menor tolerância à frustração; mecanismos de coping menos eficazes; mais ligados mas sozinhos; sensibilidade crescente à saúde mental; sensibilidade crescente à diversidade, inclusão e sustentabilidade; frequência de mudança e duração da permanência nas empresas; muito pressionados financeiramente; expectativas extraordinárias e impressionantes.

Tendo em conta todos estes factores, a Magma Studio realiza todos os anos o estudo das Empresas Mais Incríveis de Portugal, uma análise detalhada aos drivers da população universitária portuguesa. O objectivo é perceber o que valorizam os jovens e quais as suas expectativas e preferências.

Este ano, o estudo teve um total de 9123 respostas, sendo a amostra constituída por 32% de alunos de Gestão, 45% de alunos de Tecnologia e 23% de alunos de outras áreas. Ao olhar para a lista de empresas eleitas pelos participantes do estudo como as mais incríveis, com a Google, a Microsoft e a Deloitte no pódio, Miguel Gonçalves afirma que «existe uma correlação muito grande entre a employer brand e a corporate brand. O que as pessoas sentem pelas organizações está relacionado com a desejabilidade dessas mesmas empresas». Além disso, é notório que as empresas que estão presentes nas universidades são também aquelas em que os alunos mais querem trabalhar.

Sobre as expectativas salariais, o estudo indica um valor global de 1.207 euros «que nós não conseguimos acompanhar. E isto não vai mudar. Uma coisa é o que as empresas podem pagar aos jovens e outra é o que dizem que gostariam de pagar. O problema é que para subir o salário a um jovem, teriam de subir também a metade ou mais da organização».

Relativamente aos sectores de actividade em que os jovens gostariam de trabalhar no primeiro emprego, o estudo destaca as Tecnologias da Informação e Comunicação (15%), a Consultoria (15%) e Automóvel e Transportes (14%).

No que diz respeito aos modelos de trabalho preferidos, Miguel Gonçalves afirma que «não há nenhuma correspondência com a ideia de que os jovens querem trabalhar em casa». Isto porque o estudo dá uma esmagadora maioria de 76% de preferência ao modelo híbrido, seguido pelo presencial (18%) e só depois pelo remoto (6%) entre os alunos de Tecnologia. Um cenário muito similar acontece na percentagem de alunos de Gestão.

O estudo refere ainda que aquilo que os jovens esperam das suas futuras chefias é: empatia e disponibilidade (24%); apoio para crescer (17%); clareza e objectividade (16%); capacidade para manter boas relações na equipa (12%); feedback constante (11%); inovação e visão de futuro (10%); entusiasmo e inspiração (9%).

Quanto às dimensões mais importantes na empresa a trabalhar, os jovens destacam principalmente formação e oportunidades de desenvolvimento (17%); integração vida-trabalho (17%); e remuneração e benefícios (15%). Aspectos como a cultura, estabilidade, relação com os colegas, inovação e tecnologia, responsabilidade, diversidade e inclusão, reputação e relação com a chefia seguem-se na lista.

Tendo em consideração a importância que os jovens atribuem neste estudo à formação e oportunidades de desenvolvimento, Miguel Gonçalves recomenda às empresas que «na impossibilidade de lhes pagar mais, formem-nos mais. Este pode ser um investimento que podem fazer sem que os chefes ganhem menos que os jovens. E este é um território onde todos podemos competir – o da formação».

Após a conclusão dos estudos, os principais objectivos de carreira dos jovens são ter equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal (27%); desenvolver competências (21%); sentir que têm impacto (16%).

À pergunta “o que te levaria a mudar de empresa?”, os jovens participantes deste estudo destacam principalmente a ausência de crescimento e aprendizagem (26%); e uma oportunidade financeiramente melhor (23%). A cultura, comportamentos e valores da empresa surge em terceiro lugar, mas já bastante longe do segundo, apenas com 12%.

Perante um novo trabalho, os jovens afirmam recear sentir que não gostam do que fazem (20%), cometer erros (17%); não corresponder às expectativas do empregador (14%); o ambiente de trabalho não corresponder às suas expectativas (14%).

Miguel Gonçalves recorda também às empresas a importância das redes sociais para estes jovens. De acordo com o estudo, os jovens passam pelo menos uma hora por dia no Instagram, no TikTok e no YouTube, ou seja, redes sociais eminentemente baseadas em vídeo. É por isso que o orador recomenda que as empresas utilizem este formato e estas redes para comunicar com os jovens.

Em jeito de conclusão, o comandante executivo da Magma Studio afirma que as empresas devem pensar em talento a cinco anos e não apenas nas necessidades imediatas para os projectos que já existem. Além disso, realça a importância de as empresas colocarem as pessoas certas a falar com os jovens.

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