O impacto da IA no mercado de trabalho. As duas faces da moeda

Se as estimativas apontam para a “destruição” de 481 mil postos de trabalho, prevê-se que a adopção da inteligência artificial (IA) se traduza em 400 mil novos empregos e o impacto será mais sentido nas tarefas com maior uso da linguagem. Os números são do estudo “A IA e o mercado de trabalho português”, da Randstad Research.

 

Por Tânia Reis

 

Os resultados do mais recente estudo da Randstad Research: “A IA e o mercado de trabalho português” foram apresentados no dia 14 de Março, no Hub Criativo do Beato, em Lisboa. A análise foi dividida em três blocos, explicou Isabel Roseiro, directora de Marketing da Randstad. Uma primeira revisão de literatura, nomeadamente de dados do Fórum Económico Mundial, OCDE e Goldman Sachs; a perspectiva quantitativa, para o mercado de trabalho português, com a identificação dos efeitos da IA na criação e eliminação de emprego; e, por fim, a perspectiva qualitativa, através de dois inquéritos para compreender a percepção e expectativas das empresas e profissionais portugueses relativamente à influência da IA nos diferentes sectores de actividade.

«Num curto espaço de tempo, a inteligência artificial está a transformar a forma como trabalhamos, com impacto directo em diversos sectores de actividade », fez notar Isabel Roseiro. «Ao mesmo tempo, a sua entrada cada vez mais massificada faz-nos colocar algumas questões éticas em cima da mesa. A verdade é que a sua utilização tem também efeitos sócioeconómicos, nomeadamente no que diz respeito ao potencial de ganhos de eficiência, o facto de algumas empresas e trabalhadores poderem beneficiar desta nova tecnologia, mas também a possibilidade de outros perderem os seus empregos com a automatização de tarefas.»

 

O panorama internacional
Dos relatórios internacionais, a análise da Randstad permitiu chegar a 10 conclusões principais:

1) A IA veio para ficar e continua a atrair volumes significativos de investimento privado. Em 2022, o investimento foi 18 vezes superior ao de 2013;

2) É uma das tecnologias que mais pode transformar o mercado de trabalho;

3) A sua utilização vai acelerar a automatização de tarefas, o que permitirá uma redução dos custos laborais e um aumento da produtividade;

4) O forte impacto será sentido nas tarefas com maior utilização da linguagem. Estima-se que 62% do tempo de trabalho seja gasto em tarefas linguísticas;

5) As necessidades de competências e aptidões dos profissionais, como o pensamento criativo e analítico, vão mudar;

6) A IA influenciará positivamente a produção (PIB) e o emprego;

7) Apesar das elevadas expectativas por parte das empresas, a adopção da IA continua a ser relativamente baixa (inferior a 10%). Em Portugal, 7,9% das empresas com 10 ou mais trabalhadores utilizam a IA, em média;

8) As principais barreiras internas identificadas pelas empresas foi a falta de competências dos colaboradores e o custo da adopção. Externamente referem a falta de financiamento e regulamentação;

9) A utilização da IA também levanta questões éticas. 60% dos trabalhadores dizem estar preocupados com a possibilidade de perderem o seu emprego devido à IA;

10) A regulamentação é necessária e terá impactos positivos. A primeira lei sobre inteligência artificial foi adoptada na União Europeia em 2023. Outros países têm iniciativas em curso nesse sentido e várias organizações internacionais apresentaram propostas para estabelecer um quadro global para a IA.

Destacando o impacto da tecnologia nas tarefas com maior utilização da linguagem, a responsável sublinhou que, de acordo com o grau de exposição à IA, funções profissionais como TI, Finanças; Vendas; Operações; Recursos Humanos; Marketing; Jurídico e Cadeia de Abastecimento são as que apresentam o mais alto grau de automatização e actualização.

 

O cenário em Portugal
Sobre Portugal, Isabel Roseiro salientou que a expansão da IA nas empresas deverá criar oportunidades económicas, novas profissões e empregos.

A partir da análise quantitativa realizada, a Randstad identificou quatro principais tipos de efeitos no mercado de trabalho:

  • Automatização, prevendo-se que 9,7% (481 mil) dos postos de trabalho existentes corram o risco de ser substituídos por IA;
  • Aumento da produtividade, sendo que 16% dos actuais postos de trabalho (795,2 mil) poderão beneficiar da IA quando usada de forma complementar;
  • Não terá impacto em empregos com baixa interacção com IA e que não serão afectados por ela nos próximos anos, cuja análise estima 74,3% (3,7 milhões) do total;
  • Criação de novos postos de trabalho, em resultado da expansão na actividade empresarial das várias aplicações de IA e que, para a próxima década, se cifra nos 400,7 mil novos empregos. Estes resultados permitem concluir que a estimativa do efeito líquido da IA no mercado de trabalho nos próximos 10 anos será ligeiramente negativa, levando a uma eventual perda de cerca de 80,3 mil empregos.

 

As previsões colocam no topo dos actuais empregos em risco os sectores das actividades administrativas e das actividades informáticas e telecomunicações, que poderão ter potencialmente 18% e 17% dos seus processos automatizados. Relativamente ao aumento de produtividade estimado, a directora de Marketing fez saber que serão os sectores das actividades financeiras e de seguros e das actividades informáticas e telecomunicações (36%), seguido das actividades de consultoria, científicas e técnicas (27%).

Por outro lado, reconheceu que os sectores em que se espera o maior efeito, em termos percentuais, do processo de criação de emprego, serão as actividades informáticas e telecomunicações (29% dos novos postos de trabalho) e as actividades de consultoria, científicas e técnicas (14%).

Por fim, a análise qualitativa da Randstad, após inquéritos a empresas e a colaboradores durante os dois primeiros meses de 2024, mostrou que a maioria das empresas inquiridas em Portugal já utilizam IA, e para uma grande variedade de funções. Em contrapartida, 37,3% delas (na sua maioria com mais de 250 trabalhadores) ainda não incorporaram a IA em nenhuma das suas actividades.

As principais razões para tal estão relacionadas com o facto de a IA estar num estado de adaptação recente e ainda apresentar problemas, como a falta de precisão ou qualidade dos outputs. Além disso, os colaboradores não possuem as competências necessárias para a utilizar e as empresas não encontram aplicações que lhes permitam ser mais produtivos. Também a fase embrionária da regulamentação da AI e as muitas incertezas relacionadas com a responsabilidade ou a protecção de dados foram referidos pelos inquiridos.

 

Leia o artigo na íntegra na edição de Abril (nº. 160) da Human Resources, nas bancas.

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