O medo de deixar de ser empregado

Opinião de José Borralho, presidente da JB Tomorrow Group SGPS, autor do livro “MEDO – Como transformar as ameaças em forças”

Human Resources
27 de Abril 2026 | 11:00

Por José Borralho, presidente da JB Tomorrow Group SGPS, autor do livro “MEDO – Como transformar as ameaças em forças”

 

Há um medo invisível que impede muitos talentos de construir aquilo que nasceram para liderar.

Quantas vezes já ouvimos amigos ou familiares queixarem-se da sua situação profissional? Pessoas inteligentes, cheias de ideias, capazes de ver oportunidades onde outros vêem apenas rotina. Pessoas que dizem coisas como: “Se isto fosse meu fazia de outra forma.”“Há aqui uma oportunidade enorme.”“Isto podia ser muito mais bem gerido.”

Mas quando surge a pergunta inevitável: “Então porque não arriscas?” — vemos o entusiasmo desaparecer. A resposta surge quase sempre com a mesma frase: “Isso não é para mim.” – “É muita responsabilidade.” – “Não tenho recursos.”

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É curioso, não é? Porque, na maioria das vezes, não é falta de talento. É falta de coragem.

É como viver numa prisão invisível. Uma prisão sem grades. Sem fechaduras. Sem guardas à porta. E, ainda assim, capaz de manter milhares de profissionais talentosos presos durante anos numa vida que já não os representa. Essa prisão chama-se medo.

Não o medo teatral dos filmes. Nem o medo de um perigo imediato. Falo de um medo mais sofisticado, mais silencioso e socialmente aceite: o medo de largar o certo por algo que ainda não tem nome. O medo de trocar um salário por uma ideia. O medo de deixar de servir os sonhos dos outros para começar, finalmente, a construir os seus.

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A verdade é que a transição de empregado para empregador não é, na sua essência, uma mudança de função. É uma mudança de identidade.

Porque deixar de ser empregado não significa apenas sair de uma empresa. Significa sair de um papel. Deixar de viver numa narrativa onde alguém decide, alguém valida, alguém enquadra e alguém paga no fim do mês. Significa abandonar o território conhecido e entrar num espaço onde a liberdade vem acompanhada de responsabilidade, risco, exposição e, muitas vezes, solidão.

E é aqui que muitos recuam. Não por falta de talento. Não por falta de visão. Mas porque foram treinados durante anos para cumprir… e não para criar. Foram treinados para executar, não para possuir. Para ser reconhecidos dentro de um sistema, mas não para acreditar que podem desenhar um sistema novo.

E assim nasce um dos maiores paradoxos do mundo profissional moderno: há pessoas extraordinárias a viver abaixo do seu potencial porque lhes sobra medo. De acordo com vários estudos europeus sobre empreendedorismo, Portugal apresenta um dado curioso: o interesse em criar um negócio é elevado, mas a taxa de pessoas que efectivamente avançam continua relativamente baixa. Segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor, cerca de 60% dos portugueses afirmam já ter considerado criar um negócio, mas menos de 10% acabam por iniciar efectivamente um projecto empresarial.

Entre as razões apontadas, uma surge repetidamente: o medo de falhar. E a desculpa mais comum é “não tenho recursos”.

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Quando alguém considera empreender, surge quase sempre a mesma barreira mental: “Eu até fazia… mas não tenho recursos.”

Curiosamente, esta frase esconde um dos maiores mitos do empreendedorismo. A ideia de que um negócio começa quando temos tudo: dinheiro, equipa, estrutura, clientes, tecnologia. A realidade é exactamente o contrário. Nenhum negócio começa com todos os recursos necessários. Nenhum.

Os grandes projectos da história não nasceram da abundância. Nasceram da capacidade de identificar recursos que já existiam e ligá-los de uma forma nova. O verdadeiro empreendedor não é aquele que tem tudo. É aquele que sabe como encontrar aquilo que ainda não tem.

E, sobretudo hoje, na economia digital, essa realidade é ainda mais evidente. Em muitos casos, com uma ideia, um computador e um telemóvel é possível iniciar um projecto, testar um mercado e validar um modelo de negócio. Porque os recursos de um negócio não são apenas dinheiro.

Existem recursos físicos: equipamentos, tecnologia, plataformas, infra-estruturas. Existem recursos de talento: pessoas, competências, experiência, capacidade de execução. Existem recursos de conhecimento: tecnologia, dados, metodologias, propriedade intelectual. Existem recursos de mercado: reputação, comunidade, rede de contactos, clientes. Existem recursos financeiros: capital próprio, investidores, financiamento. E existem recursos de rede: parceiros estratégicos, distribuidores, comunidades, especialistas.

É aqui que surge uma das ideias mais poderosas do empreendedorismo moderno: quase tudo o que nos falta pode vir de um parceiro. É preciso fazer as perguntas certas: quem já tem aquilo que precisamos? Quem ganha se o nosso negócio crescer? Quem serve o mesmo cliente que nós? A partir destas perguntas nascem parcerias, alianças e oportunidades.

O empreendedor não acumula recursos, esse é um conceito antigo. O empreendedor orquestra recursos. Liga pessoas, conhecimento, tecnologia e mercado numa combinação nova.

No fundo, empreender não é possuir tudo. É saber ligar aquilo que já existe de uma forma diferente. Mas a verdade é que o problema raramente são os recursos. O verdadeiro problema é emocional.

O emprego tornou-se, para muitos, uma espécie de anestesia organizada. Dá estrutura. Dá previsibilidade. Dá legitimidade social. Permite dizer: “Tenho um bom cargo.” – “Estou estável.” – “Está tudo controlado.” Mas por dentro, quantas pessoas já vivem divorciadas de si mesmas?

Quantas entram no escritório com profissionalismo no rosto… e vazio no peito?

Quantas sabem, em silêncio, que cresceram demais para o lugar onde estão, mas continuam, ano após ano, a adiar o confronto com essa verdade?

O medo sabe vestir-se de prudência. Sussurra frases aparentemente sensatas: “Ainda não é a altura.” – “Preciso de mais segurança.” – “Talvez para o ano.” – “Primeiro tenho de ter tudo preparado.”

E assim, com uma voz calma e lógica, vai adiando vidas inteiras. Mas quase ninguém faz a pergunta mais importante: E se correr bem? E se aquele talento que hoje está a enriquecer a visão de outra empresa foi, na verdade, dado ao mundo para criar algo novo? E se a inquietação não for instabilidade… mas lucidez?

A maioria das pessoas não falha porque arrisca demais. Falha porque vive tempo demais no ensaio. Fica presa na fase da preparação eterna. Mais um curso. Mais um livro. Mais uma poupança. Mais uma confirmação. Como se a coragem tivesse de chegar pronta. Mas a coragem não funciona assim.

A coragem nasce em movimento. Quase todos os que construíram algo relevante caminharam sem ponte em algum momento. Avançaram sem rede. Não porque fossem irresponsáveis, mas porque perceberam uma lei simples da vida: a segurança raramente aparece antes da acção. Ela aparece depois.

Tem de haver uma hora na vida em que a pergunta muda. Deixa de ser: “E se eu falhar?”. E passa a ser: “E se eu continuar a trair aquilo que sei que sou capaz de construir?”

É essa pergunta que separa o profissional competente do criador consciente. O executante do visionário. O empregado de si mesmo daquele que decide tornar-se autor da sua própria história.

Porque há vidas que só começam quando deixamos de pedir permissão.

E há talentos que só florescem quando alguém, finalmente, decide dizer a si mesmo: “Chegou a minha vez.”

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