Por Francisco Sommer, Operations manager do Sitio
Agosto costuma ser tratado como um mês de ausência. É, na verdade, o único mês em que o país abranda o suficiente para que as pessoas voltem a ter tempo umas para as outras.
O resto do ano vive-se num ritmo que raramente permite parar para pensar em quem se conhece, no que se pode construir com essas pessoas ou em projectos que ficaram por desenvolver por falta de tempo. Reuniões sucedem-se a reuniões quase que em piloto automático as respostas exigem-se imediatas, e o essencial acaba sempre adiado para depois. Agosto interrompe esse ritmo. E é precisamente essa interrupção que o transforma, ao contrário do que a maior parte das agendas sugere, num dos meses mais férteis do calendário profissional.
Não se trata de optimismo forçado, do tipo que tenta ver vantagem em qualquer contratempo. Trata-se de uma observação simples. Quando as agendas esvaziam, o que sobra não é vazio, é tempo. E esse tempo é precisamente o que falta durante os outros onze meses para cultivar relações profissionais que vão além do imediato. Há uma diferença relevante entre contactar alguém porque se precisa de algo e falar com alguém porque, finalmente, há espaço para isso acontecer sem pressa. Agosto favorece a segunda situação de uma forma que o resto ano dificilmente permite.
As ligações profissionais que duram, raramente nascem de um encontro protocolar, com data marcada e objectivo comercial definido à partida. Nascem de conversas sem propósito imediato, entre pessoas que partilhavam um espaço antes de partilharem um negócio. É algo particularmente visível em Agosto, precisamente porque há menos pressa. Um café que se prolonga além do previsto, uma troca de ideias numa sala comum, um problema que se descobre em comum com alguém de uma área completamente diferente da nossa. São encontros que dificilmente acontecem numa reunião de quinze minutos entalada entre duas videochamadas, e que muitas vezes só se tornam possíveis quando ninguém está a olhar para o relógio.
Por isso, o valor de Agosto não está tanto no que se pode agendar, mas no que se pode deixar acontecer. Quem aproveita este mês para retomar contactos adiados, revisitar ideias por desenvolver ou simplesmente estar presente em comunidade onde outras pessoas também continuam a trabalhar, chega a Setembro com uma vantagem discreta, mas real. Relações que já não precisam de ser recomeçadas do zero, projectos que avançaram um passo sem que ninguém tivesse marcado uma reunião formal para isso.
Isto exige, no entanto, um lugar físico onde essa disponibilidade se possa manifestar. A distância favorece a eficiência, mas raramente favorece a confiança. Uma mensagem escrita comunica informação, um encontro presencial comunica disposição, e é essa disposição, mais do que qualquer estratégia de calendário, que decide se uma relação profissional avança ou se perde por falta de contacto real. É algo que se confirma ano após ano em comunidades de trabalho partido, onde o acaso profissional continua a acontecer mesmo quando o resto do país já abrandou.
Talvez valha a pena, por isso, deixar de tratar Agosto como uma pausa forçada e passar a vê-lo como um teste. É o mês em que a diferença entre quem só trabalha e quem constrói relações se torna mais visível do que em qualquer outra altura do ano, precisamente porque é o único período em que essa distinção deixa de estar escondida atrás da correria.














