O propósito e o jogo de damas

Human Resources
6 de Outubro 2025 | 14:00
O propósito e o jogo de damas

Quantos vemos arrastarem-se (“morrer”) todos os dias nas empresas? Porque não se morre apenas uma vez na vida, morre-se todos os dias, sempre que cada dia não é vivido.

 

Por Tomás Pinto Gonçalves, partner do Purpose Lab

 

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Numa das visitas a uma enfermaria com oito camas, no último piso dedicado a doentes terminais, encontrei o Paulo. Depois de muitos tratamentos e ciclos, de lutas e esperanças, ali estava ele, acabado de chegar, como quem chega a um aeroporto pronto para uma partida, sem hora marcada e com um destino praticamente seguro. Seria a última viagem.

O silêncio ensurdecedor destas camaratas estranha-se. Todos têm o “passaporte” numa mão e o bilhete na outra, mas ninguém quer mostrar o plano da sua viagem. A espera é tudo o que têm, e o silêncio é o medo que lhes resta.

Quebrando este silêncio, soube que o Paulo era cabeleireiro nas Avenidas Novas, que tinha vindo para Lisboa trabalhar aos 15 anos e que depois de 35 anos a embelezar cabeças, tinha a sua completamente despida. Mas apenas por fora, porque por dentro estava a fazer planos para esta recta final… até ter de cortar a meta.

Na terça-feira seguinte, encontrei o Paulo sorridente, com vontade de falar. Depois de uns dias a pensar na vida, ou do que resta dela, dos caminhos muitas vezes mal percorridos, dos ziguezagues da vida, das opções bem ou mal tomadas, dos que ficaram para trás e dos que caminharam com ele, o Paulo decidiu querer «viver o que me resta com dignidade».

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Disse-me que nem sempre foi uma pessoa fácil, mas a vida por vezes também lhe foi difícil. Depois ensinou-me que dignidade não é postura, é serviço, e que serviço é fazer o bem aos outros, com alegria. Lembrei-me dum poema de Tagore, que o pai de um amigo meu sempre trazia na carteira: «Sonhava que a vida era alegria. Despertei e vi que era serviço. Servi e vi que o serviço era alegria.»

Perguntou-me de que forma poderia servir com alegria durante a recta final, sabendo que as forças também lhe iam faltando. Dei-lhe uma sugestão: o silêncio aqui é de ouro, cada um vive a sua tristeza tão isolada e a contarem menos um dia que os espera. Porque não tentas fazer desta enfermaria a enfermaria mais feliz do hospital? «Que boa ideia! Não sei se os outros vão alinhar, não sei que forças terei, não sei como o farei, mas esse será o meu propósito.»

Na semana seguinte, os outros pacientes, quase sempre deitados, saltavam de cama em cama para o torneio de damas. Na sala de visitas, jogava-se outro torneio em paralelo, noutras enfermarias também. Afinal, a alegria contagia-se, e o propósito estava a fazer o seu caminho. Tive de ir comprar mais dois tabuleiros de damas.

As semanas foram passando até o Paulo ficar totalmente acamado, na sua cama junto à janela. A sua cama passou a ser um salão de jogo. A alegria com que os outros lhe vinham contar quem tinha ganho noutros tabuleiros era sinal de que estava a conseguir viver o seu propósito.

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Numa terça-feira, encontrei a cama do Paulo vazia. Dizem que foi serenamente e com um sorriso. Que nesse dia não houve campeonato de damas, mas no dia seguinte festejaram a passagem do Paulo com mais umas partidas.

O Paulo morreu, redimido de todos os arrependimentos e feliz por ter espalhado vida e alegria. Porque quis fazer a última viagem com propósito. E porque o seu propósito deu vida àqueles que a perdem.

Em jeito de remate: porquê esta histórica verídica do Paulo e o que tem a ver com organizações? Porque o propósito pessoal, o propósito da nossa função e o propósito da empresa podem fazer a diferença entre estar ou ser vivo e estar ou ser morto. Não é uma questão de postura, é uma questão de vida.

As empresas podem ser os grandes viveiros de pessoas com propósito porque é no sentido da vida que a vida tem sentido. Organizações com alma e com propósito são (cientificamente) mais rentáveis porque o propósito convoca-nos e motiva- nos para seguirmos com sentido, para sermos melhores e para sermos maiores. E, com isso, ganharemos qualquer jogo, em qualquer tabuleiro.

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Este artigo foi publicado na edição de Setembro (nº. 177) da Human Resources

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