Os 13 C’S da liderança

Muitas são as características da liderança – algumas inatas, outras nem tanto –, mas existe uma “espinha dorsal” que não lhe pode faltar. São os 13 C’s, de que a Liderança depende para que possa ser exercida na sua plenitude.

 

Por Ricardo Caldeira, autor do livro “Liderança Emocional”

 

A liderança continua a ser, nos tempos modernos, um tema sui generis, na medida em que cada vez sabemos e estudamos mais sobre ela, mas ao mesmo tempo cada vez mais parece haver tanta coisa ainda por descobrir. Continua a ser um tema complexo, desde logo na sua própria definição. Não obstante, há características imprescindíveis que a determinam. Essas são para mim os 13 C’s da Liderança. São também os se’s da Liderança, no sentido em que “se” não os tiver, for, ou aplicar, um líder nunca o será na sua plenitude.

Sem nenhuma ordem ou hierarquização em particular, eis o que caracteriza cada um destes C’s da Liderança e justifica a sua decisividade:

 

1. Comunicação
Cada vez mais fundamental, sobretudo se tivermos em consideração o cenário actual, em que, abruptamente, várias das nossas rotinas, pessoais e profissionais, tiveram de ser reajustadas. É um dos C’s mais importantes. A comunicação tem a ver com o emissor, com a mensagem passada (em todas as suas vertentes – teor, forma, etc.), mas também com o receptor. Faltando comunicação, falta tudo. Não se pode solicitar algo, e esperar que seja executado, se não se souber pedir; do outro lado, se não se souber o que é pretendido – quando, como e onde – dificilmente se conseguirá concretizar. E como se motiva um colaborador? Como se orientam estratégias, definem metas e constroem procedimentos? Como se presta feedback e se prospectiva o feedforward? Com comunicação clara, precisa e objectiva. É preciso inteligência interpessoal – não só saber falar, como sobretudo saber ouvir.

 

2. Conhecimento
Um líder não tem de saber de tudo, ou ser especialista numa determinada matéria (à excepção de liderar), mas não pode não saber nada. Sendo o líder alguém que ambicionamos ser, que seguimos, que é uma referência para nós, no mínimo tem de ser alguém competente na sua função (já lá vamos à competência). Alguém que reconhecidamente percebe pouco daquilo que faz dificilmente reunirá grandes seguidores ou granjeará o respeito dos seus colaboradores. Saber um pouco de tudo, ser interessado, interveniente, ter preocupação com o maior conhecimento, com a aprendizagem e desenvolvimento, tanto seu como das suas equipas, faz parte de ser líder.

 

3. Conectividade (influenciada pela empatia) – funcionar em “rede”
É a identificação intelectual e afectiva com outrem. Só em equipa se conseguem grandes resultados. Equipa. Plural. O contributo de cada um é potenciado por estar associado e interligado ao dos restantes. Quer entre líder e equipas, quer entre os próprios membros das equipas, tem de haver “química”, tem de haver conectividade, comunhão de pensamentos, de ideias, de modos de actuar. O líder tem a este propósito, também, um papel decisivo. Nas palavras dos inigualáveis adeptos do Liverpool F.C., o espírito tem de ser “You’ll never walk alone”.

 

4. Criatividade
Em pleno século XXI, no mundo cada vez mais globalizado em que vivemos, com a rapidez tecnológica instalada, este é factor diferenciador. Ou somos mais do mesmo, mais uma organização, “one of the bottom”, ou, ao invés, queremos ser a organização – a referência. Isso só é possível com frequentes rasgos de criatividade, de disrupção, na forma de trabalhar, mas também nas formas de comunicar, de pensar e de agir.

 

5. Confiança
Catalisador necessário em qualquer passo na nossa vida (pessoal ou profissional). Espírito positivo e mentalidade vencedora. Se é para ir, se é para fazer, então é para ganhar, sem medo – não existem outros resultados. No final, pode até acontecer não sermos bem-sucedidos, mas a simples adopção desta atitude é mais do que meio caminho andado para que tal aconteça. Falar em confiança, na égide profissional, lembra-me sempre um episódio (há muitos outros) que me marcou para sempre, de uma primeira reunião com um cliente potencial, em que a pessoa que fui acompanhar (eu era novo na empresa e era uma das minhas primeiras experiências profissionais), perante tanta desconsideração, tanta arrogância por parte do cliente, educadamente, mas com muita personalidade e confiança, pede licença para se levantar e para terminar a reunião, pois, e estas foram as suas palavras, “o senhor não tem perfil para ser nosso cliente”.

 

6. Carácter
Carácter e integridade é ser-se bom e fazer o bem, mesmo quando ninguém está a ver. É ser-se, e sempre, ao invés de apenas se parecer, ou ser-se só em situações específicas. Ser verdadeiro exemplo a seguir. Carácter vai converter-se em carisma.

 

7. Capacidade
Na lógica daquilo que somos capazes de fazer. Capacidade de decisão, capacidade de motivação, capacidade de organização, capacidade de definição de uma missão, de valores e objectivos, capacidade, e sobretudo vontade, de aprendizagem.

 

8. Competência
A lógica deixa de ser o que somos capazes de fazer, para passar a ser a qualidade com que o fazemos: posse das características necessárias a algo. É a assertividade com que conseguimos executar as nossas tarefas.

 

9. Coragem
Antifragilidade, tomar a iniciativa, dar o primeiro passo, sobretudo quando mais ninguém tem ou quer ter iniciativa. Seja nos bons ou nos maus momentos, dar a cara, “o peito às balas”, não se esconder de nada ou ninguém. O medo de fracassar nunca se pode sobrepor à vontade de triunfar. Esse tipo de atitude atrairá maior respeito e confiança – sobretudo quando em prol de alguém.

 

10. Cooperação
Acção conjunta tendo em vista objectivos comuns. O todo é sempre mais e maior do que o somatório de todas as partes. “Se quiser ir depressa vá sozinho, mas se quiser chegar longe leve companhia”, já diz o provérbio.

 

11. Consciousness
Consciência, consciência da consciência ou auto-consciência. Conhecer-se muito bem a si próprio, antes de a qualquer outro, para depois conseguir dar-se a conhecer e conseguir também conhecer melhor os outros. Esta autoconsciência abarca a percepção individual dos nossos próprios pensamentos, memórias, sentimentos e sensações únicos (inclui experiências, cognição e percepções). Basicamente, é a percepção que cada qual tem de si mesmo e do mundo em seu redor, é a opinião e sentimento que nós próprios temos acerca daquilo que fazemos, de acordo com Denis Diderot. Esta consciência é subjectiva e exclusiva.

 

12. Cérebro
Peça central e essencial em qualquer ser humano. “Sala de máquinas” onde se interligam todos estes conceitos. Não sejamos hipócritas, um líder tem de ser cerebral, em todas as vertentes da sua actuação – pessoal e profissional. O cérebro é também quem, dentro do possível, orienta as emoções, tão necessárias e desejáveis na esfera da Liderança.

 

13. Coração
Levar as emoções para a esfera das relações laborais. Todos nós fazemos com mais gosto, mais brio, mais motivados e satisfeitos, algo que não nos seja imposto, que nos realize, que se revista, a montante e a jusante, de companheirismo, de afecto, de genuína preocupação e acompanhamento (novamente, pessoal e profissional). A equipa é a nossa segunda família, e a organização a nossa segunda casa – sintamo-nos bem em ambas, como nos sentimos nas primeiras. No final de tudo, podemos ainda incluir e falar de um 14.º C – o “C” de Colectânea de outras skills e competências, igualmente importantes e decisivas na construção, primeiro, e na acção, depois, de um verdadeiro líder. Dentro desse conjunto de outras características indispensáveis apraz destacar, pela especial relevância, a humildade, a inteligência emocional e cultural (esta é cada vez mais premente), a empatia, a ética, o mindfulness, a resiliência, a adaptabilidade, a dedicação/entusiasmo, a gestão de conflitos, a delegação de tarefas e a visão. Muitas destas, naturalmente, quase se confundem ou no mínimo se misturam com alguns dos 13 C’s acima referidos, mas o seu peso e impacto merecem uma individualização e particular destaque.

Coincidência ou não, é também por “C” que começa o nome com o qual apelidei, no artigo que escrevi para o Leadership Circle Journal em Abril de 2020, (“Cisne Negro da Liderança: O Líder Emocional”), os líderes que reúnem todas estas características (ou a sua grande maioria), os líderes emocionais, os verdadeiros líderes do e para o século XXI, são os “cisnes negros” da Liderança.

Estes “cisnes negros” são altamente improváveis (neste caso, mais numa lógica da imprevisibilidade da sua “localização” – nunca sabemos onde vamos encontrar algum, se é que vamos encontrar algum), altamente impactantes (creio que não restarão grandes dúvidas a este propósito) e, pelo menos em teoria, e esse é o grande paradigma que urge alterar (existe ainda uma gigantesca distância entre a teoria, que “todos sabem”, e a prática, que ninguém aplica!), depois de descobertos são facilmente explicáveis e desconstruídos – toda a gente reclama saber, a posteriori, como é e como actua esse tipo de líder.

Certo parece ser que os 13 C’s garantem a existência de um destes líderes.

 

Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº.121) da Human Resources, nas bancas.

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