Os 13 C’S da liderança

Human Resources
27 de Janeiro 2021 | 12:20

Muitas são as características da liderança – algumas inatas, outras nem tanto –, mas existe uma “espinha dorsal” que não lhe pode faltar. São os 13 C’s, de que a Liderança depende para que possa ser exercida na sua plenitude.

 

Por Ricardo Caldeira, autor do livro “Liderança Emocional”

 

A liderança continua a ser, nos tempos modernos, um tema sui generis, na medida em que cada vez sabemos e estudamos mais sobre ela, mas ao mesmo tempo cada vez mais parece haver tanta coisa ainda por descobrir. Continua a ser um tema complexo, desde logo na sua própria definição. Não obstante, há características imprescindíveis que a determinam. Essas são para mim os 13 C’s da Liderança. São também os se’s da Liderança, no sentido em que “se” não os tiver, for, ou aplicar, um líder nunca o será na sua plenitude.

Continue a ler após a publicidade

Sem nenhuma ordem ou hierarquização em particular, eis o que caracteriza cada um destes C’s da Liderança e justifica a sua decisividade:

 

1. Comunicação
Cada vez mais fundamental, sobretudo se tivermos em consideração o cenário actual, em que, abruptamente, várias das nossas rotinas, pessoais e profissionais, tiveram de ser reajustadas. É um dos C’s mais importantes. A comunicação tem a ver com o emissor, com a mensagem passada (em todas as suas vertentes – teor, forma, etc.), mas também com o receptor. Faltando comunicação, falta tudo. Não se pode solicitar algo, e esperar que seja executado, se não se souber pedir; do outro lado, se não se souber o que é pretendido – quando, como e onde – dificilmente se conseguirá concretizar. E como se motiva um colaborador? Como se orientam estratégias, definem metas e constroem procedimentos? Como se presta feedback e se prospectiva o feedforward? Com comunicação clara, precisa e objectiva. É preciso inteligência interpessoal – não só saber falar, como sobretudo saber ouvir.

Continue a ler após a publicidade

 

2. Conhecimento
Um líder não tem de saber de tudo, ou ser especialista numa determinada matéria (à excepção de liderar), mas não pode não saber nada. Sendo o líder alguém que ambicionamos ser, que seguimos, que é uma referência para nós, no mínimo tem de ser alguém competente na sua função (já lá vamos à competência). Alguém que reconhecidamente percebe pouco daquilo que faz dificilmente reunirá grandes seguidores ou granjeará o respeito dos seus colaboradores. Saber um pouco de tudo, ser interessado, interveniente, ter preocupação com o maior conhecimento, com a aprendizagem e desenvolvimento, tanto seu como das suas equipas, faz parte de ser líder.

 

3. Conectividade (influenciada pela empatia) – funcionar em “rede”
É a identificação intelectual e afectiva com outrem. Só em equipa se conseguem grandes resultados. Equipa. Plural. O contributo de cada um é potenciado por estar associado e interligado ao dos restantes. Quer entre líder e equipas, quer entre os próprios membros das equipas, tem de haver “química”, tem de haver conectividade, comunhão de pensamentos, de ideias, de modos de actuar. O líder tem a este propósito, também, um papel decisivo. Nas palavras dos inigualáveis adeptos do Liverpool F.C., o espírito tem de ser “You’ll never walk alone”.

 

Continue a ler após a publicidade

4. Criatividade
Em pleno século XXI, no mundo cada vez mais globalizado em que vivemos, com a rapidez tecnológica instalada, este é factor diferenciador. Ou somos mais do mesmo, mais uma organização, “one of the bottom”, ou, ao invés, queremos ser a organização – a referência. Isso só é possível com frequentes rasgos de criatividade, de disrupção, na forma de trabalhar, mas também nas formas de comunicar, de pensar e de agir.

 

5. Confiança
Catalisador necessário em qualquer passo na nossa vida (pessoal ou profissional). Espírito positivo e mentalidade vencedora. Se é para ir, se é para fazer, então é para ganhar, sem medo – não existem outros resultados. No final, pode até acontecer não sermos bem-sucedidos, mas a simples adopção desta atitude é mais do que meio caminho andado para que tal aconteça. Falar em confiança, na égide profissional, lembra-me sempre um episódio (há muitos outros) que me marcou para sempre, de uma primeira reunião com um cliente potencial, em que a pessoa que fui acompanhar (eu era novo na empresa e era uma das minhas primeiras experiências profissionais), perante tanta desconsideração, tanta arrogância por parte do cliente, educadamente, mas com muita personalidade e confiança, pede licença para se levantar e para terminar a reunião, pois, e estas foram as suas palavras, “o senhor não tem perfil para ser nosso cliente”.

 

6. Carácter
Carácter e integridade é ser-se bom e fazer o bem, mesmo quando ninguém está a ver. É ser-se, e sempre, ao invés de apenas se parecer, ou ser-se só em situações específicas. Ser verdadeiro exemplo a seguir. Carácter vai converter-se em carisma.

 

7. Capacidade
Na lógica daquilo que somos capazes de fazer. Capacidade de decisão, capacidade de motivação, capacidade de organização, capacidade de definição de uma missão, de valores e objectivos, capacidade, e sobretudo vontade, de aprendizagem.

 

8. Competência
A lógica deixa de ser o que somos capazes de fazer, para passar a ser a qualidade com que o fazemos: posse das características necessárias a algo. É a assertividade com que conseguimos executar as nossas tarefas.

 

9. Coragem
Antifragilidade, tomar a iniciativa, dar o primeiro passo, sobretudo quando mais ninguém tem ou quer ter iniciativa. Seja nos bons ou nos maus momentos, dar a cara, “o peito às balas”, não se esconder de nada ou ninguém. O medo de fracassar nunca se pode sobrepor à vontade de triunfar. Esse tipo de atitude atrairá maior respeito e confiança – sobretudo quando em prol de alguém.

 

10. Cooperação
Acção conjunta tendo em vista objectivos comuns. O todo é sempre mais e maior do que o somatório de todas as partes. “Se quiser ir depressa vá sozinho, mas se quiser chegar longe leve companhia”, já diz o provérbio.

 

11. Consciousness
Consciência, consciência da consciência ou auto-consciência. Conhecer-se muito bem a si próprio, antes de a qualquer outro, para depois conseguir dar-se a conhecer e conseguir também conhecer melhor os outros. Esta autoconsciência abarca a percepção individual dos nossos próprios pensamentos, memórias, sentimentos e sensações únicos (inclui experiências, cognição e percepções). Basicamente, é a percepção que cada qual tem de si mesmo e do mundo em seu redor, é a opinião e sentimento que nós próprios temos acerca daquilo que fazemos, de acordo com Denis Diderot. Esta consciência é subjectiva e exclusiva.

 

12. Cérebro
Peça central e essencial em qualquer ser humano. “Sala de máquinas” onde se interligam todos estes conceitos. Não sejamos hipócritas, um líder tem de ser cerebral, em todas as vertentes da sua actuação – pessoal e profissional. O cérebro é também quem, dentro do possível, orienta as emoções, tão necessárias e desejáveis na esfera da Liderança.

 

13. Coração
Levar as emoções para a esfera das relações laborais. Todos nós fazemos com mais gosto, mais brio, mais motivados e satisfeitos, algo que não nos seja imposto, que nos realize, que se revista, a montante e a jusante, de companheirismo, de afecto, de genuína preocupação e acompanhamento (novamente, pessoal e profissional). A equipa é a nossa segunda família, e a organização a nossa segunda casa – sintamo-nos bem em ambas, como nos sentimos nas primeiras. No final de tudo, podemos ainda incluir e falar de um 14.º C – o “C” de Colectânea de outras skills e competências, igualmente importantes e decisivas na construção, primeiro, e na acção, depois, de um verdadeiro líder. Dentro desse conjunto de outras características indispensáveis apraz destacar, pela especial relevância, a humildade, a inteligência emocional e cultural (esta é cada vez mais premente), a empatia, a ética, o mindfulness, a resiliência, a adaptabilidade, a dedicação/entusiasmo, a gestão de conflitos, a delegação de tarefas e a visão. Muitas destas, naturalmente, quase se confundem ou no mínimo se misturam com alguns dos 13 C’s acima referidos, mas o seu peso e impacto merecem uma individualização e particular destaque.

Coincidência ou não, é também por “C” que começa o nome com o qual apelidei, no artigo que escrevi para o Leadership Circle Journal em Abril de 2020, (“Cisne Negro da Liderança: O Líder Emocional”), os líderes que reúnem todas estas características (ou a sua grande maioria), os líderes emocionais, os verdadeiros líderes do e para o século XXI, são os “cisnes negros” da Liderança.

Estes “cisnes negros” são altamente improváveis (neste caso, mais numa lógica da imprevisibilidade da sua “localização” – nunca sabemos onde vamos encontrar algum, se é que vamos encontrar algum), altamente impactantes (creio que não restarão grandes dúvidas a este propósito) e, pelo menos em teoria, e esse é o grande paradigma que urge alterar (existe ainda uma gigantesca distância entre a teoria, que “todos sabem”, e a prática, que ninguém aplica!), depois de descobertos são facilmente explicáveis e desconstruídos – toda a gente reclama saber, a posteriori, como é e como actua esse tipo de líder.

Certo parece ser que os 13 C’s garantem a existência de um destes líderes.

 

Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº.121) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital.

Partilhar


Mais Notícias