Pessoa e chefe: inimigos de estimação ou BFF?

Human Resources
17 de Novembro 2025 | 11:30

Por Vítor Cunha, CEO da JLM & Associados (in “93 vozes pela comunicação”)

 

O CEO contemporâneo, simultaneamente protagonista e refém, tanto inspira as suas equipas como é apanhado numa onda digital. O seu percurso é feito de pequenas armadilhas invisíveis: um sorriso excessivo soa a pose, uma piada mal contada pode levar mais rapidamente à demissão do que ao riso, um post aparentemente inocente desencadeia, em minutos, debates e boatos de alcatifa.

De chefe a par, de representante do acionista a representante dos trabalhadores, de persona privada a altifalante, de mudo a hiperativo. Nos dias que correm, muito por força das redes sociais e profissionais, o CEO tornou-se um dos elementos mais relevantes numa organização. Tudo o que ele faz e diz no plano privado pode afetar a empresa para a qual trabalha. Dirão: sempre foi assim. Verdade, mas nunca a comunicação foi tão frequente como agora, porque é fácil, não é mediada, sendo pensada unilateralmente (para não haver confronto com a mente enviesada do jornalista que só procura más notícias, logo hoje que temos tão boas novidades para contar – pensam eles).

A vinculação do homem à instituição convoca também uma nova responsabilidade. Pode um CEO de uma companhia de bens de grande consumo partilhar no Instagram as suas férias numa praia de nudistas, ou naturistas? Pode o mesmo CEO publicar informação sobre o seu último fim de semana, a passear num Porsche último modelo com uma loira deslumbrante?

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Poder, pode, mas tem de estar certo de que corre riscos e pode criar dificuldades, em casa e na empresa – e quem diz a empresa quer dizer às pessoas que lá trabalham e que dependem do seu salário para viver. As redes sociais e mesmo as profissionais comportam vários perigos e é muito fácil cometer erros, como se viu recentemente (junho de 2025) com Elon Musk: o dono do X não soube usar o X e teve de recuar perante o Presidente americano.

Na minha atividade como consultor de comunicação tenho acompanhado com interesse académico e profissional o papel do CEO nas organizações, enquanto líder e face visível. Há vários tipos de perfil mais ou menos evidentes, que tentarei caracterizar:

  • O tímido: se mandasse (como sabemos, o CEO manda menos do que se julga e do que ele imagina) nunca falaria com um jornalista; quando muito, um post no LinkedIn por ocasião do aniversário de sua majestade o rei. O tímido fica nervoso à frente da câmara, come palavras e não acerta na conjugação dos verbos. Sabe que precisa de muito treino, mas o terror impede-o de agir. Como sabe que muitas vezes a organização precisa de trabalhar a reputação e perceção, que lhe pagam isso, e não pode recusar. O tímido consegue ultrapassar a ansiedade se sentir que é apoiado, se for bem treinado. O tímido, quando quer, vai longe.
  • O falso tímido: tem, no essencial, quase todas as características do «tímido», mas, como o nome indica, adora aparecer e tem uma autoconfiança elevada. Só que nunca o assume. Por vezes, a ansiedade é tal que comete erros infantis, como fazer uma intervenção em inglês sem estar preparado, sabendo ter um sotaque  inclassificável e vocabulário reduzido. O falso tímido tem tudo para que as coisas corram mal, apesar das palmadinhas nas costas dos do costume.
  • O racional: é o meu preferido. Tem noção da sua função e da importância da (sua) palavra, tanto na comunicação interna como na externa. Gosta de planificar, mas está disposto a ouvir a realidade e a mudar. É confiante, mas tem as dúvidas que a razão aconselha – do aparente paradoxo nasce o bom profissional, que raramente se deixa apanhar ou baixa as defesas.
  • O hiperativo: é o mais imprevisível. Capaz do pior e do melhor numa turbulenta e incansável procura pelo palco, seja no fim da rua, seja no fim do mundo, provoca o caos com a facilidade com que respira. Confunde ego com comunicação, comunicação com exposição, exposição com ego. Um perigo, muitas vezes difícil de travar, dada a imprevisibilidade e intempestividade. Em resumo: o estilo Trump.

Na nossa empresa gostamos de recordar aos clientes, entre conselhos e alertas, que toda a ação gera uma reação, mas nas redes sociais a reação precede por vezes qualquer explicação.

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O verdadeiro desafio passa por saber equilibrar o espontâneo com o estratégico, o genuíno com o cuidadosamente preparado, a liberdade pessoal com a responsabilidade institucional. No fim do dia, todas essas linhas se intersectam: entre a pessoa privada e o chefe público, todos confundimos as personagens, sobretudo quando atuam em redes globais.

O CEO contemporâneo, simultaneamente protagonista e refém, tanto inspira as suas equipas como é  apanhado numa onda digital. O seu percurso é feito de pequenas armadilhas invisíveis: um sorriso excessivo soa a pose, uma piada mal contada pode levar mais rapidamente à demissão do que ao riso, um post  aparentemente inocente desencadeia, em minutos, debates e boatos de alcatifa. E o quotidiano prossegue, entre lapsos estilísticos e imprevisíveis reabilitações públicas, porque a reputação agora é circular,  constantemente em avaliação, e não há manual que (nos) prepare para todas as nuances do humano vestido de gestor.

Tudo isto revela os contornos de uma tragicomédia de expetativas: queremos chefes que sejam humanos, pessoas que inspirem com liderança, líderes que nunca esqueçam quem são e que pratiquem moderadamente o velho e saudável hábito de manter o bom senso.

E se quisermos o oposto de tudo isto, podemos sempre voltar a Donald Trump, o Presidente CEO: o seu estilo de liderança e forma de comunicar introduziram práticas que estão a fazer sucesso pelo mundo fora. A capacidade de enfrentar problemas com atoardas, numa onda crescente, sem respeito pelo que se disse antes, como se o mundo começasse todos os dias, é uma das faces deste mundo hiperglobal que as redes nos trouxeram.

Ainda nem sabemos onde estamos, dificilmente imaginamos como tudo isto vai acabar.

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Vítor Cunha tem uma carreira de mais de 14 anos como jornalista, durante a qual foi diretor-adjunto dos semanários O Independente e Euronotícias. Licenciado em Ciências da Comunicação, colaborou ainda com meios como a revista Atlântico, o diário i e Meios & Publicidade. Atualmente, além e assinar textos regulares na publicação digital +M, dedica-se à consultoria de comunicação, tendo desenvolvido projetos para empresas multinacionais e instituições de diversos setores, como finanças, saúde, tecnologia e indústria, em vários mercados. É CEO da JLM & Associados e administrador de outras empresas do mesmo Grupo em Portugal, Angola e Moçambique.

 

[Nota: Texto escrito ao abrigo do acordo ortográfico de 1990.]

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